Jundiaí

Quarentena faz com que pessoas comam mais

GULOSEIMAS Instabilidade emocional e frustrações contribuem para o aumento no consumo de produtos industrializados e o ganho de peso


                  ALEXANDRE MARTINS
Camila Vivo reconhece que aumentou o consumo de lanches, chocolates e refrigerantes durante a quarentena
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A facilidade das comidas rápidas sempre foi muito atraente, mas durante a quarentena a procura de alimentos processados aumentou e, consequentemente, o ganho de peso também.

Camila Vivo, de 30 anos, é cabeleireira e conta que tem consumido mais alimentos processados do que o indicado. "Eu não tenho ido muito ao mercado, apenas para comprar algo específico. A minha família tem um mini mercado, por isso temos tudo ao alcance e acabei ficando mal acostumada", diz.

"Eu tenho síndrome do pânico e depressão, e acredito que a pandemia fez com que eu me sentisse desestabilizada. Como sempre gostei de lanches e outras besteirinhas, acho que essa ansiedade e esses sentimentos ruins me fizeram descontar as minhas frustrações na comida", explica Camila.

A cabeleireira sente que o seu estado emocional e o aumento do consumo de produtos industrializados têm relação. "Acho que o fato de não poder sair de casa se mistura com um nervosismo de ter a vida como ela era antes. Já que a pandemia só piora e esse momento tranquilo nunca chega, eu acabei buscando refúgio em besteiras como salgadinhos e chocolates, que sempre gostei de consumir desde a infância", diz.

O delivery tem sido um atalho cada vez mais utilizado, mas nem sempre as pessoas optam por uma refeição mais leve e saudável. "Os aplicativos de entrega facilitam muito quando não fazemos o jantar aqui em casa. Geralmente peço para toda a família, umas duas vezes na semana, e costumo optar por lanches", diz Camila.

A cabeleireira engordou aproximadamente dez quilos durante a quarentena. "Não me dei conta de que estava fugindo do controle. Comecei a perceber quando algumas roupas pararam de servir, e o meu rosto ficou mais redondinho. Agora estou tentando cortar os doces e refrigerantes, mas tem sido difícil", afirma.

"Eu quase não como frutas, mas sei que deveria. Estou tomando mais suco natural, só que de vez em quando escolho o refrigerante ou alguma outra besteirinha. Eu tinha começado acompanhamento em uma clínica de estética, mas não consegui me adaptar porque eles cortaram tudo de uma vez. O que eu estou precisando mesmo é uma reeducação alimentar", comenta Camila.

A cabeleireira reconhece que precisa iniciar uma mudança de hábitos, para se sentir melhor consigo mesma. Apesar de parecer simples, é necessário um acompanhamento para ir devagar. "Tenho intenção de procurar algum nutricionista ou outro profissional para me orientar, porque preciso de ajuda. Não pode ficar do jeito que está, e acredito que com tratamento posso chegar em uma solução", afirma.

ATENÇÃO

Mariana Soares Jorgino, de 38 anos, é médica endocrinologista e alerta para o consumo exagerado dos alimentos industrializados. "Os alimentos processados são muito ricos em sal, açúcar e gorduras. O consumo excessivo desses alimentos pode acarretar elevação da pressão arterial, dos níveis de colesterol ruim e glicemia, além de causar ganho de peso. Esse conjunto de alterações aumenta os riscos cardiovasculares, com maiores chances de infarto e AVC", diz.

"Grande parte das pessoas passou a ter o hábito de comer em casa durante a pandemia, e muitas vezes recorrem a alimentos mais fáceis, como as comidas rápidas, congeladas, frituras, pizzas, lanches e doces. Quem está trabalhando em casa ou tem uma rotina agitada trabalhando fora pode não ter tempo para preparar uma refeição adequada", comenta.

São poucos os restaurantes de comidas naturais e saudáveis disponíveis em aplicativos de entrega. "Com o tempo estendido da pandemia, alguns lugares viram a necessidade de aderir a esse tipo de venda, mas não todos. Inclusive, refeições mais saudáveis precisam ser consumidas rapidamente, por se tratarem de alimentos frescos e naturais, e isso pode não compensar no serviço de entrega", diz Mariana.

A mudança de hábitos alimentares não é uma tarefa fácil. Ela deve ser um processo gradual e de conscientização. "Diminuir ao máximo as comidas industrializadas, como congelados, lanches, pizzas, refrigerantes, doces em excesso, já é um grande passo. Aumentar consumo de frutas, legumes, saladas, sucos naturais e água ajudam bastante. A extensão da pandemia faz com que agora seja hora de pensar na própria saúde", explica a médica.

PRÁTICA

Começar por alimentos mais naturais é interessante. "Trocar os congelados por comidas preparadas em casa faz disso um momento em família. Preparar os alimentos pode ser uma oportunidade de reunião familiar e descontração, principalmente se existe alguma criança em casa", afirma Mariana.

É importante procurar oportunidades para substituir os alimentos. "Congelados de frango e batata, por exemplo, podem ser substituídos por um filé de frango e a própria batata, sem qualquer prejuízo no sabor. O macarrão instantâneo também pode ser substituído por um macarrão integral, feito com legumes. Sucos artificiais e refrigerantes devem ser substituídos por sucos naturais ou de polpas, e estas são apenas algumas ideias", aconselha a médica.

Para garantir um equilíbrio completo, é interessante praticar alguma atividade física. "Fazer caminhada, alongamento, ginástica e outras atividades traz grande benefício para saúde física e mental. A atividade física regular tem melhorado sintomas de ansiedade e depressão, ainda mais durante o isolamento social", afirma.


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