Jundiaí

Grafite sai da periferia e chega à decoração de casas e comércios

Antes criminalizados, os grafites estão sendo reconhecidos pela sua importância artística


Arquivo Pessoal
Leonardo de Carvalho Gonzaga Junior faz do grafite seu sustento
Crédito: Arquivo Pessoal

Antes criminalizados, os grafites estão sendo reconhecidos pela sua importância artística e hoje estão presentes nos interiores de casas e comércios. Tão cobiçados que, além de resgate cultural, o grafite se consolidou como profissão.

O autônomo Leonardo de Carvalho Gonzaga Junior, de 26 anos, trabalha só com grafite para se sustentar nos dias atuais. "Faz oito anos que faço grafite, comecei a fazer sem autorização, espalhando as artes em terrenos baldios e abandonados e, assim, fui aperfeiçoando minhas técnicas e vi que poderia trabalhar com o que gosto sem ter problemas com a polícia e ainda ganhar um dinheiro", comenta.

Leonardo foi melhorando e se profissionalizando com o tempo, fazendo propaganda de boca em boca para se manter. "Nesses últimos quatro anos estou conseguindo me incluir no mercado de trabalho, através de decorações internas e externas, fachadas e reproduções de logo. Desde um simples desenho até a pintura de uma loja completa", conta.

Michel Rodrigo do Prado, de 41 anos, é grafiteiro desde seus 11 anos. "Minha trajetória começou aos oito anos, mexendo com letreiros em muros junto com meu tio, mas foi a partir dos 11 que obtive mais informações sobre grafites feitos com spray e aerógrafos, assim, fui me aperfeiçoando cada vez mais, pois trabalhar com pintura já estava no meu DNA", comenta.

Prado possui diversos trabalhos em comércios, casas e empresas. "Muitas pessoas pedem para grafitar suas residências, seja do lado interno ou externo para valorizar o ambiente e espaço de lazer que cada um tem em seu lar. Mas no geral, onde houver lugar para expor minha arte eu vou lá e faço o trabalho", afirma.

RECONHECIMENTO

O analista de suporte, Gabriel Ziviani Pauleto Pereira, de 23 anos, contratou um grafiteiro para dar vida ao ambiente de sua casa. "Gosto muito desse tipo de arte, pois quem faz tem que ter o dom, não é pra qualquer um", diz.

O desenho do grafite foi ideia do Gabriel, mas teve ajuda do experiente grafiteiro contratado. "Devemos apoiar todo e qualquer trabalho honesto que traga sustento pra sua família. E sempre que puder, indicar ou compartilhar nas redes sociais para alavancar o número de trabalhos e clientes a esses profissionais", afirma.

Segundo Leonardo, o grafite está sendo cada vez mais reconhecido como arte, após um bom tempo sendo criminalizado. "Hoje em dia você pode encontrar grafites em igrejas, batalhões da polícia, lojas de roupa, chocolaterias, salões de cabeleireiro e em tantos outros lugares", conta.

O autônomo faz de dois a três grafites por semana, mas com a pandemia houve uma diminuição. "Faço trabalhos para inaugurar comércios ou para propagandas, mas agora são poucos os que estão reformando na esperança de reabrir o estabelecimento. Meus valores alteram bastante, pois preciso avaliar a situação da parede, se vai precisar pintar o fundo antes, a dificuldade da arte que o cliente deseja, se precisa de andaime por causa da altura e outros fatores. Minha média costuma ser entre R$ 500 a R$ 1.800 por parede", comenta.

Para Michel, atualmente o grafite deixou de ser enxergado como uma parede suja, cheia de rabiscos. "Ele está sendo visualizado como uma obra de arte, no qual o artista expõe seus sentimentos e seus pensamentos. E a cada dia que passa, ganhamos mais espaço dentro das moradias", ressalta.

De acordo com Prado, a pandemia aumentou um pouco suas demandas, pois como as pessoas estão dentro de suas casas, elas sentem vontade de experimentar coisas novas e diferentes para mudar o ambiente.

"Os valores dependem muito, mas pra mim não é questão de grana, é questão de prazer, fazer algo que eu amo, ver um cliente satisfeito com seu trabalho. E isso não tem dinheiro que paga", afirma.

OBSTÁCULOS

"Um dos maiores desafios do grafiteiro é provar que a arte tem mais valor que algo digitalizado, feito por computadores. Muitas pessoas acham que o grafite é só um lazer e apenas uma pintura, mas não é tão simples assim, existe todo um processo de mão de obra, desde o projeto até finalização da arte", comenta Leonardo.

Já para Michel, o grande desafio é provar para a população que seu trabalho não é um crime. "O que fazemos é cultura, conversar com a sociedade através de uma comunicação visual e mostrar para todos a realidade do dia a dia através da arte", ressalta.

(Lucas Hideo)

 


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