Jundiaí

Cansaço suprimido pela tarefa de ajudar quem precisa

DEMANDA Médicos, que atuam ou não na linha de frente da covid-19, estão trabalhando mais para suprir a carência gerada com a chegada da pandemia


              ALEXANDRE MARTINS
Táskara Cristiane Moaraes atende pacientes crônicos e muitos desmarcaram consultas no início da pandemia
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Com a chegada da pandemia do coronavírus, a demanda dos médicos, assim como dos demais profissionais da saúde, foi ampliada subitamente. Os hospitais estão cheios, e não somente de pacientes com covid, já que outras doenças e incidentes continuam acontecendo.

Sendo assim, por vocação, missão, paixão, ou seja lá o que mais que motive e faça com que a rotina seja seguida, estes profissionais, mesmo cansados, se doam para o a função de ajudar a salvar vidas.

Trabalhando na linha de frente da pandemia na Unimed, a cardiologista Célia Regina Pellicari Galeotti diz que a rotina é realmente dura. "É um período de grande exaustão, sem dúvida. Desde o início da pandemia, eu estava na linha de frente do pronto-socorro, mas, por causa da falta de profissionais, passei para o hospital. Já cheguei a sair meia-noite do hospital, mas saio com o dever cumprido", afirma.

Para ela, nem todas as pessoas têm consciência do que é a doença. "Há desde a pessoa revoltada porque o filho saía e levou a doença para casa até quem não estava nem aí e foi para churrasco com amigos. Não julgo, mas explico que tem a variante, quem pegou pode pegar de novo. Dei alta para três pacientes em um quarto e eles estavam combinando churrasquinho. Não entenderam nada."

"Tem gente que fica internada e reflete e tem os que banalizam. As pessoas subestimam a doença até pegar, parar no hospital e sentir o medo de morrer. Tem pânico, desespero quando avisamos que o paciente vai para a UTI", conta a médica sobre a rotina da ala covid.

Seguindo os preceitos do Espiritismo, Célia enxerga na fé um combustível. "Eu tenho fé, acho que ajuda muito, acreditar que existe um porquê para isso estar acontecendo, acreditar que tem os desígnios de Deus. Se não tem fé, é complicado."

Célia já pegou covid-19, no início da pandemia, mas agora também está vacinada. "Agora, a evolução da doença é mais arrastada, a lesão pulmonar é pior, os sintomas são diferentes dos que a gente via na primeira onda. Eu sempre agradeço a Deus por estar tratando e não estar doente."

CUIDADO

Geriatra e nutróloga, Táskara Cristiane Moraes atua no atendimento a pacientes crônicos na Unimed durante a pandemia, função que também mudou muito, já que doentes crônicos são do grupo de risco da covid-19.

"Eu trabalho em consultório e no começo da pandemia foi traumático, as pessoas tinham medo e tive muitas desmarcações de consultas. Já tive solicitação por mensagem, e-mail, videochamada. Muitos vão até o consultório, mas tive pacientes que deixaram algum tratamento, então ficaram com a diabetes, a pressão descontrolada e tive que ajustar a medicação para normalizar", relata ela sobre os problemas de pacientes surgidos neste período, mas que geralmente podem ser resolvidos.

Táskara conta que a sobrecarga no trabalho chegou junto à pandemia. "Estou trabalhando em um ritmo extremamente descontrolado e intenso. Não trabalhava de fim de semana, agora trabalho todos os dias, há meses. Trabalho no mínimo até 20h e já cheguei a atender pacientes até 1h da madrugada."

Ela conta que a telemedicina tem sido aliada em muitos casos. "Muitos pacientes só querem tirar dúvidas e dá para atender em telemedicina, mas geralmente não faço isso com pacientes que não conheço, porque não sei qual é o quadro clínico. Poucos pacientes tiveram problemas por não ir às consultas."

A médica descreve a função com paixão e atribui a isto a motivação para o trabalho. "Eu amo o que eu faço. A gente tem que abrir mão de várias coisas, de estar com a família, mas há uma necessidade e é isso que me motiva. Não consigo ficar em casa se eu posso estar fazendo algo para ajudar alguma pessoa. Recebo para isso, mas a motivação não é financeira, é porque eu gosto mesmo."

ESPERANÇA

Também geriatra e coordenadora médica do serviço que atende pacientes crônicos da Intermédica Jundiaí, Solange da Silva Amorim viu a rotina mudar completamente. "Coordeno o ambulatório de alta complexidade, então lá temos pacientes crônicos. Já tínhamos o monitoramento dos pacientes, mas quando chegou a pandemia, precisamos nos adaptar ao teleatendimento. Foi um desafio para toda a equipe, atender remotamente um idoso cuidando de outro idoso, por exemplo."

Ela diz que foi feito o perfil dos pacientes para a telemedicina, mas nem todos se adaptaram. "Tem paciente com doença pulmonar terminal que entrou em pânico, deixou de ir ao hospital. Em alguns casos, precisamos continuar o atendimento na casa do paciente, para aplicar medicação, atender quem teve AVC, fazer o suporte humanizado domiciliar, porque também temos cuidados paliativos."

A geriatra conta que o cansaço ficou evidente para este segmento da medicina também. "Estamos trabalhando muito mais e tem a exaustão, além de não aproveitar a família, precisar dobrar, não ter o fim de semana. A gente já fazia tudo da alta complexidade, do paliativo, e a gente começou a ter a demanda do contágio, o medo de quem mora com o doente e precisava sair, o receio de infectar a pessoa", fala sobre os doentes crônicos.

Solange enxerga a necessidade de continuar os atendimentos com a esperança de que essa pandemia acabe. "O que me impulsiona é pensar que tem um mundo melhor e a gente precisa viver ele, a vontade de voltar à rotina, de estar mais com a família. Acho que há a vocação de autodoação do profissional da saúde, nos unimos e estamos aqui para isso. É muito gratificante ligar para um paciente depois de uma alta e saber que a pessoa está bem em casa."


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