Jundiaí

Com perda de renda, classe média cria soluções para driblar a crise

SEM DINHEIRO Estudo aponta que 8 em cada 10 famílias de classe média perderam renda na pandemia. Vender bolos e marmitas saudáveis foi a solução


                              ALEXANDRE MARTINS
Michele Medina fechou sua clínica de estética e começou a vender marmitas saudáveis
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Um estudo do IDados, a partir da Pesquisa Nacional de Domicílios, mostra que oito em dez famílias de classe média perderam renda durante a pandemia. Para driblar a falta de dinheiro, essas famílias tiveram que se reinventar. Muitas delas optaram por complementar a renda com a venda de doces e marmitas para o dia a dia. Em alguns casos, o que era uma solução temporária acabou virando a primeira fonte de renda.

Para o economista Mauro Rochlin, da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), a expectativa é que à medida em que a imunização avance haja uma retomada mais segura do setor de serviços, que é o que mais emprega no Brasil, e, com isso, a economia volte a se aquecer. "Isso pode começar no segundo semestre do ano. A princípio não vai reverter o cenário, mas vai ajudar pelo menos a estancar essa crise", avalia.

Ele também acredita que foi justamente a parada de atividades mais constantes do setor de serviços que levou o brasileiro a poupar mais. "Hoje o nível de poupança está mais elevado do que antes da pandemia. Em parte acredito que seja um movimento de conscientização, em parte acredito que seja reflexo do setor de serviços parado, porque as pessoas não substituíram esses gastos por outros. Quando retomar, os gastos retornarão também, fazendo a economia girar."

SEM DINHEIRO

Ainda segundo dados da pesquisa do IDados, a maior parte dos brasileiros de classe média perdeu entre 10% e 50% da renda do trabalho. Para duas em dez famílias, a pandemia levou entre 50% e 80% da renda familiar. E um em dez domicílios brasileiros viu a fonte de renda secar entre 80% e 100%, seja por redução salarial, perda de emprego ou fechamento do setor de serviços.

A confeiteira Carol Araújo, 40, está no grupo de pessoas que perderam quase 100% da renda. "Eu fazia bolos de festas e, de repente não tínhamos mais festas, e meu marido foi despedido da empresa cinco dias após o início da pandemia", conta.

Sem saber o que fazer para sustentar a casa e os dois filhos, ela adaptou seus quitutes para as necessidades da pandemia. "Se antes eu fazia festa para centenas de pessoas, com a pandemia comecei a fazer festa na caixa, kit pandemia, e outras opções que servissem quatro, cinco pessoas, com salgadinhos, docinhos, refrigerante e o bolo", explica.

Além disso, ela também começou a vender bolos caseiros nas redes sociais e até na calçada de casa. "Cheguei a montar uma mesinha na calçada para vender. Hoje eu vendo cerca de 15 bolos por semana e mais os kits de festinha caseira, o que tem dado para sustentar a nossa casa."

VIROU NEGÓCIO

A jundiaiense Michele Medina, 39 anos, teve que fechar sua clínica de estética após seis meses de pandemia, por não conseguir custear o aluguel, despesas fixas e salário da esteticista. "Minha sócia e eu abrimos o espaço em outubro de 2019, portanto quando a pandemia começou tinha apenas seis meses de funcionamento. Ainda estávamos investindo, custeando nossa própria gasolina e sem ter nenhum lucro", explica.

Em setembro do ano passado, quando realmente fechou as portas da clínica, ela precisou buscar outras alternativas, já que até então o marido estava sustentando a casa sozinho, mas a renda dele também estava prejudicada. "Como moramos em um condomínio bem grande eu comecei a fazer quitutes, como bolo e pastel. Um dia, fazendo entrega, alguém comentou que só tinha 'coisa que engorda' sendo vendida no condomínio e foi o meu clique para começar a fazer produtos low carb, sem farinha e sem açúcar", conta.

Um tempo depois, uma vizinha sugeriu que apostasse em marmitas saudáveis e foi assim que ela começou o negócio. "Hoje eu vendo de R$ 150 a R$ 350 em marmitinhas saudáveis por dia e ainda tenho tempo de cuidar das crianças."

SÓ UM "BICO"

A técnica de enfermagem Maria Cristina Ayres Farias, 39 anos, também se jogou no mercado de marmitas saudáveis. Ela não tinha a intenção de começar um negócio assim, mas a pandemia forçou seu esposo a fechar sua vidraçaria e passar a fazer apenas trabalhos esporádicos. "Uma colega de trabalho do hospital via as marmitas que eu fazia para mim e pediu para cozinhar para ela. Aos poucos mais gente foi me procurando, inclusive alguns médicos, e hoje vendo em torno de 70 marmitas por semana, o que complementa a nossa renda."


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