Jundiaí

Com crise e desemprego, doações de alimentos diminuem em Jundiaí

FOME O auxílio emergencial não é suficiente para manter integralmente uma residência, fazendo com que a carência aumente devido ao desemprego


      ALEXANDRE MARTINS
Maria Aparecida dos Santos mostra despensa que alimenta nove pessoas
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Com o grave cenário da pandemia em 2021 e alta no desemprego, a fome voltou a rondar os jundiaienses, que viram a arrecadação de alimentos diminuir neste primeiro trimestre. Durante os primeiros três meses deste ano, o Funss (Fundo Social de Solidariedade) arrecadou somente 14,2 toneladas de alimentos, que era a média mensal do ano passado.

Em 2020, houve arrecadação de 141,3 toneladas de alimentos não perecíveis na Campanha Permanente de Solidariedade. De 23 de março a dezembro do ano passado, o Fundo Social recebeu 127,1 toneladas. Já em 2021, no período de janeiro a março, o Funss recebeu cerca de 14,2 toneladas. Ou seja, o que foi doado em média por mês no ano passado é praticamente a mesma quantidade do que foi doado em três meses neste ano.

Sendo o Funss o principal fundo de arrecadação de doações em Jundiaí, os números do local refletem boa parte da solidariedade no município. Mas também há grupos da sociedade civil, organizações religiosas, ONGs, empresas; muitas instituições se articulam para que o alimento chegue a quem necessita, passando ou não pelo fundo.

FALTA

Em abril, mais uma edição do auxílio emergencial, que tem o objetivo de fomentar a retomada econômica e dar suporte a pessoas em vulnerabilidade social e trabalhadores informais, começou a ser paga, mas desta vez com valores mais baixos. São R$ 150, R$ 250 ou R$ 375, a depender da família. Valor insuficiente em situações como a de Maria Aparecida Gomes do Santos, a Cida, moradora do Jardim São Camilo, que está desempregada, assim como as filhas, e chefia uma família de nove pessoas.

Para ela, as doações representam boa parte da alimentação da casa. "Eu estava recebendo cesta básica antes, no ano passado, do Cras [Centro de Referência da Assistência Social], a gente ia buscar sempre na igreja, mas agora não estou recebendo mais. Depois um moço, empresário, fez umas doações, mas não recebi mais, ninguém mais entrou em contato. Um moço disse que ia me colocar em uma lista para receber doações, mas, até agora, nada."

"Aqui somos em nove, fica todo mundo aqui até sair a casa que o governo está fazendo, aí vão mudar para lá. Receber a cesta básica era muito bom, era uma ajuda boa. Antes, meu ex-genro entregava a cesta que ele recebe para nós, mas ele tem a família dele e acho que não está conseguindo", comenta sobre as doações escassas de todos os lados.

Com alguns mantimentos em um armário e poucos itens na geladeira, a despensa para alimentar nove pessoas não vem sendo suficiente. "O auxílio eu peguei, mas dei na mão das minhas filhas para ajudar com as crianças. Produto de limpeza, roupa, alimento, tudo ajuda. Emprego ninguém consegue. Eu acho que não consigo arrumar serviço por causa da minha idade, tenho 57 anos, mas não sou aposentada ainda. Minhas filhas também procuram e não conseguem."

"Nesse lugarzinho, parece que a gente é esquecido, só consegue uma ajuda se sair pedindo. Esses dias, pedi arroz para o seu Zé, porque não tinha nada mesmo, mas tenho vergonha de pedir porque o povo julga. Eles veem minhas filhas e falam que deviam estar trabalhando porque são jovens", conta ela sobre a difícil realidade para muitos do bairro.

De Governador Valadares (MG), Maria Aparecida diz que já passou muitas dificuldades e criou as filhas sozinha. "Fiquei viúva muito cedo, e sem nada. Já passei muita necessidade, trabalhava o dia inteiro e tinha que deixar minhas filhas pequenas sozinhas em casa. Tinha que pedir para Deus para não acontecer nada com elas."

ARTICULAÇÕES

José Ferreira de Sousa, o seu Zé, citado por Cida, é agente comunitário há anos no Jardim São Camilo. Ele atua no auxílio a famílias em necessidade, fazendo com que as doações cheguem a quem precisa. "A gente não distribui cesta básica da prefeitura, essas doações é o Cras que faz. Nós distribuímos doações recebidas pela igreja geralmente. Distribuímos alimentos para famílias necessitadas, que estão em uma situação difícil, mas estão sempre batalhando", afirma ele sobre famílias como a de Maria Aparecida.

Coordenador de uma Organização da Sociedade Civil (OSC), a Associação Bom Pastor, que atua no Jardim Novo Horizonte, Rodrigo Pierobon diz que não havia arrecadação de doações no local até o início da pandemia.

"A gente trabalha com crianças, adolescentes e idosos no serviço de convivência e fortalecimento de vínculos, temos uma parceria com a prefeitura. Hoje, atendemos cerca de 100 a 120 famílias que estão em vulnerabilidade social. Antes nós não tínhamos a prática de entregar doações alimentos. Isso veio depois, em decorrência da pandemia", conta ele sobre a campanha que arrecada, além de alimentos, roupas, brinquedos e produtos de limpeza.

Rodrigo diz que muitas famílias precisam dessas doações para a subsistência. "De 2020 para 2021, aumentou a quantidade de famílias que estão passando por necessidade, tanto de alimento quanto outras carências, e a gente vem dando esse suporte. Algumas famílias que a gente atende dependem exclusivamente das doações, da ajuda."

Já Ana Cláudia Lombardi, que integra um grupo de três comerciantes que decidiram unir forças para arrecadar doações, diz que já tinha feito uma ação no ano passado. "Ano passado, mandei confeccionar máscaras e trocava pelas doações. Neste ano, queria fazer de novo. Falei com uma amiga e nos juntamos com outras pessoas. Arrecadamos roupas, alimentos, produtos de higiene."

"A gente percebeu que muita gente está precisando. Neste ano, fiz chaveiros e espelhinhos para dar em troca das doações que chegam aqui, como gratidão. Bastante gente está fazendo arrecadação agora, mas acho que é menos que no ano passado", comenta.

PONTE

Segundo a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS), que atua junto a seis mil famílias em vulnerabilidade social, cerca de cinco mil famílias já eram atendidas antes da pandemia, as outras mil foram impactadas pela crise e identificadas no município. Também são atendidas cerca de cerca de 100 instituições cadastradas no Funss.

O Funss fica na venida Dona Manoela Lacerda de Vergueiro, s/n, dentro do Parque da Uva.

Ana Cláudia recebe doações na Barão Isenções, que fica na rua Engenheiro Monlevade, 681.

A Associação Bom Pastor recebe doações na estrada municipal do Varjão, 1641.


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