Jundiaí

Residência com respeito e dignidade aos assistidos

LEI ANTIMANICOMIAL A convivência em residências terapêuticas é um tratamento humanizado


               ALEXANDRE MARTINS
Cecília Simões foi uma das primeiras a chegar na residência, em 2018
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Com duas residências terapêuticas, Jundiaí prova que a luta antimanicomial, que completa 20 anos, gera bons frutos. O Serviço de Residência Terapêutica (SRT) existe no município desde 2018 e tem duas unidades, com 10 moradores em cada: uma só com mulheres e a outra mista.

Os critérios nestas residências são a longa permanência em hospitais psiquiátricos. Os assistidos precisam ser residentes ou parentes de residentes em Jundiaí.

As residências terapêuticas surgiram como uma forma de oferecer assistência a essas pessoas que são desinternadas de hospitais psiquiátricos, em paralelo à liberdade e autonomia que elas têm.

A coordenadora de uma residência localizada na Vila Liberdade, Maria Raquel Kubitza Valente, lembra que ninguem precisa estar preso para receber cuidados. "Não precisa trancar a pessoa para tratar. A gente cuida em liberdade. Há uma cultura enraizada de que a internação era o único cuidado possível e a luta antimanicomial mostra que é possível o cuidado em liberdade", explica.

Camila Covas Ribeiro, coordenadora da residência do Jardim Paulista, conta que, embora tenham o direito de ir e vir, o amparo aos moradores é integral. "Acho que todas as formas de tratamento com contenção foram sendo extintas ou revisadas. Geralmente, a doença mental é crônica, então eles precisam de tratamento integral e têm na residência a intervenção, a medicação sempre. O suporte é 24h com uma equipe ajudando", detalha.

Alguns chegam sem lembrar da data de nascimento, sem documentos e alguns com problemas físicos. "Chegam mal cuidados, com feridas na pele, às vezes até sem roupa, sem individualidade de cuidado pessoal, sem cuidado com a aparência, com a cabeça raspada, sem qualquer dentição",diz Camila.

DIGNIDADE

Uma das primeiras moradoras da residência do Jardim Paulista é Jovelina Proença, de 65 anos. Ela veio do Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, em Sorocaba, desativado em 2018. "Perdi tanto tempo, sofri muito, trabalhei muito", conta ela também afirmando gostar da residência terapêutica.

Aos 60 anos, a vaidosa Cecília Simões, também uma das primeiras a chegar, gosta de usar acessórios. "Essa é a minha casa e eu gosto daqui. Morava no hospital mental, mas não era bom. Eles amarravam a gente, batiam na gente, judiavam. Gosto daqui, de lavar a louça, cuidar dos mais velhos. Adoro colar, bolsa, brinco e vou comprar uma bota."

Também morador do local, Dorival Aparecido de Oliveira, de 54 anos, que veio de Franco da Rocha, vive na residência desde o ano passado e agora pode comer o que não podia. "Eu gosto de alface, peixe, pastel de feira, tem iogurte aqui na geladeira, guaraná, hambúrguer. Cheguei aqui com fome. Já tenho conta no banco, abri sozinho, e agora quero ganhar na 'Loteca'",conta entusiasmado.

PANDEMIA

Os moradores das RTs precisam superar mais um desafio nesta pandemia, o confinamento. Apesar de necessário, ele relembra os anos de reclusão em hospitais. "Apesar do isolamento, tivemos quatro infectados, mas tinha moradora que achava que o isolamento era um castigo. Precisamos nos adaptar", conta Raquel.

A LUTA

Neste ano, a simbologia da luta antimanicomial completou 20 anos. Trata-se da Lei 10.216/2001, conhecida como a lei da Reforma Psiquiátrica. Ela assegura a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redirecionando o modelo assistencial em saúde mental, esta lei alterou um padrão disseminado há séculos, o do "tratamento" desumano e violento, que encarcerava pessoas com transtornos mentais.

 


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