Jundiaí

Construção civil enfrenta falta de materiais e preços mais altos

MERCADO Com taxas ainda baixas de juros, o mercado imobiliário é atrativo para quem deseja um investimento estável neste momento da economia


                ALEXANDRE MARTINS
Cibele Silva diz que pré-moldados são procurados neste momento
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Com taxas de juros ainda baixas, imóveis tornaram-se opção bastante relevante de investimento, mas empreendimentos populares estão ameaçados. Uma pesquisa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em parceria com a BRAIN Inteligência Corporativa, realizada em março deste ano, revela que 57% das pessoas entrevistadas com renda mensal acima de R$ 10 mil e não possuem imóveis como investimento, desejam fazer uma aquisição com esse objetivo. Em contrapartida, os insumos para a construção estão mais caros e com prazos de entrega estendidos.

Os empreendimentos populares estão escassos. Ainda segundo a CBIC, imóveis para quem tem faixa de renda mensal de R$ 2.500 a R$ 4.500, que se encaixa na contemplação de programas de moradia do governo federal, correm mais risco, por serem os que representam menor margem de lucro para construtoras. Houve queda de 17,8% no número de lançamentos deste tipo em 2020 na comparação com o ano anterior.

MERCADO

Presidente da Associação das Empresas e Profissionais do Setor Imobiliário de Jundiaí e Região (Proempi), Paulo Oliva, conta que, com a alteração de valores de insumos, os empreendimentos sofrerão reajustes. "Os imóveis lançados a partir de agora vão passar por reajuste no valor por metro quadrado, principalmente pela alta histórica do IGPM, que atingiu mais de 30% nos últimos 12 meses, o que reflete diretamente no preço dos imóveis. Em consequência, o cliente vai sentir parte desse custo na hora da aquisição."

Ele afirma que, de fato, o segmento mais afetado é o popular, ligado a programas de moradia do governo federal. "Com a alta desses materiais, com certeza o custo atual de empreendimentos deste tipo, principalmente em nossa região, passou a ser inviável, dentro do patamar estabelecido pelo governo. Então, com certeza, esses critérios vão precisar ser revistos para impulsionar novamente o lançamento de imóveis populares."

Paulo diz ainda que, em contrapartida, imóveis mais caros têm alta. "O segmento de loteamentos e residências maiores, que estava mais estacionado, passou por um superaquecimento, o que compensa um pouco a questão da falta dos empreendimentos populares", analisa.

Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontam alta de 19,60% nos preços do material de construção no ano passado. De acordo com a entidade, alguns insumos tiveram aumentos acima de 50% no mesmo período. Entre os insumos que mais têm pressionado as empresas, a CBIC destaca aço, cimento, PVC, cabeamentos de cobre e blocos de cerâmica.

Presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção de Jundiaí e Região (Acomac), Carlos Eduardo Fávaro diz que a elevação de preços atinge todas as etapas de uma obra. "Alguns materiais não param de subir, principalmente cimento, aço, PVC e cobre. Também começou a subir o preço dos blocos cerâmicos, por causa da elevação do preço de gás. São basicamente os itens para começar a obra."

Ele diz que agora não há mais tanta falta de insumos como antes, mas a espera de alguns materiais ainda é alta. "Falta mais louça de banheiro, porcelanato, esquadria de alumínio, estes itens de acabamento. Se a pessoa pretende fazer uma obra em julho, agosto, precisa comprar estes itens agora, por causa do prazo de entrega. Louça de banheiro e cerâmica mais populares têm prazo de entrega que chega a seis meses."

ADEQUAÇÃO

Engenheiro Civil de planejamento de uma grande construtora de Jundiaí, Hélio Pereira diz que, com a falta de insumos, "as construtoras administram a situação analisando todas as possibilidades junto aos fornecedores, por exemplo, antecipando compras em grandes volumes, negociando prazos e antecipações de pagamento. Como os contratos de venda são vinculados a índices de mercado, construtoras, incorporadoras e clientes finais acabam por dividir os custos extras com a alta de preços", diz ele.

Além disso, a demanda também fez os custos da mão de obra subirem. "A escassez de mão de obra voltou a aparecer com o aumento das construções e reformas, o que fez crescer a dificuldade para encontrar profissionais. Consequentemente, isso já está refletindo na alta dos preços de mão de obra na construção."

Responsável por compras em uma empresa que produz estruturas pré-fabricadas de concreto, Cibele Silva diz que o estoque foi administrado por um tempo. "Todos os suprimentos que usamos para pré-moldados tiveram alta de preços. A gente não sofreu tanto no início com desabastecimento porque tinha um estoque, fomos avisados que haveria a falta de alguns materiais e compramos mais. Não chegamos a atrasar obras, mas tivemos que mudar algumas coisas."

"Ainda está difícil, mas no começo da pandemia foi mais complicado. O vergalhão, que tinha prazo de cinco dias para a entrega, começou a demorar 60 dias. Bobina de aço, se eu pedia 100 toneladas, chegavam 10, e teve pedido de bobina que fiz em outubro e chegou só em janeiro. A gente precisou se adaptar para usar a barra de aço onde usava bobina, mas assim gera algumas perdas", explica ela.

E a adoção a este tipo de construção é alta. "Percebi procura maior mesmo com esse problema. A vantagem do pré-moldado é o prazo de entrega menor", diz Cibele.

PÚBLICAS

O desabastecimento tem afetado, inclusive, obras públicas. Segundo a Unidade de Gestão de Infraestrutura e Serviços Públicos (UGISP), algumas empresas que prestam serviço para a prefeitura tiveram, momentaneamente, dificuldade para a compra de alguns insumos para obras, como cimento, ferro, tinta, vidro e madeira.

Assim, o município tem feito tanto o realinhamento de preços solicitado pelas empresas, como o de prazos, além do monitoramento do mercado e das obras e projetos prioritários, seguindo modelo de gerenciamento de projetos utilizado pela iniciativa privada.


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