Jundiaí

Entidades querem mercado de trabalho aberto à diversidade

Dia Internacional contra a Homofobia promove campanhas


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Kelly Galbieri, da prefeitura, busca promover capacitação aos LGBTs
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

No Dia Internacional contra a Homofobia, empresários, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e município se unem para promover a empregabilidade da comunidade LGBTQIA . Uma das ações é o Guia de Diversidade e Inclusão, lançado pelo Fiesp esse mês.

Grácia Fragalá, diretora-titular do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) da Fiesp e do Núcleo de Responsabilidade Social (NRS) do Ciesp, explica que publicação traz detalhes dos aspectos gerais e legais de políticas de inclusão e como aumentar a diversidade dentro das empresas, como por exemplo, os benefícios de uma equipe diversa, os vieses inconscientes e formas de desconstruí-los e dicas de especialistas para começar a construção de uma política de Diversidade e Inclusão (DI).

Para Fragalá, a pandemia escancarou a vulnerabilidade do mercado em relação a determinados grupos, tais como a comunidade LGBTQIA . "O momento do mundo mostrou a vulnerabilidade de alguns grupos, ao mesmo tempo em que constatamos a solidez e o sucesso de empresas que já trabalhavam a inclusão e a diversidade antes da pandemia do novo coronavírus. Por isso é tão essencial trabalhar esse conceito em larga escala", disse.

Antonietta Varlese, vice-presidente sênior de Comunicação, Relações Institucionais e Responsabilidade Social Accor América do Sul, enxerga uma mudança contínua no meio empresarial. "Acho que as empresas estão mais conscientes. Todos perceberam a importância da inclusão e da diversidade, mas há empresas mais avançadas nesse aspecto e outras que ainda estão começando", avalia.

A Accor já recebeu inúmeros prêmios e selos por sua postura de respeito e aceitação à diversidade. Com hotéis e bares em mais de 100 países, Varlese considera essa diversidade cultural um dos pontos essenciais para a construção desse posicionamento diverso no mercado de trabalho. "A diversidade faz parte de nós."

DESAFIOS

Para que esse respeito seja propagado em todos os níveis hierárquicos da empresa, foram criadas cartilhas que visam preparar os funcionários. "Optamos por criar um manual justamente para quem está na operação, na linha de frente, já que estamos falando de quase 400 hotéis só no Brasil", afirma Valerse.

A presidente do Centro de Apoio e Inclusão Social (Cais Jundiaí), Samy Fortes, tem sido convidada por inúmeras empresas de Jundiaí e Região para ministrar palestras e workshops também com esse intuito, de romper a barreira do preconceito, principalmente nos níveis operacionais. "O empresário, administrador e setor de RH já vem com esse pensamento mais diverso, mas lá no 'chão de fábrica' ainda existe o preconceito. É lá que precisamos chegar", avalia. "É no meio da produção que o homossexual tem medo de agir da forma usual e acaba escondendo sua personalidade e identidade de gênero."

CAPACITAÇÃO

Outro desafio é a capacitação. Segundo Samy, 47% da população LGBT é expulsa de casa ainda na adolescência. "A falta de suporte familiar, mesmo financeiro, e o bullying sofrido na escola acaba tirando essas pessoas da sala de aula e, por isso, temos uma quantidade enorme de LGBTs sem nenhuma qualificação para o mercado de trabalho."

A Prefeitura de Jundiaí destaca que, por meio do Núcleo de Articulação de Políticas Públicas, vinculado à Unidade de Gestão da Casa Civil, tem promovido iniciativas de fomento. Neste sentido, a Assessoria de Políticas para Diversidade Sexual tem atuado na garantia dos direitos fundamentais de toda a comunidade. Segundo a assessora Kelly Cristina Galbieri, há projetos em andamento para garantir esses direitos e a inclusão. "Além do encaminhamento para atendimento médico, qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho, entres outros."

O próprio Cais Jundiaí também tem tentado auxiliar na capacitação dessa comunidade, com o apoio de quase 50 voluntários, dentre eles educadores. Ainda assim, empresas como a Accor entendem que, prejudicados por todo o contexto social, esses profissionais precisam de recrutamentos mais justos. "Enxergamos isso e por isso criamos um recrutamento só de LGBTs, assim eles competem entre si, com suas competências e qualificações, sem serem comparados com profissionais que não tiveram essas dificuldades sociais", finaliza Antonietta Varlese.

VIOLÊNCIA

Apesar dos avanços em empregabilidade, no que se refere à violência, o caminho ainda está distante de um cenário ideal. Em Jundiaí, das mais de 630 mulheres atendidas pela patrulha Guardiã Maria da Penha nos últimos dois anos, apenas duas mulheres eram da comunidade LGBT. Embora pareça um número positivo, a realidade, segundo a coordenadora da patrulha, a guarda municipal Andreia Melo, é de medo de denunciar os agressores.

De acordo com Samy Forte, só entre os dias 15 de março e 15 de abril, 12 mulheres trans foram gravemente agredidas, mas a grande maioria optou por não denunciar por receio de retaliações. "Elas também não se sentem acolhidas para levar adiante essas denúncias."

A Lei Maria da Penha foi criada, inicialmente, para tentar impedir casos de violência doméstica contra mulheres. No entanto, a advogada Ana Paula Barbosa entende que a lei deve ser interpretada e aplicada de forma mais abrangente. "Assim, as medidas protetivas devem ser aplicadas para mulheres heterossexuais, lésbicas, trans, travestis etc, no intuito de impedir ou fazer cessar as agressões sofridas por elas", esclarece. Barbosa avalia que a sociedade ainda é muito conservadora e nem sempre aberta à diversidade. "Sabemos que a necessidade de mudança na cultura de uma sociedade é algo demorado e com derramamento de sangue." (Carina Reis)

 


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