Jundiaí

Pobreza avança com redução do auxílio emergencial

SOBREVIVER Neste período de pandemia, Jundiaí tem mais 246 famílias na pobreza e na extrema pobreza


       ALEXANDRE MARTINS
Filipe Pires explica sobre renegociação de dividas e planejamentos
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Em Jundiaí, antes da pandemia, em fevereiro de 2020, 6.043 famílias viviam em pobreza ou extrema-pobreza. Ou seja, tinham renda per capita de R$ 0 a R$ 178 mensais. Em fevereiro deste ano, o número de famílias vivendo nestas condições subiu 4%, para 6.289 no município.

Os dados são da Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS) de Jundiaí, que aponta que estes parâmetros de renda são os adotados pelo Cadastro Único (CadÚnico), inscrição federal voltada à coleta de dados para concessão de Programas Sociais, como o Bolsa Família e também o Auxílio Emergencial.

Ainda segundo a UGADS, a procura pelos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) de Jundiaí, porta de entrada para novos CadÚnicos, subiu 151,8% no comparativo entre fevereiro de 2020 e fevereiro deste ano. No Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), os atendimentos no mesmo período subiram 43,5%.

REDUÇÃO

Uma das beneficiárias do Auxílio Emergencial em Jundiaí, Elaine Cristina de Lima está desempregada e utiliza o dinheiro para despesas como o gás de cozinhar. "Todo mundo de casa está desempregado. Aqui moram 13 pessoas, quatro são crianças e os outros são adultos. Mas só eu e minha cunhada que conseguimos o auxílio, cada uma recebe R$ 150 agora. Graças a Deus, é pouco, mas ajuda a comprar o gás e o leite. Eu não recebia Bolsa Família antes da pandemia. Alimento a gente tem ajuda, graças a Deus tem pessoas de coração bom que ajudam."

Ela, que mora no Novo Horizonte, também consegue um pouco de dinheiro recolhendo materiais recicláveis com o marido. "Piorou para conseguir emprego agora, o desemprego está grande. A gente pega reciclagem na região, Eloy Chaves, Fazenda Grande, mas tem muito mais gente pegando agora."

O marido de Elaine, José de Lima, concorda com a ampliação da concorrência. "Esses dias tinha gente com aquela picape Toro pegando reciclagem. Até gente de carrão está pegando, falei 'é, a coisa está feia mesmo'. A gente usa a Kombi agora, mas ela ficou mais de um ano quebrada. Consegui arrumar porque um rapaz me deu um dinheiro para o conserto. Ela ainda não está boa, se esquenta muito, para de funcionar, mas dá para ir levando", diz ele.

Sobre o período de mais de quatro meses, entre o final de 2020, em que o auxílio deixou de ser pago, entre o final de 2020 e abril deste ano, quando o pagamento foi retomado, Elaine diz que foi complicado. "Foi difícil, a gente foi dando uma empurradinha nas contas aqui e ali. Não deu para guardar nada do que a gente recebeu no ano passado. Tudo está caro, sobe o leite, o gás, o arroz, o feijão. Até o ovo está mais caro. Só não sobe o dinheiro que a gente tem."

Ela conta que sem o auxílio não conseguiria se manter. "O auxílio é muito importante. Só o dinheiro da reciclagem não dá, é muita gente em casa, então ia faltar alguma coisa. Ainda que meus sogros são aposentados e a gente mora na casa deles. Se precisássemos pagar aluguel, a gente ia morrer de fome", conta ela sobre a casa onde moram as 13 pessoas da família.

PREÇO

A UGADS esclarece que em março de 2020 foi publicada uma portaria suspendendo processos do Bolsa Família e do Cadastro Único que pudessem resultar na interrupção dos pagamentos de benefícios federais. Esta portaria ainda está em vigor, assim, foram registradas apenas inclusões neste período. Ainda assim, a queda de renda e poder de compra atinge mais pessoas que antes, portando, as exclusões de cadastros seriam poucas.

Segundo o especialista em finanças e diretor de pós-graduação do UniAnchieta, Filipe Pires, a perda de renda de pessoas pobres é mais grave. "O déficit orçamentário das famílias de baixa renda vem aumentando em maior velocidade quando comparado às famílias de alta renda, muito pressionado pela inflação em tendência de alta. Soma-se a isso a alta do desemprego e aumento da inadimplência como consequência das medidas de restrição de mobilidade por força da pandemia, além do encarecimento do crédito com a elevação da taxa básica de juros nos últimos meses", explica ele, reiterando a importância do benefício.

Na balança, o auxílio deste ano foi financiado com concessões econômicas, mas, com a redução, já não tem o resultado de 2020. "O pagamento do Auxílio Emergencial como instrumento para recuperação econômica não surte mais o efeito esperado. Enquanto no início da pandemia gerou aumento do consumo interno, o que se observa atualmente é a força da exportação das commodities agrícolas para países já em recuperação de suas economias", diz ele sobre o valor do auxílio que hoje sai caro, já que não rende o impacto positivo esperado.

O especialista lembra ainda que na pandemia as desigualdades sociais aumentaram e a classe média também foi atingida, pois também sofre com o desemprego. "Na classe média, que tem o crédito como alicerce da manutenção do padrão de vida, o aumento na inadimplência nos últimos 12 meses é o caminho para o empobrecimento acelerado. Mais de 63 milhões de brasileiros, atualmente, possuem algum tipo de restrição a crédito em seu CPF, o que equivale a 39,5% da população adulta."

Filipe comenta que neste momento, porém, com o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, a tendência de recuperação é boa para a cidade. "O fato de Jundiaí ser uma das cidades mais prósperas do país, com a base da economia ancorada em indústrias de grande porte e uma ampla rede de serviços, a torna mais resiliente aos impactos sofridos em outros municípios com alta dependência a setores como turismo, por exemplo. Esse mesmo motivo promoverá uma maior aceleração econômica diante do cenário de recuperação. A recuperação econômica mais acelerada de Jundiaí poderá, já no curto e médio prazos, impactar positivamente a vida das famílias de baixa renda. Mas somente a qualificação profissional as tirará da vulnerabilidade."


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