Jundiaí

Nove pessoas desaparecidas e 489 óbitos sem identificação na Região

APREENSÃO Além das pessoas desaparecidas, a Região tem o registro de mais de 400 pessoas falecidas sem identificação, 310 deles apenas em Jundiaí


                   ALEXANDRE MARTINS
DESAPARECIDO
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A Região tem nove desaparecimentos registrados na Polícia Civil. São quatro em Jundiaí, três em Campo Limpo Paulista, um em Louveira e um em Jarinu. No Hospital São Vicente (HSV), o maior da Região, de janeiro a julho deste ano, foram registrados 47 pacientes sem identificação encaminhados ao Serviço de Identificação Móvel (SIM) da Polícia Civil. Neste caso, todos foram reconhecidos. No Portal da Transparência do Registro Civil há 489 pessoas falecidas em Jundiaí e Região que não foram identificadas.

Segundo a Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, há um paciente não identificado internado em Várzea Paulista.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em média, 172 pessoas desaparecem por dia no Brasil. Em 2020, 62.857 pessoas desapareceram no país. Ainda que seja alarmante, o número é 21% menor que o de 2019, quando havia registro de 79.839 pessoas desaparecidas. Cerca de 50% das pessoas desaparecidas é encontrada.

Segundo a Polícia Civil, neste ano, entre janeiro e maio, houve a elaboração de 5.559 boletins de desaparecimento no estado. 3.052 deles em cidades do interior paulista. No mesmo período, 1.713 pessoas foram encontradas no interior, 2.287 em todo o estado.

INCERTEZA

Eduardo Aparecido do Nascimento é pai de Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, o Cadu, desaparecido desde 2019. "Ele sumiu no dia 27 de dezembro de 2019, com 20 anos. Ele estava em uma confraternização no São Camilo, a polícia chegou e abordou seis pessoas, liberaram cinco e levaram ele. Depois disso, não consegui mais falar com ele. No mesmo dia, fui até todas as delegacias de Jundiaí e não tinha nenhum boletim de ocorrência, não tinha nada."

Eduardo conta que acha estranho o fato do filho ter desaparecido logo após ser detido. "Disseram que não houve abordagem no local, depois disseram que houve abordagem. A Corregedoria, há oito meses, me chamou e informou que a investigação corre em sigilo. Os policiais envolvidos na abordagem foram afastados e depois transferidos. O que a gente tem feito para descobrir algo é por conta. Qualquer ocorrência de ossada encontrada, eu corro para o IML [Instituto Médico Legal] para ver se é ele."

Pelo tempo transcorrido, o pai de Cadu acha que o filho já não esteja vivo. "Eu não tenho mais esperança de encontrar meu filho vivo. Queria pelo menos encontrar os restos mortais dele para dar um enterro digno. Temos advogados no caso, mas sei que não vai adiantar prender ninguém, a justiça que eu quero é que quem fez isso seja homem o suficiente para dizer onde está o meu filho. Quero saber o que fizeram com ele."

Sobre a infeliz experiência, Eduardo diz ter tido os piores dias de sua vida. "Eu não comia, não dormia, não tinha força para trabalhar. Agradeço à minha esposa que me incentivou a continuar, sempre esteve do meu lado. Para a família, é sempre bom que, se alguém ver uma pessoa parecida, entre em contato com a polícia e informe onde viu, mas não faça trote como fizeram comigo. Ligaram dizendo que estavam com o meu filho em cativeiro, pedindo R$ 30 mil. Isso é muito dolorido, a gente chora dia e noite."

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que, no caso de Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, as investigações das polícias Civil e Militar foram encaminhadas ao Tribuna de Justiça Militar (TJM). O TJM informa que à Justiça Militar não chegou nenhum inquérito sobre o caso.

COMPORTAMENTO

Psicanalista, Thiago Gomes Marques conta que o comportamento de pessoas que têm conhecidos desaparecidos é amplo. "Vai depender do vínculo que se tinha com a pessoa, se é um familiar, uma pessoa do convívio. Pais e filhos, que estão na mesma casa, estranham a pessoa não estar no ambiente e pensam no que poderia ter sido feito. Quando é uma pessoa mais distante, há a falta e pode haver uma mobilização, mas de modo mais organizado."

Thiago diz que o desaparecimento é diferente do óbito por ficar a constante incerteza e há três estágios. "Normalmente, em um primeiro momento, a pessoa tem angústia, depois, ansiedade, e a longo prazo tem o processo de luto."

"Superar não é muito possível, a menos que haja um desfecho, e cada pessoa lida de um modo particular com isso. Os amigos, a igreja e própria terapia dão recursos para a pessoa restabelecer a vida e lidar com o que aconteceu. Mas há alguns poucos casos em que não há o sofrimento, o desaparecimento pode ser um alívio. Algumas pessoas podem ter um comportamento agressivo, problemático, então quem convivia com ela se sente menos desprotegida", explica.

Credito: ARQUIVO JJ / Descrição: Thiago Marques explica que não é possível superar se não há desfecho

BUSCAS

Segundo o HSV, pacientes desconhecidos, que não apresentam nenhum documento que comprove sua identidade no momento da admissão na unidade hospitalar, têm o suporte da equipe de Serviço Social. Geralmente, esses casos acontecem em situações que envolvem vítimas de acidentes de trânsito e pessoas em situação de rua.

O hospital informa que o Serviço Social realiza a busca de familiares, local de residência, amigos, rede de atendimento assistencial dos municípios, pesquisa na ferramenta de cadastramento dos usuários do SUS, entre outros recursos. Caso a busca não seja efetiva, o SIM é acionado para a coleta das digitais do desconhecido, mas esse serviço só será eficaz se o paciente tiver as digitais colhidas no estado de São Paulo. Após descartar as opções acima, a equipe solicita divulgação na imprensa.

No Portal da Transparência do Registro Civil há 310 pessoas falecidas em Jundiaí que não foram identificadas. Quando considerada a Região, o número de mortos sem identificação sobre para 489. São 28 de Cabreúva, 51 de Campo Limpo Paulista, dois de Itupeva, 27 de Jarinu, 34 de Louveira e 37 de Várzea Paulista. Algumas dessas pessoas morreram há décadas.

A Polícia Civil informa que o boletim de ocorrência de desaparecimento pode ser feito pela Delegacia Eletrônica. Depois da comunicação, a delegacia instaura o Procedimento de Investigação de Desaparecimento (PID) ou o Inquérito Policial, caso haja indício de crime ou em virtude da condição do desaparecido (crianças, adolescentes ou de pessoas incapazes).

Desaparecidos e óbitos desconhecidos constam em: https://transparencia.registrocivil.org.br/obitos-desconhecidos e http://200.144.31.45/desaparecidos/

 


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