Jundiaí

Tratamento paliativo na pandemia ressignifica o olhar sobre o luto

ADVERSIDADE Mesmo no cenário atual, o importante para quem segue em paliativo é estar bem e se sentir em segurança, independente do que aconteça


                  ALEXANDRE MARTINS
Lana Fortes Silva diz que a escuta é fundamental para o paciente
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A pandemia afastou as pessoas por conta do risco da transmissão. Por outro lado, aproximou pacientes paliativos da família, já que, com a pandemia, a internação os afastaria dos entes, sendo opção a permanência em casa, inclusive para o óbito.

Assim, o tratamento paliativo ganha uma dimensão até então menos explorada: O cuidado continua sendo médico, mas tem uma partilha familiar maior, priorizando o bem-estar do paciente, que nem sempre é terminal.

Especialista em clínica médica e cuidados paliativos, Lorena Novello Fregato Gomes explica o conceito. "Em cuidados paliativos, não se fala sobre impossibilidade de cura ou o antigo conceito de que não há mais o que fazer. Se não há possibilidade de tratamento modificador de doença, é implementado um plano de cuidados."

"Esse processo se desenvolve através da identificação precoce e do tratamento adequando de sintomas físicos, psicossociais e espirituais, podendo assim prevenir e aliviar o sofrimento", diz a médica do Hospital São Vicente (HSV).

Lorena afirma que a pandemia alterou o atendimento, já que a presença de familiares no hospital não é permitida pelas normas de prevenção ao coronavírus. "Nesse contexto, foi de extrema importância a abordagem multidisciplinar, a fim de garantir a comunicação entre equipe de saúde, família e paciente, através de mensagens de voz, ligações e chamadas de vídeo. Sempre que possível, de acordo com as condições clínicas do paciente, a equipe de saúde prioriza a alta hospitalar ou a alta em regime de internação domiciliar."

CASOS

Paciente paliativo do HSV, Carlos Alberto da Costa, de 78 anos, tem câncer de pulmão e segue em casa por causa da pandemia. Segundo sua esposa, Edna Gonçalves, de 51 anos, o tratamento paliativo começou neste mês e ela ainda tem medo da internação em casa. "Por causa da pandemia, ele já estava em casa, então continuou o cuidado. Acho que no hospital fica mais tranquilo para o caso de precisar de uma internação rápida. Para ficar no hospital, fazem exame de covid antes de dar entrada, então quem está lá não tem."

Edna diz que mesmo sendo difícil a cura, ele faz quimioterapia. "Deu início à quimioterapia, mas ainda não sabem quantas sessões serão necessárias. Eu parei de trabalhar para cuidar dele."

Já Andrea Yamaguti, que também tem câncer, faz o acompanhamento paliativo na Unimed há mais de um ano e tenta fazer o que gosta, mesmo na pandemia. "A médica ofereceu os cuidados e perguntou se eu queria. Passei com nutricionista, depois com a médica. No meu caso, não faço mais quimioterapia, só imunoterapia, e o paliativo é um apoio."

Andrea conta que também tem muito apoio em sua religião, o Budismo, e busca viver normalmente em casa. "Comecei o paliativo um pouco antes de começar a pandemia e a médica disse que não era para ficar só em casa, era para ter cuidado, mas levar a vida, fazer caminhada, e faço todos os dias. Foram muitos boas as orientações, percebi a humanização."

ATENÇÃO

Psicóloga especialista em psicologia da saúde, Lana Fortes Silva atua no cuidado paliativo da Unimed e diz que a pandemia intensificou os temores. "O atendimento por videochamada remoto foi intensificado. Mesmo as pessoas que já tinham tratamento, tinham medo do contato. Até quem a gente faz atendimento residencial, alguns têm preferido o atendimento remoto. Percebo o impacto no aumento de videochamada e no aumento do sofrimento psíquico causado pela pandemia."

Lana diz que a escuta é fundamental para entender o cultural medo da morte, mas o paliativo não se restringe a isso. "A gente tem uma cultura de tratamento pautado em proposta curativa. As pessoas acreditam que o paliativo é apenas o cuidado no fim da vida, mas, segundo a OMS, é voltado a doenças que ameaçam a vida, com tratamento ou não. Doenças crônicas, como diabetes, por exemplo, demandam paliativo, mesmo não sendo caso de fim de vida. Acham que ir para o cuidado paliativo é desistir da cura", explica.

Médica paliativista da Unimed, Joana Nunes conta que a pandemia ressignificou o cuidado e também o óbito em casa. "O tratamento em casa é uma decisão compartilhada. O paciente oncológico já costuma ter aversão a hospital pelos múltiplos exames que precisa fazer. A gente consegue levar para a casa do paciente a estrutura de homecare, para dar medicação contínua. Se o paciente está confortável, não por que não permitir."

"Teve óbito em casa que teve acompanhamento, mas com o empurrãozinho da pandemia. No hospital, os pacientes não podem ter os familiares junto por causa da covid-19, então a situação ajudou a pensar no óbito em casa. É uma decisão conjunta da equipe, do paciente e da família, porque tem gente que não consegue lidar depois com o fato de ter o falecimento de um ente em casa. Mas, se a pessoa morre cuidada, amparada, faz toda a diferença para a família. A pessoa falecer em paz implica no luto também", diz ela.


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