Jundiaí

Deficientes físicos mostram como a vida é uma eterna adaptação


ARQUIVO PESSOAL
Edison Augusto Gobbi afirma que a adaptação ao cotidiano é contínua
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Pessoas que nascem ou adquirem algum tipo de deficiência não precisam "superar" a vida, mas sim, se adaptarem às dificuldades pelo caminho. Em Jundiaí, dois moradores contam como tiveram que se virar para prosseguir com o cotidiano, entre a prática de esportes e a conclusão de etapas da vida.

Sergio Robinson Hoffmann, de 56 anos, possui a doença de Charcot-Marie-Tooth, uma doença neuromuscular progressiva que compromete os nervos de membros inferiores e superiores. Geralmente, aparece na adolescência ou no início da idade adulta.

"Os sintomas da doença começaram a aparecer entre os meus 35 e 40 anos, em que fui perdendo o equilíbrio e caía muito. Estava perdendo muitos dias de serviço por conta da quedas, então resolvi ir ao médico e acabei descobrindo a doença", conta.

Após a descoberta, Hoffmann intensificou seu ritmo no serviço, fazendo muitas horas extras para garantir o máximo de sustendo possível. "Aos 42 anos, não teve mais jeito e me afastei de vez do trabalho. No começo fiquei um pouco preocupado, pois tenho duas filhas para criar, mas deu tudo certo, a aposentadoria foi boa, principalmente por conta dessas horas extras", comenta.

ESPORTE

A vida de Hoffmann sofreu uma grande transformação, passando muitas horas do seu cotidiano na fisioterapia, até entrar para o Programa de Esportes e Atividades Motoras Adaptadas (Peama) de Jundiaí, lugar que frequenta todos os dias.

"Estou há 10 anos no Peama, comecei a ir de bicicleta e, antes dos treinos, pedalava até o Parque da Cidade também, mantendo um ritmo bem forte de exercícios físicos e isso me ajudou bastante. A progressão da doença estava de médio para grave, depois que comecei a fazer essas atividades, ela mudou de médio para leve, permanecendo assim até hoje. Eu mal ficava em pé quando cheguei no Peama", ressalta.

De acordo com Vanessa Rancoletta do Nascimento, educadora esportiva do Peama, o treino destes atletas é como de qualquer outro. "É um trabalho árduo e puxado, principalmente agora em que muitos ficaram parados, então, eles precisam ganhar a condição física que perderam", afirma.

Vanessa trabalha, principalmente, com a iniciação dos atletas da natação, desde a adaptação ao meio líquido até as técnicas de nado. "O primeiro contato com o esporte para uma pessoa que nunca praticou pode ser de diversas formas, tem gente que fica maravilhado logo de cara e tem gente que demora para encontrar o que mais combina. Depois que eles se encontram no esporte, a pessoa não vai querer parar", pontua.

COTIDIANO

Atualmente, Hoffmann dirige um carro adaptado, mas quando não podia, ele se virava para conseguir se locomover pela cidade. "No começo eu dependia totalmente da minha esposa para ir na fisioterapia, por exemplo, mas depois de um tempo, quando ela não conseguia me levar, eu ia de ônibus mesmo até conseguir a carta para o carro adaptado, com câmbio manual, e acelerador e freio juntos. Antes eu dependia da minha esposa, hoje, sou eu quem ajudo ela", afirma.

Hoffmann conseguiu uma bolsa da prefeitura e se formou em educação física pela Escola Superior de Educação Física (Esef) de Jundiaí. "Passava o dia todo no Bolão e, em 2020, até ajudava o Peama em algumas aulas, principalmente no ciclismo. Hoje, pratico muitos esportes além das pedaladas, faço natação, atletismo, musculação e caminhada", conta.

O principal objetivo que Hoffmann teve quando iniciou com os esportes era conhecer seus netos. "Minha intenção é ver meus netos nascerem e crescerem, para pode brincar com eles, bem de saúde. Não quero que eles cuidem de mim, eu quero cuidar deles por um bom tempo", ressalta.

ADAPTAÇÃO

Edison Augusto Gobbi, de 66 anos, possui tetraplegia, que ocorre quando alguma lesão atinge a medula espinhal, a nível cervical, causando perda dos movimentos do tronco, pernas e braços.

"Com 20 anos, eu sofri um acidente de carro, em que tive uma luxação C5, ou seja, atingiu entre a quinta e a sexta vértebra cervical, que deixou meu corpo todo travado", conta.

Desde o acidente, Gobbi foi se adaptando ao seu novo cotidiano, ele se formou em tecnologia de informática, casou, teve dois filhos e, quando pode, pega seu carro adaptado para dirigir. "Primeiro, eu sobrevivi, depois, fui conseguindo fazer algumas coisas e aos poucos fui adquirindo certos movimentos para as atividades diárias. Com 20 anos eu não podia achar que tudo estava acabado, senão, acaba mesmo", afirma.

Depois dos 40 anos, alguns movimentos de Gobbi começaram a regredir e novamente, precisou se virar para acostumar seu corpo aos diferentes movimentos. "Precisei me adaptar, como a cadeira de rodas por exemplo, eu não conseguia passar dela para a cama, diretamente. Então, tinha que achar um jeito de encaixar meu corpo para fazer isso, mas hoje, eu tenho uma cadeira da altura da cama, o que me permite fazer o processo de um jeito melhor", comenta.

Segundo Gobbi, foi muito importante trabalhar a parte mental, pois as frustrações são desgastantes. "Em muitos momentos sentia uma falta de liberdade de fazer o que eu queria, na hora que queria, sempre precisando esperar por alguém para fazer as coisas e, por conta disso, busquei formas de me virar sozinho, como o carro", explica.

Para Gobbi, uma parte chata da vida, era quando as pessoas passavam por ele e o consideravam como um simples "coitado". "Tem gente que me vê dirigindo e comenta como se fosse algo sobrenatural. Até há deficientes que se fazem de 'vítimas', mas esse não é o ponto, pois também temos que cobrar do poder público para ter mais acessibilidade na cidade, por exemplo. A luta é diária", ressalta.

(Lucas Hideo)


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: