Jundiaí

Mesmo com desemprego, há vagas difíceis de preencher

MERCADO De um lado há a busca por mão de obra para determinadas funções e de outro uma grande parte da população que pode trabalhar, mas não nessas funções


                        ALEXANDRE MARTINS
Viviane Quiessi diz que o treinamento interno é uma opção para as vagas
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

O Brasil tem quase 15 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso reflete a recuperação do mercado após o índice mais alto de desemprego da série histórica, registrado no início deste ano.

Mas, mesmo com este índice, há vagas específicas que são difíceis de preencher, em todos os setores da Economia. Isso acontece geralmente com funções que exigem experiência, capacitação ou disponibilidade maiores.

Ou seja, há de um lado o mercado que busca mão de obra para determinadas funções e de outro uma parte significativa da população que está disponível para trabalhar, mas não naquelas funções específicas.

Almoxarife da Construção Civil, Robson Lourenço ocupa um destes cargos. "Já estou há 10 anos na função. Vim da indústria e aprendi muito no dia a dia, na obra. Fiz cursos também. Almoxarifado de construção é totalmente diferente, é mais dinâmico, não tem estoque, porque o estoque fica na obra mesmo, é o material que vão utilizar. Tem muitos itens diferentes, precisa conhecer para auxiliar a construção."

Ele conta que, mesmo sendo bastante diferente do almoxarifado da indústria, não é um cargo em extinção. "Todo almoxarife bom está empregado, por isso é difícil de achar. Hoje a construção está em um lugar, mas já passei por construtora em que eu estava onde a obra estava, então acho que dificulta encontrar profissional para almoxarife de obra. Tem bastante almoxarife, mas é difícil achar para construção."

E, justamente por causa da dinamicidade do cargo, Robson diz que prefere as obras. "Às vezes, a pessoa de fora entra no almoxarife da construção e se assusta. Já teve alguns casos de gente que não conseguir se adaptar. Para mim, o que assusta é ótimo. Com rotina do almoxarifado de obra, me sinto livre. Gosto dessa dinâmica e não me vejo mais fechado em uma empresa. Tentei voltar para a indústria, mas gosto de obra."

Gerente-executiva de administração e responsável pelos recursos humanos da construtora onde Robson trabalha, Viviane Quiessi diz que alguns cargos são muito complicados para encontrar mão de obra. "Temos muita dificuldade de encontrar operador de guincho, sinalizador, carpinteiro, grueiro e almoxarife de obra. Alguns casos precisam de validação técnica, mas carpinteiro, por exemplo, é algo que já está começando a extinguir mesmo. Hoje, os jovens não se envolvem muito em carpintaria e não é uma profissão que exige conhecimento técnico, mas tem a dificuldade pelo conhecimento da função em si. Os que temos, já estão há muito tempo na profissão."

Ele diz que os cargos que exigem conhecimento técnico, muitas vezes, acabam sendo preenchidos após treinamento interno. "Nossa alternativa hoje são os gestores que avaliam os colaboradores para receber capacitação interna e assumir as vagas abertas. Hoje, não está fácil achar nem servente de pedreiro, cargo que não exige experiência."

CAMPO

Diretor industrial de uma empresa que produz polpas de frutas e legumes congelados em Jundiaí, Carlos Alberto De Marchi diz que um problema para preencher vagas na agroindústria é a disponibilidade do funcionário. "Dentro das propriedades rurais, o funcionário teoricamente tem que morar no local, porque são áreas mais afastadas. Nós estamos tendo muita dificuldade em função de que muitas vezes o funcionário é casado, tem filhos pequenos. De primeiro, nós conseguíamos colocar dentro de uma casa várias pessoas que te atendiam dentro da propriedade rural. Hoje, a maior dificuldade que nós temos é que você precisa ter uma casa para cada funcionário, praticamente."

De Marchi também cita a dificuldade relacionada à qualificação. "Os equipamentos estão evoluindo bastante e pessoas capacitadas para isso são um outro problema. Quando você encontra uma pessoa que tem um pouco de conhecimento na parte de tecnologia, ela quase não tem conhecimento na parte do agro em si, então está bem difícil."

FABRIL

Supervisora de recrutamento e seleção de uma agência de empregos de Jundiaí, que tem foco maior na indústria, Carla Moraes conta que há dificuldade para preencher vagas mais braçais. "Hoje, o que sinto muita dificuldade é trabalho mais braçal. Operador de torno convencional, por exemplo, está um pouco extinto, geralmente são pessoas mais velhas que desenvolvem a função. Para a parte de ferramentaria também tem dificuldade, usinagem em geral."

Além disso, a capacitação também conta em alguns casos. "TI [tecnologia da informação] também tem um pouco de dificuldade para vagas pleno e sênior. Os profissionais dessa área trocam de emprego, você não acha ninguém desempregado para preencher uma vaga. A qualificação é um problema. Muitas pessoas não têm ensino médio completo."

Ela diz que algumas empresas adotam o ISO, Organização Internacional de Normalização, e isto faz com que a qualificação dos funcionários seja exigida. "Os mais jovens vão para o Senai, mas não desenvolvem mais este serviço braçal. O candidato tem que dominar a área técnica, mas a empresa não pode contratar sem escolaridade por causa do ISO, das auditorias, até em vagas operacionais", explica Carla.


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