Jundiaí

Polarização política impacta economia e denuncia desinformação

DEMOCRACIA Para professor da Unicamp, polarização política impede retomada econômica brasileira e é causada por falta de informação séria e responsável


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Wagner Romão, da Unicamp, diz que polarização afeta a economia
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Prestes a comemorar mais um ano da Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, o clima de polarização política marca inclusive o aniversário desta data. Estudos relacionam essa polarização excessiva com o aumento de casos de covid-19. Para cientista político, o eterno "Fla-Flu" no debate entre direita e esquerda impede o crescimento econômico e tem fundamento na falta de informação.

Wagner Romão, professor do departamento de ciência política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que a polarização gera instabilidade política o que, por sua vez, influencia diretamente na confiança dos agentes econômicos para investir no País. "Quem pretende investir, seja criando indústrias, empregos, colocando dinheiro, está sempre atento às intempéries políticas", diz.

Na opinião dele, a incapacidade do governo, sobretudo o federal, em lidar com a pandemia gera efeitos diretos sobre a economia. "Era para estarmos vivenciando um momento de retomada econômica, mas ainda assim os dados do PIB do segundo trimestre, divulgados essa semana, são negativos."

Romão avalia, ainda, que alguns agentes políticos têm inflamado ainda mais a polarização propositalmente. "Vemos um tipo de prática que parece quer jogar mais lenha na fogueira, estimula situação de conflito constante, campanha política que acontece ao longo do mandato."

FALTA INFORMAÇÃO

O cientista político entende que a falta de informação ou, mais do que isso, o compartilhamento de informações falsas, as famosas fake news, são catalizadores da polarização. "Quando falta informação temos polarização. A gente precisa ter o máximo de informações para conseguirmos manter um equilíbrio e isso não está acontecendo. O governo não atua dessa forma e fica difícil esperar uma retomada em meio a essa situação."

A estudante Marina Fávaro, 18 anos, voluntária da ONG Voto Consciente, também acredita que a falta de informação seja uma das causas da polarização política. "Eu acredito no papel da informação e acho que se as pessoas têm informações sérias e apuradas podem tomar desde decisões melhores."

Também voluntária do Voto Consciente, a estudante Letícia Bianchi Paiva, 19 anos, enxerga a polarização como uma ameaça constante à democracia. "Acho a polarização muito perigosa em nível nacional e ainda pior em nível municipal. Não tem porque direita ou esquerda interferir na esfera municipal, o trabalho precisa ter posição neutra."

Ela considera toda forma de radicalismo perigosa. "Precisamos conscientizar as pessoas sobre o sistema eleitoral e para que não caiam em fake news", alerta Letícia. "A gente vive consequências de um país em que a educação é banalizada e como consequência temos situações como a que vivemos hoje. Uma polarização intensa, falta de comunicação dos dois lados. A polarização é muito ruim e só pode ser combatida com informação", completa Marina.

MANIFESTAÇÕES

Dois grandes debates tomaram conta da mídia e das redes sociais ao longo do ano. O primeiro foi a discussão sobre a proposta de retomada do voto impresso. Mais recente, nas últimas semanas o debate ficou por conta de quem poderia ocupar as avenidas com manifestações - pró ou contra o governo e o Supremo Tribunal Federal - neste 7 de setembro.

Houve uma determinação do governo estadual permitindo as manifestações pró-Bolsonaro no dia 7 de setembro e deixando as manifestações da oposição para o dia 12. Contudo, a Justiça de São Paulo autorizou, nesta segunda-feira (30), que grupos de oposição a Jair Bolsonaro (sem partido) também se manifestem no feriado do Dia da Independência, no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. Em Jundiaí os dois movimentos, pró e contra, também programam manifestações.

Para alguns estudiosos, essas discussões midiáticas não passam de uma cortina de fumaça para manter a população ocupada.

POLARIZAÇÃO E COVID

Estudos internacionais fazem uma conexão entre a polarização social e polícia e a intensificação da pandemia. "Uma maior polarização social e política pode ter acabado por custar vidas durante a primeira onda de covid na Europa", conclui estudo assinado por Víctor Lapuente, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Nicholas Charron e Andrés Rodríguez-Pose, da London School of Economics.

O trabalho avaliou a correlação entre as mortes e a polarização política em 153 regiões de 19 países da Europa. "Observamos que maiores níveis de polarização indicam um número de mortes significativamente maior. Por exemplo, a diferença no excesso de mortes entre duas regiões, uma sem polarização das massas (2,7%) e outra com níveis máximos (14,4%), é mais de cinco vezes maior."

POLARIZAÇÃO E ECONOMIA

Segundo Romão, os investidores analisam todas as alterações que ocorrem no País, o que pode ser no campo da política ou mesmo das situações de difícil controle, como a pandemia, a crise hídrica ou chuva intensa demais. "Tudo isso influencia na decisão de escolha por investir ou não."

O professor analisa a recente rejeição do Senado à MP (medida provisória) 1045. "Em um primeiro momento se esperava que fosse ser um estimulador da economia porque previa a reedição do auxílio emergencial, mas o governo foi tão inábil que colocou na mesma MP as medidas da carteira verde e amarela, que tiram direitos dos trabalhadores, sobretudo dos jovens. Juntaram duas coisas que não tinham nada a ver e inviabilizaram a aprovação do auxílio que injetaria dinheiro na economia."


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