Jundiaí

Na Serra do Japi, a salvação e o recomeço na Missão Belém

PROCESSO Os acolhidos pela missão reiteram que o local não é uma clínica, quem está lá é livre, mas há a opção de sair definitivamente das ruas e das drogas


                      ALEXANDRE MARTINS
Marcelo Moura chegou à fazenda por acaso há cerca de uma semana
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

No meio da Serra do Japi, em Jundiaí, há a fazenda Santa Marta. O local, com diversas edificações, é ocupado por mais de 140 de homens que buscam um recomeço e até um novo sentido para a vida.

Mantida pela Missão Belém, um movimento religioso do Catolicismo que existe desde 2005, a fazenda é bastante afastada da urbanidade de Jundiaí e acolhe homens em situação de rua, muitos deles, dependentes químicos.

Sem distinção, porém, inclusive de religião, a Missão Belém prega o lema de ser "uma família para quem não tem família". Em Jundiaí, o movimento existe há cerca de seis anos e, além da Santa Marta, tem um espaço no Rio Acima também, que acolhe mulheres.

Missionário e coordenador da fazenda, José Antonio Cunha, de 38 anos, conta que já foi um acolhido, há 12 anos, depois de 10 anos usando drogas. Hoje, ele ajuda quem busca a mesma sobriedade. "Aqui tem cerca de 140 homens. Os acolhimentos são diários, hoje mesmo já chegou gente, mas tem dia que não vem ninguém também. Já veio gente andando, às vezes a gente vai buscar, mas a maioria vem de ônibus."

Cunha conta que os acolhidos ficam no lugar alguns meses e depois buscam a reestruturação da vida. "Os irmãos têm um tempo aqui, de seis a nove meses. Quando o irmão chega, fica 20 dias na triagem para entender a dinâmica. Se ele decidir ficar, a gente desenvolve o trabalho espiritual, oferece catequese, crisma. Com cinco meses aqui, alguns já têm proposta de emprego em um mercado de Itupeva que nos apoia. A prefeitura também oferece curso de confeiteiro, cabeleireiro. Então tem irmão que quer ficar e tem o que vai embora. Uns 70%, 75%, passa pela triagem e fica", conta ele sobre os parceiros que ajudam a Missão, oferecendo emprego e também doando alimentos.

MOMENTO

Há sete meses na Missão Belém, Guilherme Juliano Cassimiro, de 48 anos, diz que foi para o local depois de um momento difícil, quando perdeu a mãe e passou a abusar do álcool e das drogas. "Sempre fui católico e um dia na igreja o padre da Cúria disse que eu era inteligente e perguntou se eu não queria me doar para Deus. Eu já tinha feito tudo que eu queria na vida, mas não tinha me encontrado em nada. Consegui me encontrar aqui."

Ele diz que ficar na fazenda é difícil a princípio e a força é renovada dia a dia. "Aqui não é para cuidar do corpo, é para cuidar em primeiro lugar da mente e da espiritualidade. Todo dia a gente mata um leão e já tem outro à espera. É igual recarregar bateria de celular, tem que ler a bíblia todo dia, fazer o nosso diário espiritual 365 dias do ano, isso alimenta. Aqui dentro você pode cair na droga de novo, não é uma clínica, não tem remédio, você pode sair. Nós não perguntamos a quem chega aqui de onde veio, se tem doença, passagem pela polícia, a gente acolhe."

ACASO

Marcelo Moura, de 45 anos, chegou na Missão Belém há pouco mais de uma semana e busca, pelo menos, colocar a cabeça em ordem depois de cerca de quatro anos nas ruas. "Eu sou de Barretos, vinha de Campinas e ia para São Paulo, para a praça da Sé. Passei por Jundiaí e vi que tinha um pessoal interagindo na praça da igreja Matriz, me aproximei, conversei com os irmãos e me falaram dessa missão, então eu vim. Nos primeiros dias é complicado, mas vou colocando a cabeça no lugar, pretendo ficar mais tempo."

Marcelo já era de família católica, mas é a primeira vez que fica na Missão Belém. "Tenho família, irmãos, mas me dou mais com os irmãos da rua. Eles se formaram e eu tive as mesmas oportunidades que tiveram, mas escolhi outros caminhos. me afundei mais nas drogas nos últimos tempos. Você, na rua, usa droga e já fica desesperado por mais. Vim para cá para colocar minha vida em ordem. Ajudar o meu próximo ou me ajudar e poder seguir, colocar em prática o que aprendo aqui."


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