Jundiaí

AUJ tem 35% mais casos de estupro em 2021

TABU SOCIAL Para coordenadora de entidade que acolhe vítimas, o principal desafio é deixar de culpar a vítima pela violência sofrida; "Nascemos culpadas"


                      ALEXANDRE MARTINS
Andreia Melo acolheu criança de 5 anos estuprada perlo próprio pai
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Nas sete cidades do Aglomerado Urbano de Jundiaí houve um aumento de 35% no total de casos de estupro registrados, comparando os dados de janeiro a agosto de 2020 com o mesmo período em 2021. As estatísticas são da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Entidades buscam dar suporte e atendimento psicológico às vítimas, que ainda são muito vulneráveis ao julgamento social.

Em 110 dos 135 casos de estupro registrados na Região as vítimas foram crianças, o que representa 81,5% do total de ocorrências. É o caso de uma das vítimas atendidas pela coordenadora do Naamu (Núcleo de Atendimento e Acolhimento a Mulher), Andreia Melo.

"Uma criança de 5 anos um dia criou coragem e contou para a mãe e outros familiares que estava incomodada com coisas que o pai vinha fazendo com o corpo dela", relata a ativista, que também já foi coordenadora da Patrulha Guardiã Maria da Penha da Guarda Municipal de Jundiaí.

Embora seja mais conhecido por seu trabalho com mulheres vítimas de violência doméstica, o grupo também dá suporte a vítimas de abuso sexual e só esse ano acolheu três delas. Além da criança, houve ainda uma mulher cis e uma mulher trans.

TABU

Para Andreia, o principal desafio da atualidade é vencer o tabu que culpa a vítima e não o agressor. "As mulheres e mesmo as crianças têm medo de serem julgadas. É como se todas nós nascêssemos já condenadas. 'Porque estava na rua', 'porque se veste assim'. Tudo é motivo para justificar o abuso perante a sociedade."

Ela ressalta o medo da mulher tanto desse julgamento quanto da própria cobrança pessoal. "No caso dessa criança estuprada, a mãe se culpa. Questiona onde ela estava que não viu isso acontecer. Mas como ela veria? Foi a pessoa em quem ela mais confiava que cometeu o crime."

ACOLHIMENTO

Além de entidades como o Naamu, Jundiaí ganhou nessa sexta-feira a primeira entidade voltada exclusivamente para o atendimento de vítimas de abuso sexual. Até então, as entidades assistenciais recebiam vítimas, mas não com esse intuito exclusivamente.

A presidente da Associação Maria de Magdala, Cristina Castillo, explica que algumas das assistidas já passaram por esse trauma, mas não buscaram a entidade em decorrência disso. "A vice-presidente da Magdala é psicóloga, mas as mulheres, creio que pela própria exclusão, não procuram esse tipo de ajuda."

DADOS

De acordo com o Fórum Nacional de Segurança, realizado em julho deste ano, em 2020 houve 60,4 mil estupros no Brasil, sendo que 73,7% das vítimas eram vulneráveis, incapazes de consentir.

Isso representa uma redução de 14,1% no total de estupros, comparando os dados de 2019 com 2020, em nível nacional. No entanto, no Aglomerado Urbano de Jundiaí, essa redução não aconteceu.

Em Cabreúva, quase triplicou o número de casos, de 9 vítimas para 14. Em Louveira, as ocorrências mais do que dobraram, de seis para 13. Em Várzea Paulista o aumento foi de 57%, de 21 para 33 vítimas. E em Jundiaí os dados subiram de 45 para 55 ocorrências registradas, totalizando 22% de aumento.

Já nas cidades de Itupeva, Jarinu e Campo Limpo Paulista houve redução. Segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo, essa redução estatística pode não condizer com a realidade.

SUBNOTIFICAÇÃO

Contudo, apesar da redução percentual, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Instituto Sou da Paz e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) alertam que as crianças e adolescentes ficaram ainda mais vulneráveis à violência sexual durante a pandemia da covid-19, em função do fechamento das escolas e de outros espaços importantes para a construção de vínculos de confiança com adultos fora de casa. Em estudo em conjunto, analisando dados quantitativos de ocorrências, as entidades afirmaram que a pandemia agravou a subnotificação de casos de abuso sexual.

Essa subnotificação, no entanto, não é tão recente assim. A Pesquisa Nacional de Vitimização (2013) verificou que, no Brasil, somente 7,5% das vítimas de violência sexual registram o crime na delegacia. A mais recente pesquisa do gênero, Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde, produzida pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), fala em 10% de casos notificados e estima que, no mínimo, 527 mil pessoas sejam estupradas por ano no país.

Os Conselhos Tutelares das cidades da Região voltaram a atender presencialmente, o que juntamente com a reabertura das escolas pode ser um divisor para a redução da subnotificação da pandemia. Procurados, os conselhos alertaram para a possibilidade de enviar inclusive denúncias anônimas de abuso sexual. Todos estão trabalhando de portas abertas, porém também aceitando denúncias anônimas para averiguação de qualquer tipo de violência.

Vítimas também podem denunciar anonimamente pelo telefone 181 ou, em caso de emergência, pelo 153 e 190. Todas as delegacias de polícia também são obrigadas por lei a acatar denúncias e abrir inquéritos, já que estupro é um crime de natureza incondicional, portanto não demanda representação para que a investigação seja aberta.

MINUTO SEGUINTE

Algo importante de ressaltar é a existência da lei do Minuto Seguinte, pouco divulgada na mídia. Trata-se de lei que garante à vítima de abuso sexual o direito de ser atendida com prioridade em qualquer hospital independente da abertura de boletim de ocorrência.

A orientação é que os casos sejam sempre denunciados, mas a prioridade, segundo a lei, é que antes de qualquer coisa a mulher receba o atendimento médico adequado, bem como os coquetéis para prevenir doenças sexualmente transmissíveis e gravidez por estupro.


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: