Jundiaí

Mesmo com reforços, educação terá sequelas pós-pandemia

RECUPERAÇÃO A mensuração das perdas já ocorre, bem como o trabalho de reposição de conteúdo, não dado ou absorvido, em instituições de ensino


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Ítalo Curcio diz que a educação terá sequelas, mesmo com reforços
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A educação presencial voltou de forma mais incisiva no início de agosto e, nestes dois meses de retorno, uma certeza é a de que o período de aulas remotas deixou sequelas no aprendizado de crianças e adolescentes, como explica o doutor e pós-doutor em Educação e pesquisador no curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ítalo Curcio.

"Somos seres humanos e temos desenvolvimento ao longo da vida. Assim como a própria covid, ocorrerão sequelas, algumas pessoas terão mais dificuldade para se recuperar e outras menos. Teremos cidadãos que carregarão isso, outros não, e o tempo da recuperação também será diferente. Por exemplo, se uma pessoa tem um AVC aos 40 anos e fica paralisada, com 60 anos, ela já estará praticamente recuperada. Mas se ela tem um AVC aos 80, não tem esse tempo", diz ele elucidando a diferença para alunos que se formarão no fim do ano e os que ainda terão ao menos mais um ano para esta recuperação.

Curcio diz que é possível já avaliar as perdas individuais de acordo com o planejamento pedagógico previsto para determinada turma. "Para recuperar essa falta, temos que fazer uma avaliação diagnóstica dos alunos para saber em que condições estão e como deveriam estar. É possível mensurar as perdas e nenhum aluno está realmente como deveria estar se não tivesse ocorrido a pandemia."

Mas, tanto o impacto quanto a recuperação, no entanto, dependem dos recursos das escolas. "Já tínhamos déficits em algumas escolas. Em uma mesma rede já havia heterogeneidade e desnível antes da pandemia, mas na pandemia isso foi realçado. As escolas com mais condições também tiveram dificuldade, mas conseguiram atender melhor essa mudança, muitas escolas particulares já tinham uma estrutura. As outras ficam, infelizmente, mais aquém do esperado."

VOLTA

Claudinei Clemente, pai de Henzo Gabriel Martins Braga, de nove anos, gostaria que o filho repetisse este último ano na escola. "Quando chegou a pandemia, ele estava indo do 2º para o 3º ano, mas todo esse tempo foi perdido. Ele foi para o 3º sem saber quase nada do 2º, foi para o 4º sem saber quase nada do 3º. Ano que vem ele vai para o 5º sem saber coisa do 3º ano. Não tinha que passar de ano."

Ele diz que teme pelo futuro do filho com essa progressão continuada. "As crianças vão ter problemas seríssimos. Na pandemia, a gente tentava ensinar, mas não dava certo, ele não entendia. Muitas crianças não conseguiram se adaptar ao on-line. Ele ainda tem internet, mas muitas crianças nem isso têm."

Claudinei diz que muitos pais também preferiam que os filhos repetissem este último ano. "Ele está indo para a escola há duas semanas, mas a gente vê que ele tem muita dificuldade. Já pedi na escola, mas dizem que não podem deixar a criança no mesmo ano. Meu filho já fala que não quer mais ir para a escola, quando tiver mais idade, sem saber um monte de coisa atrasada, vai abandonar."

Jacqueline Viana, mãe de Emanuelle Viana, de nove anos, diz que chegou a pedir uma reunião na escola da filha para saber como o desempenho da menina estava nesta volta. "Mesmo tendo um desempenho excelente, ela estava com dificuldade em matemática. Disseram na escola que os alunos tiveram mesmo dificuldade, mas há o empenho agora para que consigam recuperar."

Ela avalia que a volta foi necessária para o desenvolvimento da filha. "Foi positivo principalmente pela questão psicológica, por poder estar de novo com os amiguinhos. Em casa, ela teve ansiedade com as aulas remotas. Presencial é muito melhor, então já melhorou a parte educacional e a psicológica neste período de volta."

Jacqueline diz que a defasagem das crianças é geral, então um reforço se faz necessário. "Muitas coisas não foram absorvidas por eles com sucesso devido à pandemia. Um reforço para todos seria muito proveitoso para sanar esses problemas que ficaram de lá de trás."

PLANOS

Em Jundiaí, a Unidade de Gestão de Educação (UGE) preparou o programa Estudo é Tudo, voltado à recuperação em Língua Portuguesa e Matemática dos 3º aos 5º anos. A UGE também verificou a defasagem na oralidade e no desfralde do Ensino Infantil. Segundo a unidade, 75% dos alunos que participam do Estudo é Tudo estão com os grandes problemas de defasagem sanados.

As aulas atualmente são diárias, com escalonamento e chamada virtual para os alunos que ficam em casa. A adesão presencial dos alunos da rede municipal chega a 90%. Para 2022, a UGE trabalhará em período integral com 5º anos, atendendo aos alunos que apresentarem mais dificuldades.

Para a rede estadual, a dirigente de ensino de Jundiaí, Valdete Ramos de Oliveira Melo, diz que todas as 36 escolas da cidade têm aulas presenciais e, na Diretoria Regional de Ensino de Jundiaí, a adesão à presencialidade é de 60%, com aulas ainda escalonadas em duas turmas.

"As aulas são síncronas, quem está em casa recebe o mesmo conteúdo, seja pela aula da sala ou Centro de Mídias. Com as avaliações bimestrais, é possível observar defasagem, mas ainda não é possível mensurar, porque as grandes avaliações ocorrem no fim do ano", diz Valdete.

Para a recuperação, Valdete fala que há um planejamento na rede. "Já atuamos nessa frente, quer seja com a recuperação contínua para auxiliar na defasagem, com os cadernos Aprender Sempre, que é um material que já vem sendo amplamente utilizado, temos semana de estudos intensivos, focada em recuperação, e o Além da Escola, um programa voltado a estudantes em vulnerabilidade", diz ela sobre alguns dos programas oferecidos em plataformas digitais e presencialmente.


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