Jundiaí

Não ter absorventes é realidade das meninas pobres de Jundiaí

MENSTRUAÇÃO A discussão sobre a distribuição gratuita de absorventes ganhou todas as esferas de poder recentemente, por conta do projeto de lei


          ALEXANDRE MARTINS
A aquisição dos absorventes não é acessível para muitas meninas
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A aquisição de absorventes para o período menstrual pode parecer banal para a maioria das pessoas, mas há uma parcela significativa de meninas e mulheres que não tem acesso a este item de higiene básica. O termo "pobreza menstrual" é utilizado para designar a falta de acesso a produtos de higiene básica para o período menstrual, o principal deles é o absorvente.

Uma pesquisa realizada em todo o Brasil pela Always, marca de absorventes, mostra que 29%, uma em cada quatro jovens, com idade entre 15 e 29 anos, não teve dinheiro para comprar produtos de higiene para o período menstrual em algum momento de suas vidas.

Esta precariedade traz inúmeras perdas, desde a evasão escolar até infecções causadas pelo uso de materiais inadequados na contenção do fluxo menstrual, como panos ou até, em alguns casos, miolo de pão.

DESIGUALDADE

Diretora da Associação Casa da Fonte, que assiste crianças e adolescentes no Novo Horizonte, Maria Cristina Castilho de Andrade diz que é radicalmente favorável à distribuição gratuita de absorventes. "A gente tem a distribuição para meninas e adolescentes que acompanhamos e sentimos essa realidade, principalmente em 2018. Acompanhamos os alunos na escola, temos uma pedagoga, e algumas meninas estavam faltosas. Faltavam no período menstrual, por não ter absorvente. Depois disso, todas souberam que nós tínhamos para oferecer e vêm buscar."

Ela diz que já presenciou alguns casos, tanto na Casa da Fonte quanto na Associação Maria de Magdala, que atende mulheres em situação ou que passaram pela prostituição. "Teve caso de uma adolescente aqui, que não faziam bullying, até porque não permitimos, mas comentavam do cheiro dela. Conversando, descobrimos que ela conseguiu um absorvente para todo o período menstrual, então ficava quatro dias com o mesmo absorvente."

"Há 10 anos, teve um caso na Maria de Magdala que me marcou bastante. Fui chamada em um hotel da cidade, onde tinha uma moça de 18 anos que se prostituía e estava passando mal, mas não queria ir ao hospital. Consegui convencê-la e a levei ao São Vicente. Ela havia chegado há pouco tempo de Minas Gerais e o que estava ganhando só dava para pagar mesmo o hotel em que estava hospedada", recorda.

Por conta disso, a mulher precisou improvisar um absorvente. "Ela estava menstruando e não tinha absorvente, então cortou um pedaço da espuma do colchão e usou como absorvente, mas a espuma não saiu depois e apodreceu lá dentro. Ela precisou tirar o útero, as trompas e os ovários. Era uma menina simples, que era órfã e fugiu do orfanato, então começou a se prostituir para sobreviver. Ela falava que o sonho dela era conhecer o príncipe encantado e nunca poderia, porque não podia mais ser mãe. Penso se não há meninas em condição igual que correm risco de infecção por causa disso."

Maria Cristina diz que, além da distribuição de absorventes, a Casa da Fonte tem uma bolsa para alguns assistidos, que ajuda nesta questão. "Somos mantidos pela CSJ [Companhia Saneamento de Jundiaí], que fornece para 14 alunos uma bolsa de R$ 150 por mês, para que frequentem a Casa da Fonte e a escola. Dessas 14 bolsas, seis são meninas. A partir do momento que começaram a receber o dinheiro, pararam de pegar o absorvente aqui, porque passaram a comprar."

Uma das meninas que recebem a bolsa, é Aline (nome fictício), de 15 anos. "Frequento a Casa da Fonte e faço a retirada de absorventes lá. No momento, recebo a bolsa, então ajuda. O dinheiro é para isso mesmo, comprar minhas coisas de higiene. Acho que absorvente é caro e facilitaria se tivesse na escola. Espalharam cartazes na minha escola, para as meninas buscarem na direção se precisarem, mas acho que deveriam colocar no banheiro. Tem menina que fica com vergonha de pedir. Já escutei vários relatos de quem não tinha e usava papel higiênico enrolado. Querendo ou não, a gente sente um pouco de vergonha, mesmo que seja algo normal."

Ela conta que, para além dos absorventes, há outras questões que devem ser levadas em conta. "Acho que é necessário ter atendimento ginecológico e remédios. Tenho bastante cólica e tem dia que não dá nem vontade de levantar da cama, fazer nada, mas tem que fazer. O remédio de cólica é caro, custa R$ 20 uma caixinha. Já faltei na escola por estar com muita cólica. Agora, a bolsa que ganho também ajuda com medicamento."

Pelo fato da menstruação ainda ser um tabu social, muitas meninas sentem vergonha de falar sobre o assunto. Este também é um fator para que acabem improvisando alternativas quando não têm absorventes. O preço do produto também não ajuda. O pacotinho com oito unidades parte de cerca de R$ 2, mas pode custar bem mais.

SAÚDE

Ginecologista, obstetra e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), Juan Melgar diz que a pobreza menstrual é uma situação de constrangimento. "A falta de absorventes no período menstrual para mulheres em situação de pobreza pode colocar a mulher em situações de total desconforto nestes dias. É dever do Estado fornecer a todo cidadão, e aqui falando para todas mulheres, condições de convívio social e de saúde adequados, atendimento ginecológico regular para atender todas as suas necessidades."

O médico diz que usar materiais inadequados para a contenção do fluxo menstrual pode ser perigoso. "Na antiguidade era comum o uso de panos bem higienizados durante o período menstrual, isto não aumentava a possibilidade de contrair doenças. Agora, miolo de pão ou espuma de colchão podem proporcionar problemas de irritação vulvar e vaginal, as chamadas vulvovaginites, que depois determinam a necessidade de tratamento medicamentoso."

DIREITO

Defensor público e coordenador da defensoria de Jundiaí, Fabio Jacyntho Sorge diz que a distribuição de absorventes já deveria acontecer. "A Constituição prevê acesso à saúde e, se está lá, é um direito, não um objetivo. Essa distribuição deveria existir em razão da dignidade de meninas e mulheres. Insumos que garantem segurança no período menstrual possibilitam que as meninas frequentem a escola e as mulheres consigam trabalhar. Espero que o Senado derrube o veto, porque a União tem mais orçamento para isso", diz ele sobre o Projeto de Lei 4968/2019, que prevê o fornecimento de absorventes para meninas e mulheres em vulnerabilidade e presidiárias. O projeto foi aprovado pela Câmara e pelo Senado, mas vetado pelo presidente.

Sorge diz que mulheres podem solicitar absorventes gratuitamente se houver algum risco à saúde caso não tenham acesso ao produto. "Precisam solicitar no posto de saúde. Se não for fornecido, podem levar ao judiciário. É possível abrir um processo atualmente, já temos um arcabouço para este tipo de solicitação, mas se houver uma lei, é um reconhecimento, evita esse trâmite. A lei vai garantir um atendimento de forma mais célere."

Em Jundiaí, houve uma reunião entre o Legislativo e o Executivo no meio deste ano para que houvesse a distribuição gratuita de absorventes a meninas e mulheres em vulnerabilidade, mas ainda não houve tratativa definitiva. O Fundo Social de Solidariedade (Funss) faz distribuições do item, mas somente quando recebe em doação. Segundo a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (Ugads), Jundiaí oferta absorventes para as mulheres identificadas pelo Cadastro Único e em situação de vulnerabilidade, a partir do Centro Pop. Segundo a Ugads, são atendidas cerca de 30 mulheres por mês e não há demanda reprimida.


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