Jundiaí

Acolhimentos mensais no Centro Pop aumentam 14,2% neste ano

SUPORTE A média mensal de pessoas em situação de rua acolhidas no local aumentou neste ano com relação a 2020, mas ainda é inferior à de 2019


   ALEXANDRE MARTINS
Paula Nogueira sempre utiliza o local para alimentação e higiene pessoal
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A procura por acolhimento no Centro Pop, uma das portas de entrada para o atendimento social às pessoas em situação de rua em Jundiaí, aumentou 14,2% em comparação à média mensal de 2020. O número de usuários atendidos mensalmente este ano é 265 pessoas, contra 232 pessoas do ano passado.

Entre os serviços oferecidos, há alimentação, higiene pessoal, atendimento psicológico, assistente social e, caso a pessoa seja de outra cidade, o serviço de recâmbio. Segundo o coordenador João Guilherme Oliveira, não houve interrupção do atendimento para alimentação e higiene durante a pandemia.

"Como os comércios estavam fechados, esta população procurou nosso serviço para ter acesso à alimentação e higiene. Aqui e a Casa de Passagem funcionaram normalmente, e tinha o abrigo emergencial do Jardim Ângela. A pessoa ficava sete dias em isolamento e ia para o abrigo se quisesse. Mas muitas não queriam."

Diversas pessoas atendidas no espaço são de outras cidades e, nestes casos, o recâmbio é inevitável. "Quem vem da Capital, é mais tranquilo porque a gente providencia o passe da CPTM e leva à estação. Quem é do interior, é um pouco mais complicado porque tem que comprar a passagem e levar à rodoviária."

Segundo a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social de Jundiaí (UGADS), neste ano, de janeiro a setembro, foram realizados os recâmbios de 1.031 atendidos. No ano passado, no mesmo período, foram 868. Já em 2019, foram feitos 695, também de janeiro a setembro.

PASSAGEM

Muitas pessoas que vão ao Centro Pop não querem sair das ruas, mas há quem deseje um futuro mais otimista. Este é o caso de Nelson Cruz, de 59 anos, natural de Itatiba, mas que está em Jundiaí há 56 anos, oito e meio em situação de rua.

"Quando o frio aperta, a gente vem. Chego a ir para o SOS quando tem vaga. Venho para comer, tomar banho, ter atendimento, com psicóloga e assistente social. Às vezes saio para procurar trabalho, sou jardineiro, e às vezes aparece algum trabalho para recolher um entulho, uma latinha também", explica.

Cruz é alcoólatra e fuma, mas não usa drogas, embora saiba de cor que o cigarro 'tem mais de 4,8 mil substâncias'. "Moradia e alimentação são caras em Jundiaí. Tento reatar com uma parceira, mas de vez em quando procuro ajuda aqui. 'Tá nervoso, vai pescar', né? Não quero morrer nessa vida, esses dias passei mal, fiquei internado. Tenho esperança de sair da rua, reverter a situação. Para Deus, nada é impossível."

Já Jefferson José da Silva, de 41 anos, não lembra há quantos anos está na rua. Em Jundiaí, está há cinco. Veio de São Paulo. "Não venho sempre ao Centro Pop, mas já precisei muito e fui bem atendido. Venho para tirar documento, fazer currículo. Estou fixo no SOS. Não consegui emprego formal ainda, faço alguns trabalhos diários."

Longe das drogas há dois meses, ele atribui a sobriedade ao projeto Som das Ruas, desenvolvido no SOS. "Leva música e alegria para as pessoas em situação de rua. Toco um pouco de percussão e canto, mas não sou cantor. O foco do projeto é ajudar a gente a sair das drogas. Foi muito legal conhecer o Som das Ruas, eu tocava em uma banda de pagode quando tinha 17 anos, mas saí por causa das drogas", diz ele, que agora procura um emprego formal para se estabelecer em Jundiaí e poder ajudar no projeto.

Paula Nogueira, de 29 anos, também procura emprego. Ela é do Espírito Santo e está nas ruas há cerca de quatro anos. Em Jundiaí, desde fevereiro. "Estava vindo de São Paulo e parei aqui porque tinha albergue, apoio, que era o que eu precisava. Pretendo um dia voltar para o Espírito Santo, mas só se eu conseguir um emprego para ter uma vida independente. Tentei trabalhar lá, mas fui expulsa de casa com uma mão na frente e outra atrás."

Paula vai ao Centro Pop para ter alimento, roupas e ajuda para conseguir trabalho. Ela diz que há muito preconceito com pessoas em situação de rua. "O modo da pessoa te olhar já tem preconceito e bloqueia qualquer diálogo. Acham que é clichê, que a gente já vai pedir dinheiro. Já passei por várias situações de violência por ser trans e tive que me defender muito. Aqui em Jundiaí foi mais tranquilo, tem cidade que tem que dormir com canivete embaixo do travesseiro. A rua é um mundo selvagem e vence o mais forte."


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