Jundiaí

A informação é a chave para uma sociedade mais inclusiva

A inclusão só vai fazer efeito quando a sociedade superar os estigmas


                        ALEXANDRE MARTINS
A auxiliar Jéssica Pines utiliza prótese na perna esquerda desde 2016
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Olhares curiosos para aquilo que é diferente é algo comum. Segundo pessoas amputadas e deficientes, a inclusão só vai fazer efeito quando a sociedade superar o estigma e os olhares de espanto em torno do assunto.

No terceiro dia da 52ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), o ator e empresário Luciano Szafir participou do desfile com a bolsa de ostomia. A atitude causou espanto em algumas pessoas e serviu para mostrar que as diferenças na rotina existem e não são motivo de aversão, tristeza ou vergonha, afinal, foi a bolsa de ostomia que o manteve vivo.

Segundo a psicóloga Mariana Caroline Pradella, cada indivíduo reage de uma forma ao se deparar com o que é diferente. "Essas reações vêm a partir de algo que é relativamente novo. É importante levar em consideração que, durante séculos, a prática adotada com pessoas com deficiência era o isolamento. Não se tinha acesso inclusivo nas ruas, não tinha vaga no mercado de trabalho e nem estrutura nas escolas. Hoje em dia estes paradigmas estão sendo modificados", explica.

A auxiliar administrativa Jessica Eduarda de Siqueira Pines, de 19 anos, utiliza prótese na perna esquerda desde 2016, pois sofreu um acidente quando tinha cerca de 5 anos e foi operada pouco antes de completar 14.

Ela conta que, em algumas situações, os olhares afetam seu humor. "Eu raramente saio na rua com vestido, saia ou shorts quando não estou me sentindo bem. Às vezes as pessoas não estão olhando para a prótese por maldade, mas acabo me chateando", afirma.

Ainda em relação aos olhares, Jessica afirma que eles vêm quase em sua maioria de crianças. "Os olhares das crianças pra mim são um pouco difícil, pois elas não têm filtro algum e podem fazer um comentário ofensivo. É complicado porque os responsáveis não sabem lidar com a situação", explica.

A psicóloga Mariana explica que o ideal é que os pais conversem com as crianças e apresentem as diferenças. "A partir do momento que a criança entender que uma pessoa com deficiência pode ter algumas limitações, mas que cada um tem as suas, o diferente começa a ser semelhante", detalha.

Adriele Silva, de 34 anos, cursa educação física e utiliza próteses nas duas pernas abaixo do joelho. Para ela, ainda existe muita desinformação na sociedade em relação aos amputados. "Não é comum ver um amputado na rua, então as pessoas ficam muito curiosas ou surpresas. Essa atenção a mais para esses casos é pura desinformação, pode ser que a pessoa não foi instruída desde cedo sobre todas as diferenças que existem no mundo, o que causa esse estranhamento", afirma.

Igor Masi, de 41 anos, é cadeirante há cerca de 10 anos e meio e ainda sente os olhares. "Estamos no século 21, mas a sociedade tem a mentalidade da Era Medieval. As pessoas pensam que somos inválidos e as falas com preconceito ou o sentimento de pena são recorrentes", relata.

Masi reforça que os deficientes são iguais a todos, apenas com limitações diferentes. "Nós não queremos dó, somos iguais a todo mundo. Claro que temos nossa limitação, mas todos têm limitações. A minha limitação é para subir escadas, mas a limitação de outras pessoas pode ser o medo de altura, o medo de barata e outros casos", afirma.

 

ROTINA

Algumas condições impõem mais limitações do que outras, mas Masi diz que a grande maioria consegue realizar as tarefas do dia a dia e se relacionar amorosamente. "Com quatro anos e meio de lesão ingressei no Peama em Jundiaí e comecei a praticar esportes. Hoje sou medalhista de três modalidades, sendo elas arremesso de peso, lançamento de dardo e de disco", conta.

Além de medalhista, Masi também faz trabalho voluntário no Hospital Universitário (HU), lida com as tarefas domésticas e vende doces para complementar a renda já que mora sozinho. A auxiliar administrativa Jessica costumava trabalhar presencialmente, mas hoje está trabalhando em casa já que foi afastada devido a gestação.

Adriele trabalha na parte administrativa em uma clínica de próteses em São Paulo. Seu objetivo é futuramente ser técnica e especialista em próteses. "Moro em Jundiaí e vou para São Paulo trabalhar de ônibus fretado todos os dias. Chegando na Capital, pego um metrô e faço uma pequena caminhada até a clínica", conta.

Ela relata que ainda está se acostumando a nova rotina. "Antes da pandemia eu estava em minha carreira de atleta, mas me afastei um pouco por estar grávida e estarmos vivendo esse período", conta.

Pessoas amputadas e deficientes levam a vida com uma rotina comum de estudos, trabalho e lazer. Em algumas situações com mais cuidados e adaptações do que outras, mas não existem motivos para aversão, tristeza ou vergonha dessas condições.

Mudar a cultura de que ter uma limitação impede o indivíduo de viver é a saída para esse estigma. "É um trabalho cultural superar essa questão. Nós devemos falar e expor que é possível fazer de tudo. É uma questão de conscientização coletiva", afirma Masi.

 

(Caroline Adrielli)


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