Jundiaí

Negros resistem em meio aos racismos do dia a dia

CONSCIÊNCIA NEGRA Segundo pesquisa, profissionais negros recebem até 34% a menos do que brancos


ALEXANDRE MARTINS
Pâmela Aparecida luta por igualdade racial no mercado de trabalho
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Na comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, lembrado neste sábado em todo o país, a luta contra o racismo ainda é evidente, principalmente quando se fala em mercado de trabalho. Segundo levantamento de uma agência de empregos on-line, profissionais negros recebem até 34,15% a menos do que trabalhadores brancos.

Para apaziguar esta desigualdade racial nos meios de trabalho, algumas empresas têm criado vagas exclusivas para pessoas negras. Segundo a psicóloga Pâmela Aparecida Araújo, para que haja igualdade nas instituições publicas e privadas, nas agências de emprego e na educação, essas ações são muito importantes.

"Eu sempre fui uma das poucas pessoas negras nos locais que trabalhei e hoje, na posição de psicóloga, eu encontro menos colegas negros, o que deixa muito claro que há uma grande desigualdade racial no mercado de trabalho, como médicos, gestores, líderes, enfim, a cada passo que eu dou em minha vida profissional encontro menos negros na mesma trajetória e nos cargos que eu gostaria de ver", afirma Pâmela.

Assim como Pâmela, o estudante Lucas Castro, de 23 anos, teve a mesma percepção quando entrou no mercado de trabalho. "Percebi uma predominância muito grande de negros no setor operacional das empresas, mas nos cargos de chefia é muito difícil encontrar um funcionário que não seja branco, e isso infelizmente já está enraizado na nossa sociedade", afirma Castro.

RELATOS

A psicóloga afirma que já sofreu crimes raciais na escola, durante o trabalho e, recentemente, em instituições de saúde. "Como a maior parte das pessoas negras, eu tenho algumas experiências relacionadas a discriminações por ser mulher e negra. Um destes casos aconteceu em uma clínica, quando um médico debochou do meu cabelo, dizendo que parece um espanador", afirma Pâmela.

Para lidar com a situação, ela recorre à terapia para manter a saúde mental, à espiritualidade, às redes de apoio, como a família, amigos próximos e a comunidade negra, e também recorre à justiça. "Tenho recebido muito apoio do Clube 28 de Setembro e outras associações, além de manter contato com um advogado negro que entende de questões raciais e também vivencia essa mesma dor", explica.

O estudante Lucas Guilherme Ventura, de 19 anos, sentiu dificuldades em se encaixar no mercado de trabalho e sofreu racismo durante o expediente, enquanto trabalhava como vendedor em uma loja de acessórios para celulares. "Eu ainda estava em treinamento na loja e o gerente começou a fazer piadas de mau gosto com o meu cabelo para outros funcionários, dizendo que eu tinha levado um choque, por isso meu cabelo é desse jeito", lamenta Ventura.

Após o ocorrido, o estudante não conseguiu retornar local e decidiu pedir demissão, pois se sentiu envergonhado e triste com a situação vivenciada e isso deixa marcas até hoje. "Já perdi as contas de quantas vezes desisti de entrevistas de emprego por sentir que eu não me identifico com a vaga por conta do meu cabelo e tom de pele. O pós-racismo é a parte mais difícil de lidar porque você se sente insuficiente", diz.

Ainda segundo a agência que realizou a pesquisa, em cargos de diretoria esses profissionais recebem salário 29,5% menor e a desigualdade segue em todos outros níveis de atuação: como coordenador (-10,6%), especialista graduado (-12,5%), analista (-8,3%), especialista técnico (-9,4%), assistente (-3,2%) e operacional (-2,8%).


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