Jundiaí

Depressão perinatal atinge uma a cada quatro mães


                       ALEXANDRE MARTINS
GRA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A depressão de mulheres durante a gestação e após o parto, chamada de depressão perinatal, é comum por diversos fatores do período. Segundo o psiquiatra e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher, do Instituto de Psiquiatria da USP, Joel Rennó Junior, estudos apontam que em média 13% das mães têm depressão durante a gravidez e entre 20% e 25% tem quadro de depressão pós-parto. No entanto, estes quadros são tratados por muitas pessoas como tabus, por envolver o mito de que toda mulher nasce pronta para ser mãe.

"60% dos casos de depressão pós-parto são iniciados na gravidez, por isso a associação mundial de psiquiatria considera a depressão perinatal e não mais pré-parto e pós-parto. É importante que as mulheres sejam avaliadas no pré-natal, tenham este acompanhamento. Além das outras preocupações, essa depressão, se não avaliada corretamente, pode evoluir para a depressão pós-parto", explica Rennó Jr, acrescentando que diversos problemas podem surgir para a criança e na relação com a mãe em casos como este.

Porém, essas mulheres acabam, por vezes, não recebendo o diagnóstico para o tratamento adequado. "Dados dos EUA mostram que só 14% das mulheres com depressão pós-parto recebem um tratamento. Muitas mulheres se sentem constrangidas de falar que não se identificam com o bebê, que têm crianças diferentes das que idealizaram. Essa história de todas as mulheres terem instinto materno cria um mito, mas na prática tem mulheres que se sentem culpadas em falar do que sentem, mesmo tendo suporte social e familiar. Ela não se sente feliz e não compartilha essa queixa."

AJUDA

Liliane Natal Pedroso, de 40 anos, deu a luz Olívia, que já tem um ano e quatro meses, e teve uma depressão pós-parto. "Toda mulher passa pelo baby blues depois do parto, se sente triste, chora mais, mas eu fiquei sem querer ver ninguém. Eu via as pessoas como ameaças, então me isolei. Teve o fator da pandemia, mas depois que a Olívia nasceu, eu só lembro de tudo como se estivesse sempre à noite. Não queria ver ninguém e as únicas pessoas que não me incomodavam eram meus pais e meu marido."

Liliane conta que não conseguia receber visita dos enteados, mesmo que tenham sempre se dado bem. "Tenho dois enteados adolescentes e sempre nos damos bem, mas não queria vê-los de jeito nenhum. Eles queriam conhecer a irmãzinha, mas ficaram afastados de casa por uns dois meses, até eu voltar a me acostumar."

Ao contrário de outras mulheres com quadros semelhantes, porém, ela não teve problemas para lidar com a filha recém-nascida. "Não tive aversão à minha filha. Muito pelo contrário, foi um amor imediato e incondicional a ela desde o nascimento."

Para que conseguisse procurar ajuda psicológica e entender o que sentia, Liliane contou com o suporte da família. "Eles me apoiaram em tudo. Meu pai veio me ver dois dias depois do parto e eu abracei ele e chorei durante um tempo. Isso até me fez sentir melhor. Disse para a minha mãe 'por que você não me disse que era tão difícil?' E foi bem complicado, sofri violência obstétrica, a Olívia tinha dificuldade para dormir, até hoje tem, mas eu não esperava que fosse assim. Não identifiquei a depressão, meus pais e meu marido que souberam que eu não estava normal."

A partir disso, Liliane buscou ajuda psicológica, pois temia que em uma psiquiatra precisasse ser medicada e interromper a amamentação. "Minha mãe me indicou uma psicóloga que me ajudou muito. Quando fui até lá, ela diagnosticou a depressão pós-parto, mas disse que não era forte, que eu poderia tratar com terapias. Já tive depressão severa há alguns anos e dependia de remédio na época. Fiz o acompanhamento com bastante calma para voltar à vida normal e também fiz acupuntura, usei florais."

Joel Rennó Junior esclarece que o uso de medicação é possível no tratamento deste tipo de depressão. "Nos casos moderados a graves, mães podem tomar antidepressivos com acompanhamento de um psiquiatra especializado em perinatalidade. Ele vai receitar uma medicação que pode ser tomada enquanto a mãe amamenta."

CAUSAS

Ginecologista e obstetra e docente da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), Francisco Pedro Filho fala que o blues puerperal, ou baby blues, acontece com todas as grávidas. "Todas as mulheres que dão à luz ficam mais tristes, este percentual é muito alto, mas, quando isso acaba permanecendo, o percentual é muito menor. Há uma série de motivos para isso, a variação hormonal; a dependência do bebê pela mãe, ela vê que se não der atenção o bebê morre; tem o cansaço, porque o bebê mama dia e noite de duas em duas horas; ela se recuperando do parto. Então soma tudo isso."

Pedro Filho diz que, como aconteceu com Liliane, é a família que precisa perceber se a mulher não está bem. "A mulher está em um emaranhado de coisas e não percebe, mas quem está junto percebe. É muito importante a participação da família. Imagina a mulher ficar um mês sem dormir. É comum a mulher não conseguir nem tomar banho durante um dia inteiro no começo."

Caso o quadro fique mais grave, a mãe pode não conseguir cuidar da criança. "A ajuda depende da intensidade dos sintomas. Se for mais leve, a mulher pode fazer acompanhamento psicológico, mas tem casos de depressão que exigem medicação, quando a mãe não consegue cuidar do bebê. Ela pode não dar banho, comida, não ligar para o bebê chorando. Isso pode evoluir até ao infanticídio, em casos mais raros, mas que existem."


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: