Jundiaí

Transformar memórias em arte ajuda a lidar com a dor do luto

CARTAS DE SAUDADE Através da escrita de cartas e poemas, Isabella Rivero transmite o amor incondicional e homenageia avó que faleceu em junho deste ano


                ALEXANDRE MARTINS
Isabella Rivero escreve cartas para a avó Elaine que faleceu este ano, numa relação que não se acaba
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Cada um trata a perda e lida com o luto de uma maneira diferente. A estudante Isabella Agnello Aguiar Rivero, de 18 anos, perdeu a avó materna Elaine que considerava sua segunda mãe, em junho deste ano. Quando a saudade aperta, ela escreve cartas e poemas destinados para a avó.

Isabella conta que sempre teve vontade de declarar o amor pela avó através de cartas já que gosta de escrever. "Eu sempre tive essa vontade de escrever uma carta ou poema para a minha avó, ela era uma pessoa sensacional. É um hábito meu escrever e enviar cartas de aniversário para as pessoas. Um mês antes de falecer, ela fez uma carta para mim no meu aniversário, isso inspirou bastante", afirma.

Com a rotina de trabalho da mãe, Isabella passava muito tempo na casa da avó. "Eu nunca tinha expressado meu amor por ela através de palavras, eu expressava convivendo. No dia seguinte em que ela se foi eu já não conseguia explicar o que eu estava sentindo, então comecei a escrever", conta.

A base de sua família era sua avó. "Quando minha avó se foi, meu pai disse que a nossa base parental era um tripé: o pai, a mãe e a vó Elaine. Ela sempre foi muito presente em nossas vidas, eu almoçava na casa dela quase todos os dias. Minha avó complementava o papel dos meus pais", relata.

Isabella sempre teve muito medo de perder a avó. "Ela era muito presente na minha vida, eu não achei que iria perder ela tão cedo, tinha muito medo disso. Ela sempre dizia que queria morrer igual um passarinho, de maneira repentina e sem sofrimento, e foi como ela desejava", relata.

Desde o início, Isabella conta que tentava olhar para a situação da melhor maneira possível. "Penso que ela atingiu um estado espiritual mais elevado e que ela concluiu a missão dela aqui na terra. Ela era budista e muito iluminada", conta.

HOMENAGEM

O budismo esteve muito presente em suas vidas. "Eu fiz uma tatuagem no meu braço direito próximo da minha mão, pois quando minha avó faleceu ela usava uma pulseira do om tibetano budista. Eu decidi tatuar esse símbolo na mão para lembrar dela sempre que fosse escrever", relata.

Passando pelas fases do luto, Isabella conta que se sentia acolhida pelas pessoas e pela escrita. "Eu fui anestesiada, me sentia acolhida pelas pessoas que nos visitavam, mas com o passar dos dias tive dificuldade para dormir e comer. O que me ajudava nesses momentos era o apoio das pessoas e a escrita", conta.

A reconexão e a escrita fizeram parte de todo o processo de aceitação da perda. "Tem dias que sinto que preciso me reconectar com ela. São dias em que eu sento e assisto a um filme ou série que a gente costumava assistir, crio 'playlists' de músicas nossas, faço vídeos com fotos dela e escrevo textos. Sempre procuro pegar essas referências e transformar em arte, tudo o que é dela vira poesia como forma de homenagem", afirma.

MEMÓRIAS

A cerimônia de despedida de sua avó também marcou a memória de Isabella e seus textos. "Minha avó era budista e em seu velório nós rezamos os mantras. Eu rezei de longe e senti uma energia em torno do meu corpo. Naquele momento senti que ela estava indo embora. As cartas falam sobre isso como forma de homenagem", conta.

Isabella sempre teve muita influência artística vinda da avó. "Eu sempre tive uma conexão muito forte com arte, dança, música e cinema, minha avó me ensinou muito sobre isso. Ela amava música, era fã dos 'Beatles', adorava a cultura francesa e o cinema francês, inclusive começou a aprender a língua. As músicas que costumávamos ouvir juntas e os filmes que nós assistimos também fazem parte da memória que transmito nos textos", relata.

Além de toda a influência artística, Isabella e a avó tinham a própria música. "Nossa música era a 'Eye in the Sky', do The Alan Parsons Project. Quando eu era pequena passava o dia todo cantando e dançando na sala da casa dela e eu sempre pedia para ela me assistir. Toda vez que tocava essa música no rádio, ela gravava e enviava para mim dizendo que lembrava da minha infância", relata.

Escrever as cartas são uma necessidade. "Às vezes eu fico triste e choro escrevendo, mas eu tenho a necessidade de colocar em algum lugar meus sentimentos por ela", conta.

 

Poema escrito por Isabella Rivero para a querida avó Elaine:

 

e hoje fazem seis meses
seis meses sem seus:
“oi amor, bom dia amor,
boa noite amor”.
seis meses que eu me esqueci
de te dar tchau
assim que o carro desceu na esquina,
me lembrei: não dei tchau pra vovó
fazem seis meses que a vida me deu
um tapa na cara bem dado
“acorda, mulher! acorda pra vida!”
aprende a respeitar
os defeitos dos outros,
a apreciar a impermanência
que permeia tudo ao nosso redor,
aprende a amar todos os seres sencientes,
até os mais asquerosos
aprende a ter fé em você, nos outros
e em sua espiritualidade,
porque espiritualidade não é religião
é transcender às suas muitas vidas
e se fazer feliz por isso.
escute os sinais, menina-mulher
perceba as coincidências,
já que fazem seis meses,
que eu tenho o meu eye in the sky
a minha melhor amiga,
minha companheira de vida
acompanhando minha vida
ainda mais de perto
minha mosquinha observadora.
minha vó, as vezes eu te sinto
me abraçando pelas cobertas
fazendo massagem nas minhas costas
pra insônia ir embora
te sinto nas suas roupas,
nas paredes da sua casa,
no seu travesseiro que agora é meu
e que, na maioria das vezes,
afasta os pesadelos.
é impossível não lembrar de você
te tatuei onde
minhas ideias se tornam concretas
na minha mão direita,
aquela que você usava
pra fazer seu cafuné gostoso
pra fazer meu couve-flor à milanesa
e suas tantas outras gostosuras
você fazia minhas cartinhas
de aniversário
até hoje estou com a minha de 18 anos
pendurada no meu mural:
“te amo incondicionalmente!
da vovó malévola
ps: seu ‘harry’ ainda vai chegar”
é, minha véia,
fazem seis meses que seu coraçãozinho
te deixou na mão
e deixou pra gente daqui
muitas saudades e
lembranças fantásticas
da mulher-maravilha que você era
do ser-humano incrivelmente
bondoso e generoso
que você era
eu sei…não!
eu tenho certeza!
que sua alma feita do mais puro
e completo amor
está se iluminando aos poucos
eu consigo sentir…
consegui sentí-la deixando seu corpo
no fatídico dia do velório
ao som dos mantras budistas,
eu senti você subindo, vó
eu senti…
ao som de hey jude,
você subindo pra perto dos seus
queridos budas
perto da amy e do john,
mas longe de mim.
eu sinto você se afastando,
porque você precisa renascer
eu entendo, entendo completamente
você está se iluminando, cada vez mais
só que sei
que você nunca vai me abandonar
você mesma disse que me ama
além dessa vida, dona elaine!
além dessa e de todas as vidas
que nós já vivemos juntas
eu sinto isso…
que já fomos boas amigas,
companheiras de vida
em outras vidas
e eu não vejo a hora de te encontrar
na próxima
não vejo a hora de te dar um abraço
já que eu fiquei bem mais de seis meses
sem te dar um abraço decente
eu te prometo
que eu vou te abraçar pela eternidade
do mesmo jeito que você me abraça
todas as noites
pra insônia ir embora
pro soninho chegar
e pra sua menina-mulher
descansar e se transformar
num ser-humano tão maravilhoso
como você, dona elaine,
minha malévola,
minha inesquecível e única
vovó lane.

 


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