Jundiaí

Irmãs descobrem no fim o cuidado sensível com a vida

MANTO Renata, Daisy, Solange e Silvia são gratas pelo conforto que o cuidado paliativo lhes trouxe


ARQUIVO PESSOAL
Renata, Daisy, Solange e Silvia Taffarello descobriram juntas o cuidado paliativo e se sentem gratas por isso
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Uma despedida breve, mas digna. E foi assim que Alceu Taffarello partiu, no dia 19 de setembro deste ano, um domingo, após ter uma falência de órgãos. Teve poucos dias para acostumar os entes ao luto, mas conseguiu até saborear um último sorvete de limão, um pequeno prazer da vida. Isso só foi possível graças ao cuidado paliativo, que chegou para que Alceu não sofresse mais, já que as tentativas de cura seriam vãs, e colocá-lo em uma posição um pouco mais confortável, cercado pelas filhas Renata, Daisy, Solange e Silvia Taffarello.

As quatro irmãs acompanharam o pai nos últimos dias, já no hospital, e aprenderam que era preciso falar baixinho, mas não deixar de falar, que o cuidado pode ser o melhor remédio e que o choro às vezes é necessário, pois após o dilúvio vem a bonança. O adeus definitivo de quem se ama sempre é doído, mas pode ser mais ameno se houver a certeza de que não foi doloroso para quem foi.

O paliativismo busca isso: o que pode ser feito por uma pessoa que não tem cura, sem contrariar a finitude, mas oferecer uma despedida mais confortável. E assim foi com o Seu Taffarello. "O que me encantou foi quando a médica falou que paliativo vem do latim "palio", que é manto. O cuidado paliativo é isso, ele cobre com atenção e protege do sofrimento. O paliativo não é o cuidado quando não tem mais o que fazer, mas tinha muito o que fazer", lembra Renata.

Ela também diz que o tempo com o pai foi curto, exigiu assim uma intensidade serena. "Em setembro deste ano meu pai teve um episódio que o levou à emergência. Ele foi para o hospital em uma quarta-feira e o estado de saúde dele foi piorando. Ele estava muito debilitado e foi tendo falência dos órgãos. Faleceu depois de cinco dias."

Nesses poucos dias, entre a quarta-feira e o domingo, as irmãs acompanharam o pai. Na sexta-feira, conheceram o paliativismo, como Renata conta. "Na sexta (10), eu estava no hospital, a Daisy estava lá também, mas por outro motivo, acompanhando o marido. Então eu falei para as minhas irmãs que sentia que todas precisavam estar lá. A médica paliativista chegou e nós nem sabíamos que podíamos ter esse auxílio. Ela disse que foi para cuidar do meu pai e de nós, pediu para que cuidassem do marido da Daisy e do Seu Alceu, e ficamos conversando com ela umas duas horas."

A partir daí, descobriram juntas o que era o cuidado paliativo e entenderam o processo de finitude pelo qual Alceu passava. "Meu pai teve um problema com varizes no fim de 2020, passou por uma cirurgia e pensamos, naquele momento, que a gente ia perdê-lo. Então o processo de finitude dele deve ter começado ali", diz Daisy, lembrando que este processo, como ouviu da médica paliativista, demora cerca de um ano.

As irmãs descobriram também que o pai as ouvia e que poderiam ainda conversar com ele, mas bem baixinho, pertinho, como quem fala com um recém-nascido, e como ele deve ter já um dia falado com as filhas. Retribuíram esse carinho. "A médica nos falou das modificações que o organismo dele ia ter no processo de finitude, que neste momento a gente não podia falar alto com ele, porque a audição fica mais aguçada, então tinha que chegar perto e falar baixo", lembra Silvia.

Solange também fala que a partida do pai foi mais digna com o paliativo. Seu Alceu até pôde se deliciar com um picolé de limão, algo que as filhas não pensariam em lhe dar no leito de morte. "Ele falou que não tinha medo de morrer, mas de sofrer nos últimos dias. A gente viu ele sofrendo desde dezembro do ano passado e começamos a questionar por que tinha que ser desse jeito. As explicações do cuidado paliativo foram um bálsamo. A gente queria que ele não sentisse mais dor e cuidar dele ao invés de tentar uma cura que não existia foi um alívio grande."

Daisy, Renata, Silvia e Solange, descobriram o cuidado paliativo no fim, nos últimos dias do pai, mas a tempo de dar mais conforto ao Seu Alceu e aceitarem que a cura não era mais possível. O melhor no momento não era querer prolongar a vida do pai de modo abrupto, mas deixá-lo ir suavemente.


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