Jundiaí

Chico Felitti: O homem da 'casa abandonada' e outras histórias

O jornalista, que veio para Jundiaí bebê e passou a infância e adolescência, fala sobre seu trabalho e lembranças da cidade


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Chico Felitti começou no jornalismo literário por acaso, assim como outros aspectos de sua vida
Crédito: COLABORAÇÃO/LEONI

Com escrita e narração impecáveis, daquelas que fazem com que o leitor/ouvinte imagine os detalhes sem precisar do recurso visual, Chico Felitti, de 36 anos, provavelmente é hoje um dos jornalistas brasileiros mais comentados, apreciados e geniais. Criador e narrador da série 'A Mulher da Casa Abandonada', com notoriedade ao falar da socielity paulistana Margarida Bonetti, Felitti se torna um ícone do jornalismo pelos detalhes nas entrevistas.

Nascido em São Paulo, ainda bebê mudou-se para Jundiaí, onde viveu a infância e adolescência e coleciona memórias afetivas da cidade. Depois da publicação de uma reportagem no site BuzzFeed News Brasil narrando a história do artista Ricardo Correa da Silva, conhecido como 'Fofão da Augusta', que gerou o livro 'Ricardo & Vânia', Chico Felitti não parou mais. De lá para cá, publicou também 'A Casa', um livro-reportagem que reconstrói os 40 anos da seita que João de Deus fundou e comandou em Abadiânia antes de ser preso pelo estupro de dezenas de mulheres e 'Mulher Maravilha', a biografia de Elke Maravilha.

Criou e narrou os podcasts 'Desconhecido', 'Além do Meme', 'Gente!' e o mais recente - e de maior sucesso - 'A Mulher da Casa Abandonada'.

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Jundiaí, o jornalista conta um pouco sobre seus trabalhos e vida, passando desde o processo de apuração das matérias até a vida pessoal, com lembranças da Terra da Uva.

Jornal de Jundiaí: Como você começou no universo do jornalismo literário? Foi uma área que sempre te chamou atenção?

Chico Felitti: Comecei no jornalismo literário por acaso, como aconteceram por acaso a maioria das coisas na minha vida. Fui trabalhar na Folha de São Paulo com 20 anos e passei por todo tipo de cobertura: coluna social, cidades, cultura. Até que comecei a escrever perfis mais longos e eles repercutiram. Vi que talvez prestasse pra aquilo.

JJ: Quais suas principais inspirações?

CF: Minhas inspirações são bem difusas. Vão desde repórteres faixa-preta como Daniela Arbex e Eliane Brum a figuras televisivas, como Homem do Sapato Branco.

JJ: Como foi o processo de apuração das suas principais histórias? (Fofão da Augusta, Elke Maravilha, João de Deus e A Mulher da Casa Abandonada). Como é esse trabalho investigativo? Nesses casos, você tinha alguma pretensão ou descobriu conforme a apuração?

CF: É uma mistura de obsessão com pressentimento. Primeiro, eu fico encafifado com alguma história, pode ser a história de uma pessoa, como a Elke, ou de um lugar, como a casa abandonada de Higienópolis. Depois, essa curiosidade vira um sacerdócio. Eu passo meses pensando e agindo em função de descobrir essa história. Coisa de maluco mesmo, 20 horas por dia, sete dias por semana. E acho que sempre tenho esperança de que vá sair uma boa história disso, por mais que nem sempre saia.

JJ: Qual a história mais difícil que você já apurou e escreveu?

CF: A história da seita de João de Deus, no livro 'A Casa', que publiquei faz uns dois anos. Porque envolvia crimes e uma cidade que estava gangrenando. Abadiânia, que tinha virado um polo turístico por causa do João de Deus, já estava com metade da população quando cheguei lá.

No livro, Chico retrata a história da casa onde João de Deus praticava seus 'milagres' e sua seita. Uma narrativa capaz de revelar as entranhas de um líder à brasileira: corrupto e empreendedor, criminoso e carismático, sedutor e profundamente cruel.

O CASO MAIS RECENTE

A Mulher da Casa Abandonada é um podcast narrativo da Folha que investiga a história de vida de uma figura misteriosa. Margarida Bonetti, moradora de uma mansão em pandarecos em Higienópolis, um dos bairros mais ricos de São Paulo. A mulher, por trás de um nome inventado (Mari) e uma camada de pomada branca que passa na cara, esconde a acusação de ter cometido nos Estados Unidos, 20 anos atrás, um crime hediondo. Essa pessoa escapou de um julgamento nos EUA e do FBI, e tem sua história contada pela primeira vez.

JJ: Em relação ao caso da Mulher da Casa Abandonada: você imaginava a repercussão que o podcast teria?

CF: Jamais. Um podcast bem-sucedido, como outros que eu já tinha criado, tem na casa de 100 mil ouvintes. A Mulher da Casa Abandonada teve milhões. Virou uma das pautas do país. Isso é inédito, e chega a ser até assustador.

JJ: Escutando o podcast, nós conseguimos imaginar os detalhes apenas com a sua narração. Desde a casa até o rosto da Margarida. Como fazer um produto auditivo tão rico em detalhes e de uma maneira que prenda o ouvinte?

CF: Acho que eu escrevo sempre do mesmo jeito, seja um livro, uma reportagem ou um podcast. Então, talvez venha daí essa riqueza de detalhes da narração, é a mesma técnica que uso em um livro.

JJ: Em algum momento você sentiu medo de represálias?

CF: Não. Temi, sim, que houvesse violência contra alguém retratado na série e temi também quando o assunto virou meme, dancinha do TikTok e outros tipos de manifestação que, para mim, esvaziam a real discussão desse podcast, que é a escravidão doméstica contemporânea que ainda existe no Brasil.

JJ: O seu trabalho de apuração é impecável, pois você conversa com todos ao redor e envolvidos de alguma maneira. Você acredita que esse é o segredo? Qual dica você daria pra um jornalista que tem vontade de fazer um trabalho como o seu?

CF: Muito obrigado. Olha, eu acho que tem a ver com interesse e com esforço. Quanto mais as fontes verem que você está dedicando tempo e atenção para investigar uma história, mais elas vão corresponder, e se envolver junto.

JJ: Você acredita que ir ao local dos fatos enriquece a história? (Usando como exemplo sua viagem para os EUA).

CF: Sem dúvida. Muito da apuração tem de ser feita pessoalmente, afinal um repórter reporta aquilo que vê. O trabalho feito por telefone ou por internet tende a ser muito menos rico. Mas entendo que há limitações de recursos, e muitas vezes não consigo ir até os lugares que retrato, ver as coisas com meus próprios olhos.

Com produção de Simone de Oliveira, confira a segunda parte da entrevista na edição do dia 2 de agosto. Chico fala sobre as lembranças de Jundiaí e planos futuros.

 


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