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A fome volta a assombrar população

GUSTAVO AMORIM - gamorim@jj.com.br | 12/11/2017 | 06:00

“Hoje eu não almocei”. Foi com essa frase que Maria Helena Picolli recebeu a reportagem do Jornal de Jundiaí na última terça-feira (7). Aos 70 anos, ela mora sozinha no Jardim Fepasa, em uma casinha de tijolo sem revestimento – é um cômodo agregado com cama, geladeira, fogão e um armário onde guarda as roupas. Na dispensa, meio saco de arroz, uma sobra de feijão, farinha de mandioca e meio litro de óleo. E só. A geladeira está quebrada e o pouco que há la dentro estragou. “Vai continuar sendo assim, meu filho. Não tenho dinheiro”.

FAMILIA QUE TEM DIFICULDADE COM COMIDA JARDIM FEPASA MARIA HELENA PICOLLI

A dispensa de Maria Helena Picolli tem só arroz, feijão, farinha de mandioca e óleo. Foto: Alexandre Martins/Jornal de Jundiaí

Maria Helena é só uma pessoa dentre as 3139 famílias que vivem com uma renda per capita de, no máximo, R$ 85 por mês em Jundiaí, segundo a Prefeitura da cidade. Sim, são R$ 85 para passar os 30 dias – valor que configura estado de pobreza extrema. Questionada pela reportagem se passa fome, ela assentiu com a cabeça. E respondeu: “É triste”.

Segundo dados recentes da Organização mundial das Nações Unidas (ONU), o mapa da fome no mundo voltou a crescer após uma década de diminuição por conta de conflitos e mudanças climáticas. Atualmente, de acordo com a entidade, mais de 2 bilhões de pessoas sofrem de alguma forma de deficiência nutricional – aproximadamente 30% da população mundial. 11% delas – 815 milhões têm fome. O Brasil saiu do mapa mundial da fome em 2014, o que significa que menos de 5% da população sofre com a falta de alimentos. Recentemente a ONU também divulgou que 1,3 toneladas de alimentos produzidos por América do Sul e Caribe (15% do total) são desperdiçados, o que, segundo o órgão, poderia alimentar 30 milhões de pessoas nas respectivas regiões.

Medo da fome

A administração municipal de Jundiaí revelou à reportagem do JJ que está com um projeto em tramitação interna para instituir a política municipal de segurança alimentar, mas não deu mais detalhes sobre quando como a medida funcionará ou quando começará a valer.

JARDIM FEPASA DA ESQ PARA DIR KEMYLLY LUDIMARA DOS SANTOS AZEVEDO LUDIMAR SAMPAIO AZEVEDO CAUA APARECIDO DOS SANTOS COSTA ALTAMIRA FERREIRA DOS SANTOS

Família de Altamira e Ludmir só come porque pessoas ajudam. Foto: Alexandre Martins/JJ

Altamira dos Santos, 32 anos, e Ludmir Sampaio, 44, e os seis filhos, também moradores do Jardim Fepasa, não têm essa segurança alimentar. O casal reitera que fome, hoje, eles não passam. “Mas só porque a gente recebe as doações. Se fosse depender da gente, não ia ter prato nenhum na mesa”, conta o casal, que está desempregado. Com Kaique (13), Kaiane (10), Kerolin (9), Keirrison (7) e Kauã (6) matriculados na escola em tempo integral – apenas Kemilly têm apenas seis meses de vida – a família recebe o Bolsa Família, programa de auxílio do Governo Federal. É a única renda fixa da família. Segundo a Prefeitura de Jundiaí, 4.603 famílias recebem o benefício atualmente na cidade. O número é 22,6% menor que em 2015, quando 5949 famílias estavam cadastradas no sistema. Em Jundiaí, apenas oito dos 74 bairros não tem nenhum morador residente que recebe o benefício.

Jéssica Garcia também está cadastrada no programa. Ela têm dois filhos (Gabriel e Davi, de 2 e 4 anos respectivamente) e está desempregada. Ela mora no Jardim São Camilo, em uma casa que está com o chuveiro queimado e com rachaduras na parede. “Vou ter que dar banho frio nos meninos hoje. Pelo menos a comida, agora, eu tenho”, conta a mulher de 27 anos. Isso porque recebeu ajuda dos familiares do marido, que cumpre pena. Antes, na mesa apenas arroz, feijão e ovo. “Meus filhos ne olham com uma carinho de ‘mãe, ovo outra vez?’m e eu só falo que eles têm de agradecer por ter ovo. Poderíamos estar na rua. É desesperador”, diz.

A nutricionista Juliana Pavan destaca que a falta de nutrientes diminui o potencial de crescimento e desenvolvimento das crianças. “a falta de ferro causa causa dificuldades de aprendizagem. A partir disso, ela vai ter dificuldade nas atividades escolares, o que repercute na colocação da pessoa no mercado de trabalho futuramente”, afirma a especialista do Cren (Centro de Recuperação e Educação Nutricional). Segundo a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social, o acompanhamento dessas pessoas em situação de vulnerabilidade é feito pelos diferentes equipamentos da Assistência Social. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) é o órgão de proteção social básica, onde são oferecidos, por exemplo, o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif), o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV).


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