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“Aborto é uma grande mentira no Brasil”, diz ativista

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 26/08/2018 | 09:00

A pena para a mulher que aborta no Brasil é de um a três anos de detenção. O médico que realiza o procedimento também pode ir preso por até quatro anos. É o que dizem os artigos 124 e 126 do Código Penal. Por esse motivo, Larissa* (nome fictício) decidiu fingir surpresa quando as enfermeiras de um hospital particular de Jundiaí anunciaram que ela estava grávida e havia tido um aborto retido, quando o corpo não expele o embrião por completo.

Ela tinha 20 anos quando se descobriu grávida. Na época, Larissa morava com os pais, estudava e trabalhava e não tinha um namorado. “Entrei em desespero. Não tinha a mínima condição de ser mãe”, conta. “Mais do que isso, não queria ser e sabia dentro de mim que eu tinha esse direito.” A princípio, ela tentou métodos pouco agressivos, como chás que dizem ter propriedades abortivas ou que antecipam a menstruação. “Tomei uns dois ou três desses chás. Eram horríveis e não funcionaram. Fiquei ainda mais tensa”, confessa. Ela então descobriu as clínicas clandestinas, que realizavam o procedimento por R$ 3 mil a R$ 4 mil. “Não tinha de onde tirar esse dinheiro”, diz.

“Segundo pesquisa, 81% das mulheres que abortam no Brasil são católicas ou evangélicas

 

Como Larissa fala inglês, ela buscou formas de comprar remédios legalizados em outros países feitos a partir do Misoprostol, substância abortiva que teria o mesmo impacto de um aborto espontâneo. “Depois de passar por uma série de sites muito duvidosos, achei uma farmácia on-line da gringa que vendia em grande quantidade e paguei cerca de 80 dólares por 36 comprimidos, na época”, conta. Ainda assim, Larissa não estava 100% confiante sobre as origens do remédio.

Women on Web
Pesquisando um pouco mais, ela encontrou a ONG holandesa Women on Web, que presta atendimento a distância a mulheres de todo o mundo e envia pílulas abortivas pelos correios para que elas possam fazer o procedimento em casa. A organização não envia mais os comprimidos ao Brasil desde 2013, quando a circulação do Misoprostol foi classificada como tráfico de drogas, com risco de responsabilização criminal das destinatárias, e a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) passou a apreender os remédios.

A fundadora da organização, Rebecca Gomperts, participou da audiência pública sobre aborto realizada pelo Supremo Tribunal Federal no início de agosto. Ela leu trechos de e-mails enviados à entidade por mulheres que cogitam o suicídio diante da impossibilidade de abortarem de forma segura. Hoje, o aborto no Brasil só é permitido em três tipos de gravidez: decorrente de estupro, de feto anencéfalo ou em caso de risco à vida da mulher. Rebecca defendeu que o suicídio também seja considerado risco de vida para que seja englobado na legislação atual.

“Entrei em desespero. Não queria ser mãe e sabia dentro de mim que tinha esse direito

 

Ela argumentou, ainda, que a criminalização dos medicamentos incentiva a utilização de métodos inseguros para a prática do aborto, como o uso de facas e agulhas para a perfuração do ventre. Segundo ela, os comprimidos, antes enviados gratuitamente ao Brasil pela Women on Web, agora é vendido por R$ 800 a R$ 3 mil no mercado negro. Quando Larissa os comprou, porém, ainda não eram confiscados. “O remédio da ONG chegou primeiro. Tomei e nada aconteceu por dois dias”, conta.

Depois, porém, ela passou por graves episódios de hemorragia, desmaios e delírios ao longo de uma semana. “Quando meus pais ou meus amigos queriam me levar para o hospital, inventava histórias para não ir”, revela.  Na segunda vez que teve um choque hemorrágico, Larissa foi finalmente levada ao hospital pela mãe. Lá, ficou internada por nove dias com infecção no útero e anemia severa, além de passar por um processo de curetagem. Ela pediu que não contassem a seus pais da gravidez. “Disseram que a infecção foi causada por anticoncepcionais”, conta.

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AUDIÊNCIA NO STF TEM REFLEXÃO SOBRE ABORTO

Hoje Larissa é casada, tem um filho e se considera uma ativista pelos direitos das mulheres. Ela reforça que não se arrepende de nada. “A pior parte foi ter que mentir para os meus pais, mas foi o ônus da minha escolha”, reflete. Ela distribuiu o resto dos comprimidos que comprou para outras mulheres que também optaram por interromper a gravidez. “Fiz isso porque tenho clareza de meus privilégios: pude comprar os remédios porque sei inglês, tenho plano de saúde, moro perto de um hospital e tive assistência de todos ao meu redor. Essa não é a realidade da maioria das brasileiras”, afirma. Ela diz, ainda, que a procura pelas pílulas era muito grande. “O aborto é uma grande mentira no Brasil”, opina.

Dados
A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) de 2016, levantamento mais recente da Universidade de Brasília (UNB), revela o perfil das mulheres que abortam no país: elas estão em todas as classes socioeconômicas, geralmente já possuem um filho e são, em sua maioria, religiosas (56% católicas e 25% evangélicas).Têm entre 18 e 39 anos, são alfabetizadas e de área urbana.

Ao mesmo tempo, uma pesquisa da Datafolha publicada na quarta-feira (22) revela que 59% dos brasileiros são contrários às mudanças na legislação atual sobre o aborto. Em 2017, o índice era de 67%. Ainda de acordo com o levantamento, a maioria dos brasileiros (58%) acredita que a mulher deve ser punida e ir para a cadeia por fazer um aborto. A taxa de brasileiros contrários a qualquer punição à mulher que abortar está em 33%.

Protestando em frente ao STF durante as audiências públicas sobre aborto, ativistas usam roupas de “O conto da aia”, livro e série sobre mulheres em futuro distópico | Foto: Poder 360

Protestando em frente ao STF durante as audiências públicas sobre aborto, ativistas usam roupas de “O conto da aia”, livro e série sobre mulheres em futuro distópico | Foto: Poder 360


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