Jundiaí

Aos 90, Inos Corradin repassa carreira e não pensa em parar

ESPECIAL INOS CORRADIN
Crédito: Reprodução/Internet
O artista plástico Inos Corradin se recupera de uma pancreatite. Aos 90 anos, sabe que os problemas de saúde começam a aparecer com uma certa frequência, mas diz manter o equilíbrio físico e emocional. Equilíbrio este que o inspirou por toda sua trajetória profissional, e serviu de inspiração para a criação de seu personagem principal: o equilibrista. A inspiração, segundo ele, foi política. “No começo as obras eram sobre o 'malabarista'. Todo político vive fazendo malabarismos. Depois que surgiu o 'equilibrista'. A gente nunca sabe o que eles estão fazendo, mas o correto era justamente manter este equilíbrio. Daí a criação da obra.” E nem foi da política brasileira que Inos se inspirou. Amigo íntimo de um integrante da máfia italiana, que coleciona quadros e objetos do artista, ele acompanhou o processo de criação da Camorra italiana, máfia que fez milhares de vítimas e ficou popular durante a década de 1980. “O mafioso é um homem que vai na igreja e ajuda a comunidade, ao mesmo tempo manda matar a troco de nada e participa ativamente das decisões políticas, só que ninguém sabe quem ele é. Isso é manter o equilíbrio entre fazer o bem e o mal.” Inos sempre gostou de arte. Nasceu para a pintura, mas nem sempre o colorido deu o tom de sua trajetória. Ele é uma das poucas testemunhas vivas do cinzento episódio que matou 60 milhões de pessoas, a 2ª Guerra Mundial. Aos 14 anos, ele era incumbido de levar mensagens de guerrilheiros italianos de um lugar para o outro, durante a invasão alemã na Itália, ainda governada pelo regime fascista de Benito Mussolini, morto em 1945. “Você não podia mostrar nervosismo diante de uma abordagem de alemães, senão era morto. Uma vez eu fui pego pelo exército alemão com uma sacola cheia de livros. Eles vasculharam tudo para ver se não tinha nada. A mensagem para os combatentes estava dentro do cano da bicicleta. Não aparentei nervosismo algum e continuei adiante”, comenta. A bengala que o pintor carrega é fruto de uma bomba que explodiu perto de seu joelho durante os combates. Passada a guerra, as lembranças ficaram profundas na memória de Corradin. “As festas juninas eram terríveis para mim, porque os fogos me lembravam bombas e tudo voltava na memória. Vi muitos morrerem perto de mim. Eu bebia um litro de uísque todos os dias”, continua. O problema passou. Há mais de 25 anos ele não ingere bebida alcoólica. Vindo com os pais para o Brasil em 1951, ele estudou, junto com outros quatro pintores, em uma das poucas escolas de artes em São Paulo. Dali em diante, a vida e as inúmeras obras de Inos foram para todos os cantos do mundo. Perguntado sobre a cor que mais gosta, ele é enfático: “Gosto de todas. As cores têm que entrar em harmonia. Quando não as vejo simpatizando, não gosto do que fiz. E foram inúmeras as vezes que não gostei. Isso é normal na vida de quem trabalha com arte.” Todo o trabalho do artista rendeu uma merecida homenagem, além das muitas que recebeu em vários cantos do país e do mundo: Inos foi tema do samba-enredo da escola de samba X-9 Paulistana, que disputou a divisão de acesso do Carnaval Paulistano de 2017. Com o título ‘Vim, Vi e Venci: a saga artística de um semideus’, um dos trechos da letra recorda Jundiaí: Visionário aclamado/ Rompeu fronteiras, com seu talento/ Em busca da paz, cumpriu a missão,/ Se deixou levar por uma paixão/ No sopro divinal, se torna um ser natural/ O meu Brasil te consagrou e Jundiaí te abraçou/ Foi tão brilhante pra quem viu/ O mundo aplaudiu. Na tela está a imaginação/ Será que é real ou ilusão/Basta acreditar, querer e sonhar, que tudo volta ao seu lugar. O trabalho da escola fez tanto sucesso que a agremiação foi campeã daquele ano, voltando às disputas do Grupo Especial no ano seguinte. Inos ainda está na ativa. Todos os dias ele pinta e molda suas inúmeras obra, e ainda se considera um homem criativo. “Das 9 às 13h eu ainda trabalho junto com meu filho, Sandro, que me ajuda. Foi meu único filho que seguiu minha profissão”, comenta. Ele ainda tem mais outros dois herdeiros: Sérgio, professor de educação física, e Paula, advogada. Aos 90 anos, Inos ainda tem fôlego para encarar novos desafios. “Agora, durante o meu processo de cirurgia, eu comecei a pensar em quão boa foi a minha vida. Eu não penso na morte. Vivo dia após dia. Sei que um dia vai acontecer, mas não sei quando. Se eu morrer, meu legado para a arte e para as pessoas próximas foi, sobretudo, minha honestidade e minha dificuldade em ser hipócrita”, finaliza.  

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