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Após quatro meses, sobrevivente da febre amarela volta ao trabalho: ‘estou vivo’

GUSTAVO AMORIM | 09/04/2018 | 06:39

O sotaque arrastado não nega o passado vivido em Caruaru, no interior de Pernambuco. Mas dentre todas as coisas que Joselito da Silva imaginou passar, em nenhuma delas estava que um simples medo de agulha quase tiraria a sua vida por conta de uma picada de mosquito. O inseto carregava o vírus da febre amarela. Agora, mais de três meses depois de deixar a UTI e com liberação médica, o homem de 55 anos voltou ao trabalho de motorista de fretado em uma empresa de ônibus. “Eu peguei trânsito e até me belisquei. Só consegui sorrir. Não acredito até agora que eu sobrevivi”, diz o jundiaiense de coração desde 1989.

Joselito da Silva. Sobrevivente.

Joselito da Silva. Sobrevivente.

No dia 23 de novembro, Joselito desceu do caminhão que usa para fazer bicos no bairro de Ivoturucaia, onde mora, e sentiu uma dor estranha. “Ela subia da cintura até o peito. Eu nunca tinha sentido algo do tipo”. Depois de ir e voltar ao menos três vezes do hospital sem nenhuma resolução ou melhora, em 29 de fevereiro o diagnóstico preciso foi dado: febre amarela. Por pelo menos 18 dias, Joselito diz que tinha a certeza de que não acordaria no dia seguinte.

“Eu me fazia de forte perto dos meus filhos, da minha esposa. Mas por dentro estava destruído. Os médicos abriam os exames na minha frente e, no olhar deles, eu percebia que estava chegando a minha hora”. “O médico disse que ele poderia morrer a qualquer momento”, conta quase chorando, a esposa Inalda Oliveira Silva, de 67 anos. Ela conta o desespero que sentia, mas afirma que nunca deixou de acreditar na recuperação do marido.

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Após a sétima de 11 hemodiálises, finalmente a disposição voltou. Os exames melhoraram, ele começou a se alimentar melhor e até a barba ele fez. No dia 26 de dezembro, depois de 25 dias internado, veio a melhor notícia antes do ano novo: Joselito estava de alta e ia para casa.

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Homem de 55 anos ficou internado por 25 dias. Foto: Arquivo Pessoal

De licença do trabalho, a recuperação do motorista não foi fácil. Debilitado, Joselito sentia muito cansaço. “Eu andava cinco passos e já estava ofegante. Não conseguia nem ir no meu quintal pegar umas frutas”, conta. A alimentação também foi difícil. “Tive um susto após comer uma banana (pelo alto nível de potássio) e precisei passar o dia no hospital. Depois disso, restringiram bastante a minha alimentação”, conta. “Voltar ao normal” só foi possível depois que a nutricionista do hospital receitou vitaminas naturais e um remédio polivitamínico.“Agora estou inteiro, completo, sem dores”, diz.

A única sequela que ficou no corpo do motorista após a internação foi um problema nos rins, mas com o tratamento já melhorou quase 100%. Cuidar da mente nesses três meses em casa também não foi fácil, conta Joselito. Ele afirma que teve um princípio de depressão e começou a tomar remédios, mas agora que começou a trabalhar já consegue se sentir melhor. Quando perguntado pela reportagem quais eram seus planos para o futuro, o homem olhou vagamente para o horizonte: “Eu tô vivo. Só quero viver”.

Números
Segundo o boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, seis pessoas já morreram na Região em decorrência de febre amarela. Dois casos foram registrados em Várzea Paulista e em Jarinu, enquanto um aconteceu em Campo Limpo Paulista e outro em Itatiba. A região tem 21 casos confirmados da doença.

"Me belisco todos os dias pra ter certeza que estou vivo", diz Joselito. Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí.

“Me belisco todos os dias pra ter certeza que estou vivo”, diz Joselito da Silva. Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí.


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