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Bicicleta contra o vírus e o impacto pós-pandemia

Márcia Mazzei | 05/07/2020 | 05:47

Basta observar o que vem acontecendo nas principais cidades do mundo (leia abaixo) nos últimos quatro meses e algumas conclusões já podem ser tiradas dos efeitos da pandemia global da covid-19 sobre a mobilidade urbana. A principal questão está em relação ao transporte público, que não consegue seguir as recomendações de distanciamento social e isolamento.

Se existe um caminho para percorrer até um “novo normal” que se impõe para os padrões de deslocamento da população, é certo que não se pode mais ignorar a bicicleta ou apenas tratá-la como peça de marketing urbano, sobretudo nas grandes cidades, nas quais os efeitos sanitários da pandemia estão sendo mais sentidos e nas quais as consequências da crise econômica são ainda mais graves.

Um pós-pandemia sobre a bicicleta exige um olhar mais cauteloso, segundo o engenheiro e ex-secretário de Transporte, Lúcio Gregori. “Para inserir a bicicleta como meio de transporte é necessário reorganizar o espaço público. Em bairros autossuficientes, onde tudo fica muito perto de casa, a bicicleta é uma excelente alternativa, mas, na cidade como um todo, requer mudanças e investimentos.”

No caso de Jundiaí, Gregori pontua a questão topografia como um obstáculo e lembra que o município apresenta como característica urbanística os bairros distantes do Centro. “Tudo precisa ser muito bem estudado, de modo que a bicicleta faça a interligação com outros modais. Caso contrário, o investimento será em vão”, alerta.

Sobre o futuro do transporte nas cidades, o idealizador do projeto “Tarifa Zero”, é enfático ao dizer que com o transporte coletivo sendo apontado como vilão desta pandemia, o carro surge como solução dos problemas. “Sabemos que existem interesses em jogo. A bicicleta como meio de transporte é um investimento público bom e barato, assim como oferecer o transporte coletivo acessível e de qualidade seria o ideal para este momento. Mas a cidade é o que é por interesse, não por acaso.”

 

CICLISTA ANORMAL
O ciclista do “novo normal” já existe e, em certa medida, os problemas que ele enfrenta para transitar de bicicleta já são conhecidos. Que o diga o estudante de Geografia, Gianluca Hernandez, de 24 anos. Desde os 12 a bicicleta é seu meio de transporte e durante estes quilômetros de pedaladas, ele perdeu as contas de quantas vezes foi atropelado. “A legislação ainda não é exemplar e considera a bike como um meio apenas de lazer”, lamenta.

Este discurso coincide com o resultado da mais recente pesquisa realizada pela ONG Transporte Ativo e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre o perfil do ciclista brasileiro.
Após circular por 25 cidades brasileiras, ficou claro que há resistência de ciclista que se locomove para fins de transporte, o uso resiliente da bike e uma comunidade de ciclistas que trabalhe a bicicleta como meio de transporte e agente transformador.

Hernandez sempre apostou na bicicleta. Ainda criança e sem dinheiro para comprar sua m<CW-15>agrela, ia à pé para escola e, com a economia do dinheiro da passagem do ônibus, comprou sua primeira bicicleta. “Hoje eu vou ao mercado, ao banco, vou namorar, faço tudo de bicicleta.”
Nem mesmo a quarentena imposta pelo covid fez Hernandez abandonar a bike. Para isso, ele redobrou o equipamento de proteção e até produziu uma máscara. “Confesso que pedalar com a máscara não é fácil. Então, adaptei uma com o mesmo tecido do lenço que evita o contato com o vírus e me dá um certo conforto.”

Muito antes do coronavírus, a bicicleta entrou na vida do empresário Arthur Henrique Fernandes, 46 anos, com um único propósito: trazer qualidade de vida. E conseguiu. De pedal em pedal, ele emagreceu 30 quilos.

Daí para frente, a bike se tornou essencial na rotina do empresário. “Eu pedalo por lazer e pela saúde. Por conta da logística do meu trabalho, é inviável usar a bicicleta como meio de transporte.” Mas ainda restam os finais de semana, quando Arthur se junta ao grupo Pedal Adventure Jundiaí para percorrer as trilhas. “Agora, durante a pandemia, tem sido mais complicado, não é a mesma coisa. Não conseguimos parar nas fazendas coloniais, nem interagir com os integrantes do grupo”, lamenta.

 

CICLOVIA EM JUNDIAÍ
Nesta proposta de reinventa<CW-15>r um mundo pós-pandemia, Jundiaí insere a bicicleta como meio de transporte? O gestor da Unidade de Planejamento e Meio Ambiente, Sinésio Scarabello Filho, conta que o município possui o Plano Cicloviário, com total de 174 km de rede cicloviária, segundo publicação de dezembro de 2015 e consiste em um traçado preliminar sobre o mapa da cidade dos itinerários onde há a possibilidade de se estudar a implantação de ciclovias.

Na prática, para o ciclista sair pedalando, atualmente, são oito km de ciclovias de mobilidade implantados em Jundiaí: 4,2 km na av. Antonio Pincinato; 1,8 km na av. Caetano Gornati; 0,3 km no viaduto do Córrego das Valquírias; 0,3 km na av. do Córrego das Valquírias (no trecho entre a rua do Retiro e a av. Luiz Gonzaga Martins Guimarães); 0,6 km nos viadutos da Av. 9 de Julho; 0,8 km na Av. 9 de Julho.

Para avançar no pedal, o projeto ainda está em estudo. “São por volta de 50 km de projetos de ciclovias e ciclofaixas que estão em diferentes estágios de detalhamento”.

Está prevista a implantação de ciclovia na avenida Pref. Luiz Latorre, com 2,7km, através do Financiamento à Infraestrutura e ao Financiamento (Finisa) em 2020/2021. A obra deverá ser licitada neste semestre.

Gregori, que esteve à frente da pasta de Transporte na gestão municipal de Luiza Erundina, acredita que independente do estágio de investimento do município, a bicicleta pode, sem dúvida, desempenhar um papel importante no sistema de mobilidade. “Se durante a pandemia se fala em colocar a vida humana à frente da economia, a construção dessa “nova cidade” implica em colocar as pessoas em primeiro lugar, o que significa colocar o transporte público, as bicicletas e os pedestres à frente dos carros.”

 

VENDAS AUMENTAM 50% EM JUNHO

A “Era de Ouro” da bike tem feito sentido para o comércio de bicicletas. Afinal, a onda de duas rodas que está varrendo o mundo é menos promissora no Brasil. Contudo, os dados do setor permitem ter alguma esperança. O aumento nas vendas de bike em junho em 50% é o maior indicador.

O Google divulgou que nunca se pesquisou tanto por bicicleta como em maio de 2020: as pesquisas pelo termo cresceram 54% entre 15 de março e 2 de maio.

Quem comemora o faturamento é André Pittorri, responsável pela Mega Bikers. “Acredito que a quarentena é a explicação para esta explosão de vendas. As pessoas estão há muito tempo em casa e, com as academias fechadas, optaram pela bicicleta como prática de atividade física”.

André revela que já sente dificuldade em manter as vendas, porque o produto falta para a reposição. “O que mais chama a atenção é que a venda atingiu todos os públicos, das crianças de 11 anos a adultos com mais de 30 anos.”

Para ele, a venda de bikes não se trata de uma onda anormal, mas uma tendência. Inserir a bicicleta no mobilidade urbana exigiria algumas adaptações. “Hoje não existe respeito ao ciclista, falta sinalização, não há espaço. As pessoas sentem medo de usar a bike como meio de transporte”, conclui.

O presidente da Associação Brasileira do Setor de Bicicleta, Giancarlo Clini, acredita que este momento está sendo uma oportunidade de divulgação da bicicleta como meio de transporte. “Tanto para fugir das aglomerações no transporte público quanto do alto custo e do estresse de se deslocar de carro.”

Apesar da deficiência crônica em infraestrutura cicloviária e de praticamente nenhuma cidade ter anunciado investimentos para melhorar o transporte e pé ou de bike, a aposta é que as pessoas tentem migrar pelo menos uma parte de seus deslocamentos para outros modais, evitando a aglomeração no transporte público.

“A bicicleta é um meio de locomoção ao ar livre, tira as pessoas da aglomeração, é uma alternativa que tende a ficar. É uma solução simples para problemas complexos, como os que estamos vivendo”, disse ele. Para ele, as vendas de bicicleta vão aumentar, em breve, em todas as regiões do país.

Atualmente, segundo dados da entidade, existem 5.689 lojas de bicicletas. O país, conforme o levantamento da associação, é o quarto maior produtor mundial de bicicletas, com cerca de quatro milhões de unidades por ano. A maior concentração de unidades fabris está na região sudeste, com 168 fábricas.

 

EUROPA AGORA VAI DE BIKE

Nos países da União Europeia, a mobilidade das pessoas se tornou um desafio. Uma das tendências da vida pós-confinamento é a bicicleta como meio de transporte, principalmente porque permite o distanciamento social.

Pessoas estão com medo de usar os transportes públicos na volta ao trabalho. Poucas cidades na Europa têm condições de suportar mais engarrafamentos em um cenário pós-pandemia.

Além disso, pesquisadores da Universidade de Harvard estabeleceram a primeira relação entre ar poluído e o novo coronavírus. De acordo com o estudo, pacientes de áreas já poluídas antes da pandemia que contraíram a covid-19 têm mais probabilidade de morrer do que as pessoas infectadas que morar onde o ar é mais limpo.

Na Itália, o governo implantou a política de incentivo às pessoas que andarem de bicicleta, oferecendo um “bônus” a quem utilizasse a bike como meio de locomoção e evitar a superlotação do sistema de transporte público.

Na Alemanha, lojas de conserto de bicicletas foram consideradas serviços essenciais, permanecendo abertas durante toda a pandemia.

O governo francês investiu um pacote de 20 milhões de euros de incentivos para utilização de bikes. Será concedido um auxílio de 50 euros por pessoa, para aqueles que quiserem consertar suas magrelas.

Além disso, uma nova legislação permitirá as empresas ajudar com até 400 euros (2,4 mil), por ano, a seus funcionários que usarem a bicicleta para chegar ao trabalho.


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