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Carne do futuro já faz parte do presente

Nathália Sousa | 21/06/2020 | 05:24

Uma carne feita em laboratório para se assemelhar à convencional em sabor, textura e aparência, mas feita com vegetais, deixou de ser imaginação há algum tempo. Sendo batizada como ‘carne do futuro’, o alimento ganha espaço no Brasil e conquista os consumidores vegetarianos e veganos.

Em Jundiaí, já há adeptos da carne que se apresenta nas versões carne vermelha e de frango. A pedagoga Priscila Mestre aprecia o sabor da carne e diz que adotou o veganismo por não compactuar com o sofrimento causado aos animais. “Esse produto que se assemelha é bem-vindo. Não parei porque não gosto do sabor, parei por causa da exploração e da matança animal”, explica.

Ela lembra que algumas pessoas acham o sabor ruim, justamente por se assemelhar com a carne convencional, mas discorda disto. “Se é uma empresa vegana, não há problema porque você não está contribuindo para a matança. Grandes empresas frigoríficas lançaram linhas que são apenas nichos de mercado, mas não agem de forma sustentável. Esses produtos são no máximo vegetarianos”, diz ela sobre gigantes do ramo que têm investido em “carne do futuro” para este público crescente.

Sobre o preço da iguaria, a pedagoga enxerga um entrave para o consumo. “O veganismo não é acessível. Esses produtos processados são muito caros, tem gente que nunca comeu. Algumas marcas são estrangeiras e entendo que fique caro, mas tem marca nacional que não vejo justificativa.” Uma carne moída vegana de uma marca nacional pode ser encontrada com variação de R$ 55 a R$ 94 o quilo, a depender do estabelecimento comercializa. Ainda assim, é um valor que varia de 50% a 80% a mais do que carnes moídas convencionais.

Maria Isabella Catarina Schnell é nutricionista e trabalha com alimentação vegetariana. Ela vê no produto uma opção de mercado, mas também reconhece problemas do produto. “Acho que as empresas ganharam pontos em sabor, aparência, textura e na quantidade proteica, mas são muito industrializados. Por mais que não seja saturada, ainda há muita gordura. Tem também muitas especiarias que deixam um gosto residual, apesar de ter gente que gosta. Eu, particularmente, não gosto.

É um grande passo para quem quer se tornar vegetariano porque quem é vegetariano há algum tempo não sente tanta falta da carne”, acredita.

 

SEM CARNE
Conhecida como uma dieta que exclui a carne animal do cardápio, o vegetarianismo possui variantes, pois existem adeptos que consomem ovos e leite, por exemplo, e aqueles que restringem a alimentação apenas a produtos vegetais. Já o veganismo é um estilo de vida que vai além da alimentação, pois os adeptos não consomem qualquer produto que use animais em sua cadeia produtiva, como couro ou cosméticos que sejam testados em animais.

Fatores relacionados à saúde, causa animal e a ambiental são alguns dos pontos que motivam as pessoas a deixarem a carne fora do prato, mas independente destes motivos, pessoas que apreciam o sabor da carne podem interromper o consumo. A ‘carne do futuro’ surge como uma alternativa a estas pessoas. Há ainda empresas que produzam o alimento e tenham uma meta mais ousada: conquistar o público que ainda consome carne, para que substituam a tradicional pela versão vegetal.

Para a nutricionista Maria Isabella, o primeiro passo para a redução do consumo pode ser dado com este novo produto. “Tem muita gente buscando um estilo de vida mais saudável. A carne do futuro tem um sabor e textura similar à convencional e pode substituir pelo menos em alguma refeição. Até para a melhoria na saúde”, diz ela, já que os alimentos vegetais, de modo geral, costumam ser mais saudáveis que os de origem animal.

Ela explica que o déficit de B12, vitamina presente em derivados animais, vai além do consumo da carne. “A maioria dos produtos, vegetarianos ou não, tem suplementação de B12, por isso consumindo carne ou não a população precisa desta vitamina de modo geral.”

Shermann Tan é proprietário de um café e restaurante vegano e comercializa em seu cardápio a carne do futuro. Ele diz que a procura tem sido grande para um determinado público e já há pelo menos três empresas que fabricam o produto. “Tem veganos que não querem de jeito nenhum sentir o gosto da carne. Pessoas acabam consumindo muitas vezes quando a parceira ou parceiro é vegano ou vegetariano, é uma opção para os dois”, diz ele sobre o hambúrguer vegetal que promete uma experiência gastronômica igual ao da carne.

Shermann explica que o preço se deve ao processo de logística e fabricação diferenciados, mas trata-se de uma opção mais amiga do meio ambiente. “Por questão de ‘ecologicamente correto’, é uma proposta bem mais viável porque os recursos utilizados para produzir carne são maiores. Em termo nutricional, depende da marca, mas ela tem nutrientes. Não é possível suprir uma dieta apenas com carne e com esta não é diferente.”

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) feita em 2018, 14% da população brasileira se declara vegetariana. Crescimento de 75% em relação a 2012, quando a mesma pesquisa foi feita e indicou que 8% dos brasileiros de regiões metropolitanas se declarava vegetariana.

 


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