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Cestas básicas mantêm o dia a dia, mas não garantem o futuro

NATHÁLIA SOUSA | 17/05/2020 | 05:01

A crise que surgiu em boa parte do mundo e também no Brasil por conta do coronavírus afeta diversas classes sociais. Mas, se todos perdem, para quem tem menos o prejuízo é maior. Pessoas, que vivem nas favelas e periferias e mantinham trabalhos informais, estão sofrendo os maiores impactos da crise no país. São milhões de mães, pais e filhos que veem incertezas em suas famílias, dependendo de doações e auxílios para comer e pagar as contas de casa.

Em situações como esta, a solidariedade costuma se acentuar e as doações se avolumam para que o alimento não falte. Além delas, os auxílios cedidos pelo governo federal vêm mantendo famílias de baixa renda, assim como as cestas básicas disponibilizadas pelo governo de Jundiaí.

Girlene dos Santos Oliveira, de 35 anos, trabalhava informalmente como garçonete em um bufê até o início da pandemia e o consequente cancelamento dos eventos. Hoje, sem conseguir trabalho, precisa de ajuda para alimentar os seis filhos que moram com ela e manter a casa no Jardim São Camilo.

“A Almater ajuda bastante a gente, dá cesta básica, fraldas para as meninas. Pegamos marmitas do Sesi também”, comenta ela sobre a Associação que atua na comunidade e o Serviço Social da Indústria, que promove a distribuição de 12.600 marmitas diariamente em Jundiaí, Itatiba, Vinhedo, Cajamar e Bragança Paulista, atendendo a mais de 87 entidades. “No começo do mês a prefeitura doou algumas cestas e a Almater que distribui para a gente. Se não fossem eles, eu não sei o que seria”, referindo-se à associação mantenedora de um centro comunitário no São Camilo, que oferece, além das doações e distribuições, atividades em contraturno escolar quando há aulas.

Girlene também conseguiu receber o auxílio emergencial do governo federal e com ele paga outras despesas, como contas. Ela solicitou também o kit de alimentos distribuídos pelas escolas municipais e espera recebê-lo neste mês. “As crianças em casa comem mais também”, diz ela, que precisa ajudar os filhos com as tarefas escolares em casa. “Eu não estou conseguindo mais nem ser professora. Eu gosto de trabalhar e não vejo a hora disso tudo acabar.”

Sobre a solidariedade neste período, Girlene acredita que as pessoas tendem a ajudar mais. “Aqui no Dia das Mães houve uma distribuição de cestas básicas e a gente foi buscar. Não sei quem doou, mas nessa situação as pessoas são mais solidárias”, repara. “Teve até uma distribuição de gás no Tarumã, eu cheguei lá já tinha acabado, mas fizeram meu cadastro para a próxima que tiver.”

“Eu tenho medo da pandemia, porque eu não estou trabalhando e não sei quando vou voltar, meu trabalho não é em setor essencial. Mas eu tenho mais medo pelos meus filhos, porque a gente passa necessidade, mas eles não podem passar. Não saber quando isso vai acabar é o que dá mais medo”, diz ela considerando os riscos trazidos pelo coronavírus, além da doença. Quanto a isso, ela conta que higieniza bem as mãos. “Eles doam o kit higiene com a cesta básica. Quando a gente sai de casa também usa máscara”, explica.

Maria de Fátima Silva, de 55 anos, não está trabalhando. Ela mora com um filho e duas netas no Jardim Novo Horizonte. O filho mais novo com quem divide a casa está desempregado, fazendo apenas alguns “bicos”. Além deles, moram no mesmo quintal, numa casa ao lado, outro filho, a nora e mais duas netas, totalizando oito familiares. A nora de Maria também está sem trabalho.

“Eu e minha nora conseguimos, 600 reais cada, dos meus filhos não foi aprovado. Meu filho tem a guarda das filhas e não aprovaram os 1200 reais para ele, nem os 600”, conta Maria sobre as solicitações feitas para receberem o Auxílio Emergencial.

Maria ainda não conseguiu receber as marmitas do Sesi. “Eu consegui uma cesta só até agora. Vi que criança que estuda ganharia 50 reais, mas não consegui isso ainda”, diz ela sobre o auxílio de R$ 55 que seria pago pelo governo estadual em compensação à merenda escolar, que não está sendo servida com a suspensão das aulas.

Ela conta que os filhos seguem fazendo trabalhos esporádicos. “Meu filho mais velho está fazendo ‘bicos’ de servente de pedreiro, porque obra não parou, e o mais velho está fazendo ‘bicos’ de motoboy”, diz ela. “Não tem o que fazer, enquanto meu filho tiver biquinhos, a gente vai indo e quando acabar, só por Deus mesmo”, conta Maria, que não foi cadastrada por nenhuma associação ou órgão governamental ou não para receber alimentos ou auxílios.

“Minhas contas estão ali, estou esperando meu filho que é motoboy receber alguma coisa para pagar”, conta ela. “De comida está diminuindo cada vez mais, ainda não começou a faltar, mas o que a gente tem dá para mais umas duas semanas”, revela.

Daniela da Silva Silvano, de 31 anos, mora com o companheiro e os cinco filhos no Jardim São Camilo. O companheiro trabalha como auxiliar de mecânico, mas teve a jornada reduzida, assim como o salário. Ela, que nunca trabalhou formalmente, vendia balas no semáforo, mas precisou parar agora com a pandemia. “Eu tenho o Bolsa Família, então consegui receber os 1200 reais do auxílio. Estava com três aluguéis atrasados e consegui pagar 2. Pago 500 reais do aluguel e luz, a água é inclusa no aluguel.” Com as despesas, Daniela também está recebendo doações para a alimentação.

“Consegui pegar o kit de alimentos. As marmitas do Sesi também. O Almater é quem mais ajuda, peguei uma sacolinha com verduras lá semana passada. Hoje consegui pegar um pacote de fraldas no Almater”, diz ela. Sobre a ajuda na comunidade “só o Almater, vizinho não. Eu ainda tenho alimento porque peguei do Almater e da escola também”, referindo-se aos kits entregues pela prefeitura nas escolas municipais.

As outras dívidas, como o gás de cozinha, Daniela fala que custeia com o que o marido recebe. “Mas quando demora para ele receber, a gente cozinha no álcool, até ele receber.”

Sobre o cuidado com os filhos, Daniela precisa ajudar três dos filhos com as tarefas escolares. “Eu fico pensando como que a professora consegue cuidar da sala toda”, diz ela brincando. “Lavo a mão toda hora, a Almater deu álcool em gel, sabonete, mas tem que cuidar também para as crianças não saírem toda hora”, revela. Mas no final das contas, o desejo de Daniela é o mesmo de todos. “Não vejo a hora disso acabar logo.”

AJUDA
Muitas pessoas também têm dificuldades para mexer na internet ou no celular para fazer solicitações de benefícios ao governo. Por conta disso, a diretora da associação socioeducacional Casa da Fonte, Maria Cristina Castilho de Andrade, diz que a entidade oferece este tipo de ajuda. “O atendimento é presencial, feito às terças e quartas pela assistente social com horário agendado. Bastante gente procura, para solicitar o auxílio emergencial e também auxílio-doença, o BPC (Benefício de Prestação Continuada), para fazer cadastro para o LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), que concede aposentadoria.”

A diretora da entidade localizada no Jardim Novo Horizonte também fala que a Casa da Fonte está fazendo a distribuição de cestas básicas e kits de higiene e limpeza aos alunos, tanto crianças quanto adultos. “Muitas mães de alunos que trabalhavam com faxina tiveram o trabalho suspenso. Hoje, professores fizeram entregas de kits e perceberam que mães e pais estão em casa, o que não era comum antes. Então, provavelmente, estão sem trabalhar, perderam o emprego”, diz ela.

Meios para receber alimentos

Procurada, a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS) da Prefeitura de Jundiaí informou que foram entregues, até o momento, aproximadamente, sete mil cestas básicas pelo Plano de Segurança Alimentar para famílias em situação de vulnerabilidade no município. Desde início de abril a UGADS também duplicou a arrecadação do Banco de Alimentos, distribuindo semanalmente 60 cestas verdes nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), e sacolas verdes para os idosos da Vila Dignidade e Condomínio dos Idosos.

As distribuições, no entanto, são voltadas às cerca de cinco mil famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, além de mais mil que vêm sofrendo os impactos pelos reflexos econômicos e sociais da pandemia.

As ações de distribuição se concentram nos bairros com maior número de famílias em vulnerabilidade social, como Jardim São Camilo, Tamoio, Vila Esperança, Ivoturucaia, Novo Horizonte e outros. Para ampliação da capacidade de distribuição, a UGADS conta ainda com o importante apoio de outros agentes com atuação nos bairros, como paróquias, congregações religiosas, coletivos jovens e lideranças locais.

A prefeitura já recebeu de parceiros, desde o começo da pandemia, cerca de dezoito mil cestas básicas que foram repassadas às famílias carentes.

Já as doações realizadas diretamente no Fundo Social de Solidariedade somam mais de 36 toneladas de alimentos não perecíveis. A Unidade de Gestão de Educação (UGE) realizou também a distribuição de cerca de 800 kits de alimentação suplementar às famílias identificadas em vulnerabilidade pelas unidades escolares. Uma nova entrega, de outros nove mil kits, está prevista até o final de maio.


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