Jundiaí

Cidades terão de se adequar às exigências na pós-pandemia

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Crédito: Reprodução/Internet
Cada vez mais perto de retornar suas atividades e diminuir as medidas de isolamento social, urbanistas, arquitetos e até o poder público têm se debruçado em repensar o planejamento urbano, a dinâmica de ocupação e uso do espaço público até chegar a um novo modelo de cidade pós-pandemia. Nesta, cabem bairros com mix de atividades comerciais e residenciais, que inibem a locomoção pela cidade, além de criação de espaços públicos abertos, parques e florestas. O urbanista e arquiteto, Araken Martinho, lembra que Jundiaí nos últimos anos foi inserida no experimento de habitação social impulsionado pela industrialização e a consequente chegada de mais moradores que mudou o cenário urbano com os edifícios verticalizados. “Esse modo de vida vertical e bidimensional preocupa porque nos transforma em meros observadores, em vez de comunidade”, alerta. Para Martinho, um novo modelo de cidade surge para propor uma reestruturação na maneira de conviver. “Acredito na utilização do urbanismo a favor da união de comunidade, criando espaços de conexão que se perderam nas décadas de planejamento urbano. Existe uma onda crescente dos chamados edifícios quarteirões, espaços que incorporam padaria, farmácia, quitanda e escritórios e permite a habitação coletiva em um único quadrilátero”, descreve. Como já ocorreu no passado, epidemias impulsionaram mudanças no desenho urbano e a pandemia de covid-19 tende a redesenhar novos modelos de cidade. “Repensar esse modelo implica equilibrar a densidade populacional, em vez de concentrar em determinados lugares, com bairros exclusivamente residenciais, áreas comerciais, distritos industriais”. É a cidade policêntrica, onde o uso é misto e explorado em todo território. Martinho lembra que uma cidade policêntrica reduz a necessidade de deslocamentos longos, fortalece as comunidades e a economia local. “Além de reforçar as relações de vizinhança, algo de extrema importância, para este novo modelo de cidade que nos apresenta pós-quarentena”.   PODER PÚBLICO Diante de um modelo de ambiente urbano que facilita a transmissão, mais até do que em outros momentos de peste e epidemia, a OMS indica que o isolamento social é uma das medidas de planejamento, gestão e controle territorial mais adequadas ao que vivemos no momento. O gestor municipal de Planejamento e Meio Ambiente, Sinésio Scarabello Filho, garante que os objetivos do Plano Diretor já contemplam um cenário desejável pós-pandemia, mas observa que as áreas de maior vulnerabilidade são as que mais se encontram afastadas desse cenário desejável, isto é, a pandemia apenas demonstrou que a qualidade de vida não é a mesma em todos os bairros virtude de uma série de fatores, dentre os quais o principal é a injusta distribuição de renda no país, que afeta a população e o planejamento de todas as cidades. Em termos de planejamento, Scarabello cita o programa de desenvolvimento urbano do WRI Ross Center for Sustainable Cities, de Rogier den Berg, com foco em cidades mais acessíveis, equitativas, saudáveis e resilientes. A primeira diz respeito à relação entre densidade e acesso aos serviços essenciais: “A densidade é o que faz as cidades funcionarem em primeiro lugar; é a principal razão pela qual cidades são potências econômicas, culturais e políticas. De outro lado, “é a falta de acesso a serviços essenciais, como água, habitação e saúde, que exacerbou o desafio de responder efetivamente ao novo coronavírus em muitas cidades. A redução dessa desigualdade no acesso a serviços e infraestruturas urbanas deve ser uma prioridade para as cidades no futuro”. A segunda questão relaciona densidade populacional, espaços públicos e oferta de moradia popular. “A distribuição de espaços públicos e a oferta de habitações populares nas áreas densas e com acesso aos serviços essenciais torna as cidades resilientes”. O autor destaca, em terceiro lugar, a integração de espaços verdes e infraestrutura de água, afirmando que “uma nova abordagem para o planejamento da cidade deve trazer lugares abertos, bacias hidrográficas, florestas e parques como o centro do que planejamos para nossas cidades. O quarto ponto preconiza um maior planejamento urbano regional como forma de tornar as cidades mais resilientes. “Integrada, essas redes podem se tornar pilares de resiliência, em vez de pontos fracos".   AUTONOMIA SE VÊ POR AQUI Localizado no Vetor Oeste da cidade, o Eloy Chaves já foi um espaço à parte de Jundiaí. Não é mais. Dados da Unidade de Gestão de Governo e Finanças (UGGF) aponta que são 353 comércios, 1.307 prestadores de serviço e 17 indústrias. Hoje, é possível comprar carne, ir à farmácia, ao supermercado, passear no parque, buscar o filho à escola, levar o cachorro para tomar banho do pet, sem sair do bairro e, muitas destas atividades, sem tirar o carro da garagem. É o que garante Carlos Eduardo Fávaro, 41 anos. Ele mora e mantém um negócio no bairro e confessa que pouco vem ao Centro da cidade, comprovando a autonomia que o Eloy Chaves adquiriu. “No começo não era assim, mas com a construção dos condomínios e paulistanos que escolheram viver aqui, chegaram os equipamentos públicos e toda a estrutura. Pouco saio daqui”. Márcia Silva e Rocha, 48 anos, além de não sair do bairro, quando vai às ruas, prefere fazer tudo à pé. “Acho que este é um dos privilégios de viver aqui. Você tem tudo o que precisa e muito perto”, comemora.  Evitar o deslocamento é uma das premissas deste novo modelo de cidade projetado por urbanistas. Neste sentido, o Eloy Chaves também é considerado um bairro visionário. Entre as vias de acesso está a maior ciclovia da cidade, com 4 km. Para o presidente do Conselho de Segurança (Conseg) Japy, Dirceu Cardoso, apesar de toda a estrutura, a autossuficiência do bairro está na forma de convivência dos moradores. “Existe no Eloy Chaves uma política de conscientização desde a reciclagem do lixo, até a forma de consumo. Então, por mais que este momento de pandemia exija mudanças, para aquela região a transformação será mais fácil porque já existe um olhar pela coletividade”. ONU Ficou claro até aqui que planejadores urbanos têm papel relevante a desempenhar, fomentando novas ideias para desenvolver modelos de funcionamento da cidade, ajudando a superar a crise atual e outras que possam surgir. Em Milão, a prefeitura tem convidado profissionais para criar dispositivos de distanciamento social em bares, lojas e espaços públicos. A ideia vem logo depois de um chamado feito pela ONU e a Organização Mundial da Saúde (OMS), pedindo que profissionais da indústria criativa façam cartazes e campanhas visuais para divulgar conselhos de saúde durante a pandemia. Por aqui, a iniciativa partiu do arquiteto e urbanista, Guilherme de Almeida Pulice Bernoldi, especialista em Habitação e Cidade e integrante dos Coletivos Urbanismo contra o Corona e FUNDÃO, que são redes autônomas de profissionais da área que buscam soluções emergenciais para questões sociais e de ocupação dos espaços periféricos diante da pandemia Para Bernoldi, as pandemias e surtos históricos mostraram, ao longo da história, que houve grande remodelação no espaço da cidade, sobretudo na questão do saneamento básico, ventilação e mobilidade. “No caso do Brasil, porém, vejo que as carências de políticas públicas ficaram a olho nu na questão de moradia, nos programas habitacionais cada vez mais escassos e programas de urbanização de favelas. Isto acarreta em mais moradias insalubres e maior proliferação de doenças, incluindo o covid-19.” Para o urbanista, pensar em cidade justa é pensar em planejamento urbano integrado. “A sociedade e principalmente os governantes precisam entender que cidade é de todo mundo que trabalha, constrói e se locomove por ela. Precisamos destruir a lógica casa grande-senzala ou centro-periferia que deixa muitos de fora deste contexto urbano. É hora de fazer um esforço, afinal, o vírus nos mostra que todos estamos, independente da condição social, vulneráveis”. Sobre a revisão do planejamento urbano, Bernoldi acredita que o momento é de adaptação às novas formas de convivência que retoma a ideia de cidade compacta, onde é possível fazer toda sua rotina (morar, ter acesso às áreas e lazer, equipamentos públicos e institucionais e escolas) em um raio de 10 a 15 minutos a pé. “Outra forte tendência que veio para ficar é o uso massivo de tecnologia para a quebra destas distâncias no ambiente de trabalho. Ou seja, estamos caminhando para um modelo de cidade mais humana, sustentável e democrática, especialmente quando a quarentena acabar.”

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