Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

COLUNA DO MARTINELLI: A paz é fruto da justiça

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 15/09/2019 | 08:00

O Dia Internacional da Paz, 21 de setembro, sábado próximo, foi instituído pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1981 para “comemorar e fortalecer os ideais de paz em cada nação e cada povo entre elas”. Objetiva despertar a solidariedade e a fraternidade entre os povos, sobrepondo-se ao egoísmo, ao unilateralismo e principalmente, as conseqüências de um capitalismo desenfreado, onde o lucro dá tônica às relações.

Vale meditar um pouco sobre o tema. Não podemos perder de vista que a paz é fruto da justiça, inclusive por indicação bíblica (cf. Is 32,17). Sem a sua prática não há harmonia nos relacionamentos entre as pessoas e até entre os povos. Dom Odilo P. Scherer, arcebispo de São Paulo, assim se expressou: “a injustiça é sempre uma violência contra os direitos da pessoa ou dos povos. Por isso a sua superação é condição para que haja verdadeira paz. Mas o mero cumprimento da justiça ainda não é suficiente para cultivar a paz: esta também requer o arrependimento das culpas, o perdão dado e recebido e a reparação das ofensas” (“O Estado de São Paulo” – 14/03/2009- p.A2).

Na mesma trilha, pode-se dizer que ela é uma conquista que deve ser permanentemente buscada, exigindo nossa indignação pelo desrespeito aos direitos humanos e nossa preocupação com a prevalência da concórdia entre todos, ainda que tais posicionamentos conflitem muitas vezes, com privilégios de muitos que os pretendem imutáveis.

Citado por Mário S. Cortella, vale lembrar o grande educador brasileiro Paulo Freire que, por propor uma educação apoiada no diálogo, foi entendido por alguns como alguém que identificava a paz como apaziguamento e anulação de conflitos já no presente. Ele, no entanto, ao receber o Prêmio Educação para a Paz da Unesco (Paris, 1986), deixou bem claro qual era sua convicção: “De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes, aprendi sobretudo que a paz, é fundamental, indispensável, mas que a paz implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói, na construção incessante da justiça social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças , o torna opaco e tenta miopisar as suas vítimas” (“Família Cristã”- 01/1999- p.49).

Essa comemoração, apoiada pela Ordem dos Advogados do Brasil, visa renovar as esperanças de que a paz seja uma realidade e a fraternidade presida todas as relações humanas, cabendo a nós, meditarmos sobre a parcela de responsabilidade que cabe a cada um à concretização destes aspectos. Por isso, a título de reflexão,  invocamos o saudoso Papa João Paulo II que no início de 1992, definiu a paz “como um bem fundamental que comporta o respeito e a promoção dos valores essenciais do homem: o direito à vida, em todas as fases do seu desenvolvimento; o direito à estima, independentemente de raça, sexo e convicções religiosas; o direito aos bens materiais necessários à vida; o direito ao trabalho e a uma equitativa distribuição dos seus frutos, tendo em vista uma convivência ordenada e solidária. Como homens, como crentes e mais ainda como cristãos, devemos sentir-nos empenhados na vivência desses valores de justiça que encontram o seu coroamento no preceito supremo da caridade: ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’ (Mt, 22,39)”.

O Papa também insistia com as autoridades públicas para que se esforcem “com atento sentido de responsabilidade por prevenir guerras e conflitos, por fazer triunfar o direito e a justiça e, ao mesmo tempo, favorecer um progresso que redunde em benefícios de todos e, em primeiro lugar, daqueles que vivem oprimidos pelas cadeias da miséria, da fome e do sofrimento”.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito Padre Anchieta de Jundiaí. Ex-presidente das Academias Jundiaienses de Letras e de Letras Jurídicas (martinelliadv@hotmail.com)


Leia mais sobre
Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/coluna-do-martinelli-a-paz-e-fruto-da-justica/
Desenvolvido por CIJUN