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COLUNA DO MARTINELLI: Revolução Constitucionalista de 1932 e o ideal de liberdade

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI | 05/07/2020 | 05:10

No dia 9 de julho, feriado estadual em São Paulo, antecipado nesse ano em função da pandemia, comemora-se os 88 anos da Revolução Constitucional, também chamada de Revolução de 1932, porque foi nesse ano que ocorreu o movimento na capital paulistana que tinha como objetivo principal a reconstitucionalização Brasil. Desde 1930, prevalecia a denominada República Nova, originária de uma revolta que estabeleceu o governo provisório sob a presidência de Getúlio Vargas, que nomeava interventores para governar os Estados e não obedecia a nenhuma Constituição, provocando grande descontentamento nos liberais paulistas que perceberam que a ação política que eles haviam anteriormente apoiado estava sendo desvirtuada, criando-se uma ditadura com ações manifestamente arbitrárias. A autonomia de São Paulo foi diminuída, com sérios reflexos na economia e o anúncio de que o então ministro da Justiça, Oswaldo Aranha, viria destituir o governador Pedro de Toledo, aumentou ainda mais a insatisfação popular.

As primeiras manifestações contra a administração de Vargas ocorreram no dia 23 de maio na Praça da República, quando tombaram mortos quatro jovens: Mário Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo Andrade. Os seus nomes deram origem à sigla MMDC, que passou a simbolizar o heroísmo da juventude paulista. Feriu-se Orlando de Oliveira Alvarenga, que veio a falecer posteriormente. A partir de 2004 em homenagem a Alvarenga, passou para MMDCA. A população paulistana, há tempos inconformada com o desrespeito às leis e regras por parte do governo federal, contribuiu com recursos materiais para a compra de munições, morteiros, granadas, máscaras antigas e lança-chamas, trabalhando na blindagem de trens e automóveis.

No dia 7 de julho, o coronel Euclydes Figueiredo mudou-se para São Paulo e assumiu o comando do movimento, ao lado do General Isidoro Dias Lopes. No dia 9 de julho de 1932, começou oficialmente o levante armado, comandado pelo general Isidoro Dias Lopes. Nesse dia, o interventor Pedro de Camargo telegrafou o Getúlio e informou que não podia conter a revolta, que se prorrogou até trinta de setembro do mesmo ano, quando os revolucionários não mais resistiram, sendo negociada a sua rendição. Havia o apoio manifestado das forças do Mato Grosso, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, mas só os mato-grossenses, liderados por Bertoldo Blinger, se mantiveram fiéis aos paulistas.

Durante três meses, os 100 mil homens das tropas federais atacaram São Paulo, que se defendia com 35 mil soldados. E Getúlio também era apoiado por aqui por pessoas como Francisco Matarazzo, dono de um dos maiores impérios empresariais da época. Os aviões de guerra bombardearam até as cidades do interior. No fim do conflito, 830 pessoas haviam sido mortas. Dois anos mais tarde, a Assembléia Constituinte foi convocada e elaborou a Carta Magna. O movimento, assim, obteve êxito levando o Brasil novamente ao regime da legalidade.

A título de ilustração, transcrevemos abaixo um texto do consagrado poeta Paulo Bonfim e publicado no boletim da Academia Paulista de História (julho de 2002 – pág. 23), denominado “Soma de Sonhos e o Sacrifício de Um Povo”: “O que foi 32? Foi a soma dos sonhos e o sacrifício de um povo, a confraternização de raças e condições sociais no batismo das trincheiras, o esforço da indústria, o desprendimento do comércio, a grandeza de uma causa, a generosidade dos moços, a participação dos cabelos brancos, o entusiasmo das crianças, a força que vem da mulher terra paulista, o verbo dos poetas e dos tributos, dos jornalistas e dos sacerdotes, a sacralidade da lei, o fuzil ao lado do livro, a trincheira continuação da escola, a caserna dependência do lar e o campo de batalha sementeira da justiça!

O que foi 32? Foi a bandeira que voltou do passado, o passado que se transformou em bandeira, bênção de Anchieta e de frei Galvão, vigília de João Ramalho, grito de guerra de Tibiriça, inspiração de Bartira, presença dos que partiram, convocação do amanhã, cocar-capacete de aço, gibão que virou farda cáqui, canoa monçoeira transformada em trem blindado, mortos e vivos marchando; igreja, escola, oficina em batalhões rezando a mesma oração, prece de amor e esperança, holocausto e clarinada, asa de glória gravando no sangue das gerações”.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário (martinelliadv@hotmail.com).


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