Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Com a paralisação dos jogos, atletas ficam sem fonte extra

Thiago Batista | 19/04/2020 | 07:45

A bola parou de rolar há mais de um mês nos campos profissionais e também nos campeonatos amadores devido à pandemia do novo coronavírus (covid-19). Esta parada fez com que os atletas precisassem mudar a rotina devido ao corte de verba que estes jogos geram. Muitos profissionais contavam com a ‘grana extra’ destas partidas realizadas para engrossar o orçamento, mas agora precisaram se adaptar à nova realidade.

Foi o que aconteceu com os jogadores Felipe Augusto da Silva, de 32 anos, e Erik Felipe Damasceno, de 28 anos. Além de não terem a renda extra do futebol, os jogadores ficaram sem a renda principal porque tiveram que fechar as portas do comércio que trabalham obedecendo aos decretos municipal e estadual sobre o fechamento dos estabelecimentos não essenciais. Felipe é proprietário de uma loja de vestuários na região da Colônia e Erik é seu vendedor. Agora a dupla precisou ‘afrouxar’ ainda mais as contas de casa.

“O atual momento está sendo muito difícil para mim devido ao fechamento do comércio. Sem as partidas ainda fiquei sem a renda do final de semana, então agora o momento é de rezar e esperar que tudo melhore para voltarmos aos trabalho”, diz Erik, conhecido no futebol como “Mamadeira” e que entre 2014 e 2016 atuou profissionalmente com a camisa do Paulista.

Felipe também jogou profissionalmente com o uniforme do Galo na temporada 2015. Atualmente não tem quase nenhum rendimento financeiro. “Acabei ficando sem uma das rendas, que é o futebol, e perdi praticamente 80% do que ganhava na loja. Estamos realizando algumas vendas on-line, mas nada comparado com o comércio funcionando normalmente”, diz.

Falta dos campos

Lateral-esquerdo, Felipe sente a falta dos gramados. “Não é apenas o lado físico do corpo que sente, mas a mente também acaba sentindo falta do esporte. Quando estou em campo é o momento de esquecer tudo e me concentrar somente na partida, onde há adrenalina, emoção, competição, entre outros benefícios que o esporte nos proporciona”, conta.

O atacante Erik sente falta de dar os seus piques em velocidade no gramado com uma bola dominada nos pés. “O corpo sente muita falta dos jogos, pois está acostumado a essa rotina de todos os finais de semana”, lembra.

Para manter a forma, o jogador procura correr junto com amigos em um campo perto da sua residência. “A gente vinha com ótimo ritmo e com a pandemia do coronavírus acaba perdendo tudo isso e está sendo difícil”, completa Erik.

Felipe, campeão amador de Jundiaí em 2012 pelo Jamaica, do bairro do Tamoio, revela que tem um acordo este ano para atuar, mesmo no amador, pelas cidades da Grande São Paulo. “Esse ano eu já tinha acertado para atuar na divisão especial de Santo André e também jogar em algumas copas na Capital. Contando todos os campeonatos e não batendo os horários seriam três jogos por final de semana”, afirma.

Já Erik atuaria a mesma quantidade de partidas do seu colega juntando o sábado e o domingo. “Estava participando de vários campeonatos agora no começo do ano. Ainda fui jogar em alguns torneios em São Paulo e assinei para atuar nos campeonatos de Santo André e Campo Limpo Paulista”, conta.

Investimentos

Para Paulo Ricardo Pereira Dias, de 32 anos, ficar sem jogar futebol neste momento está sendo horrível. No ano passado, ele disputou dois campeonatos amadores de forma simultânea e conseguiu com o dinheiro dos cachês pagar o financiamento do seu apartamento.

“No meu caso o futebol amador é um extra, pois tanto eu quanto minha esposa trabalhamos registrados, mas sem jogos, causa uma diferença mensal na receita sim”, conta Paulo, conhecido como Alemão.

Durante a semana Paulo Ricardo é tesoureiro em uma escola particular e, quando está nos gramados, atua como zagueiro. Ele lembra que nesta época do ano seu corpo tinha que estar preparado para toda a maratona da temporada. “Nesse período do ano, de acordo com a minha experiência, eu tinha que estar bem fisicamente para encarar os campeonatos da região. Sem jogo, automaticamente eu fico sem ritmo”, explica.

Uma das preocupações de Alemão é com seus colegas que apenas dependem do futebol amador, devido as condições que os times podem ter após a pandemia. “Existe uma dúvida que é a condição financeira dos times porque muitos dependem dos patrocínios para arcar com os custos. Tudo depende de como ficará a economia”, lembra.

Futebol como renda

Companheiro de gramados do jogador Alemão, Jeferson de Oliveira, também 32 anos, tem como única fonte de renda o futebol amador. Autor do gol do título do Shangai Futebol Clube, do Parque Shangai, na última conquista invicta de um clube no Amador de Jundiaí, na temporada 2012, ele está preocupado com a falta de dinheiro. “É complicado porque as contas não param de chegar e eu ganho dinheiro do futebol”, lamenta.

Jeferson realiza em média quatro jogos por final de semana e nos dias úteis chega a jogar outras três vezes. “No total, em um mês eu jogava até 28 partidas e dava para tirar uma grana boa”, detalha.

O jogador afirma que neste mês conseguiu pagar as contas de casa, mas caso o veto aos jogos de futebol persistir, a dificuldade financeira deve aumentar. “O futuro também preocupa, pois com essa crise que estamos muitos times devem diminuir a quantidade de competições que estará disputando”, conta.

Outro que sente a mesma dificuldade é Michel Francisco Jobstraibizer Pereira. Com passagem no Paulista no futsal em 2011 e no futebol profissional em 2016, o meia-atacante de 27 anos se diz entediado em não jogar e sente a falta de competição. Para ele o mais difícil é não estar recebendo o dinheiro pelas partidas.

“Nunca esperei por isso porque naturalmente quando você se acostuma com esse vida, já começa a contar com o dinheiro dos jogos e ele passa a ser parte da renda mensal. Com essa pausa ficou muito difícil pois o dinheiro diminui, mas as contas não”, diz.

Michel acredita quando os jogos retornarem não terá muito tempo para seu corpo se adaptar. “Quando essa pandemia passar os campeonatos vão retornar, alguns em fase eliminatória, então teremos que estar prontos de imediato”, conta.

O futuro

Para Erik Damasceno os próximos dias do futebol amador na região são incertos, pois muitos clubes pagam os cachês dos jogadores de acordo com a quantidade de patrocinadores que possuem na temporada. “Eu estava conversando na última semana com diretores da Ponte Preta da Agapeama e da Desportiva de Várzea Paulista e ambos me contaram a fase difícil que passam também. A maioria dos patrocinadores acabou desistindo por não ter condições na parte financeira devido ao covid-19”, lembra Erik Damasceno.

Felipe Augusto não acredita que após a pandemia alguns costumes entre os jogadores serão modificados. “O contato entre os atletas será o mesmo de sempre. Creio que tudo isso irá passar e tudo voltará ao normal”, afirma.

Erik acredita em maior prevenção entre os jogadores. ”Pode ter certeza de que todos irão se cuida mais. Acredito que vai mudar pouco, especialmente no vestiário, com aquela resenha (conversa) entre todos lá dentro”, espera.


Leia mais sobre | | | |
Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/com-a-paralisacao-dos-jogos-atletas-ficam-sem-fonte-extra/
Desenvolvido por CIJUN