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Combater o machismo ainda é um desafio para as mulheres

KÁTIA APPOLINÁRIO, ESPECIAL PARA O JORNAL DE JUNDIAÍ - ksantos@jj.com.br | 08/03/2018 | 05:00

Cuidar do lar, prezar pela aparência, tomar cuidado para não “ficar para a titia”, não usar roupa curta – mas longa demais também não pode. Essas são algumas das exigências para ser uma “mulher para casar” que são atribuídas logo após o nascimento, quando o médico proclama: “é uma menina!”. Após anos de luta e resistência, essas exigências se tornaram apenas imposições anacrônicas incapazes de representar o papel social das mulheres, que através de seus méritos comprovaram que competência vai muito além da questão de gênero. Mas, ainda assim, o preconceito persiste enraizado nos costumes passados de geração a geração. Através de comentários no Portal JJ, sobre os desafios da mulher moderna, os depoimentos colhidos refletem a inflexão da atualidade.

“A gente já nasce com uma grande carga de responsabilidade e poucos direitos, e ainda no século XXI temos que lidar com essas questões devido à falta de conscientização social. Falta respeito à igualdade, de forma a não colocar o homem como um ser superior”, afirma Rose Gouvêa, advogada, militante LGBT há 12 anos e Presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí. “A vaga é masculina, você não serve”; “para mulher pagamos um salário menor”; “por que uma pretensão salarial tão alta? Mulher não precisa ganhar tanto” foram algumas das frases que a técnica em Edificações graduada em Marketing, Tais Gramorelli escutou ao longo de sua carreira no ramo da construção civil. “Ouvi essas frases em quase todas as agências de emprego de Jundiaí, por um ano. Claro, não é culpa exatamente das agências, não são elas quem discriminam o gênero, mas é uma forma que as empresas usam para se proteger”, relata Tais, que hoje trabalha com vendas técnicas de materiais de construção.

Para Patrícia de Lúcio, de 39 anos, o maior desafio da mulher na atualidade é conciliar o profissional com a família. Ela acorda todo dia às 5h da manhã, cuida da calopsita, faz café, acorda os três filhos adolescentes, organiza a casa, depois cuida dos seus dois filhos gêmeos de quatro anos. Dai então começa o segundo round: vai para seu escritório, onde tem a missão de gerenciar 30 funcionários (todos homens), e à noite, após o expediente ainda há sempre alguma tarefa doméstica a ser realizada. “Seis homens não dariam conta das atribuições que nós mulheres temos”, brinca a empresária, que além de administrar seu próprio negócio, é a chefe da casa e defende: “Não existe trabalho de mulher! Todo trabalho deve ser conjunto”.

Mas os desafios também existem no âmbito afetivo, como no caso de Maria de Fátima Nunes, de 50 anos, que após uma traição e vários infortúnios no amor, passou por cima dos preconceitos e assumiu um novo relacionamento. “Criei minhas filhas, fiquei viúva, e hoje meu atual marido tem 24 anos. Eu decidi ser feliz, ao lado da pessoa que eu escolhi, independentemente da idade dele. Não deixo que ninguém me coloque para baixo”, resiste. A socióloga Lucimara Domingues de Oliveira, de 38 anos, acredita que muitas vezes os comportamentos machistas são reproduzidos automaticamente e acabam sendo abafados por medo. “Já vi vários casos de mulheres que se calaram para manter o casamento. Cada relato que eu leio mostra que há muita intolerância por parte dos homens”, alega. Por isso, o empoderamento deve ser um exercício diário, segundo Rose Gouvêa. “O problema é que o machismo é encarado de forma natural. Cabe a nós mulheres ver que hoje vivemos num mundo opressor, não podemos repercutir isso para as novas gerações”.


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