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Comércio antigo é persistente e inova para manter a tradição

Solange Poli | 30/06/2019 | 08:00

A atividade comercial, além de milenar, é motivadora, une gerações e perpetua as tradições. Em muitas cidades as lojas antigas se destacam em meio às grandes redes. Em Jundiaí, nos bairros e principalmente no Centro, as fachadas históricas compõem o cenário dos negócios, de variados segmentos, que fazem sucesso há décadas e persistem diante dos desafios e necessidade de inovação. Listamos alguns desses estabelecimentos para contar um pouco da história, não somente de sucesso e de vida de quem fundou, mas daqueles que dão continuidade com dinamismo e força de vontade.

A loja Ao Esporte Jundiaiense, instalada na rua Barão de Jundiaí, tem 65 anos. Juntamente com dois sócios e primos, Fernando Legnaioli dá continuidade aos negócios que o pai e o tio iniciaram. A comercialização de materiais esportivos, como bolas, troféus, roupas e bolsas para a prática das atividades garante uma clientela que abrange toda a Região, formada inclusive por clubes e escolas, além dos consumidores em geral. “Sinto que as novas gerações não têm o mesmo interesse que nós tivemos no comércio. Os jovens, muitas vezes, buscam outras profissões. Comecei aos 18 anos e hoje tenho 55”, comenta.

No Bazar Popular, na movimentada rua Barão do Triunfo, o proprietário José Aurélio Denardi revela que mantém sua paixão pelo comércio, herdada de seu pai José Denardi, que foi dono também da saudosa loja de brinquedos Bolinha. “Passamos por vários planos e crises na economia, mas esta atual está longa demais, com desemprego e queda na renda, o que interfere no volume de vendas. Mesmo assim, como trabalhamos com utilidades domésticas tradicionais, como panelas e utensílios de cozinha, nossa clientela já está habituada com os produtos”, afirma, lembrando que a loja tem cerca de 60 anos e seu pai a comprou há 23 anos.

Outra relíquia do comércio local é a loja Ao Barulho de Jundiaí, especializada em aviamentos, tecidos e confecções. Ana Paula Szankowski Bueno, filha de uma das fundadoras, lembra que o pontapé inicial foi dado por seu avô, há cerca de 54 anos. “O Centro mudou, está muito diferente, pois lojas grandes foram tomando conta, com um novo perfil. Mesmo assim vamos em frente, investindo e mantendo a qualidade, para preservar nossa clientela fiel e atrair novos consumidores”, salienta.

A Loja dos Velhinhos, tradicional pelos tecidos para confecção e decoração, começou há mais de 70 anos e mudou de proprietário, mas conserva a estrutura original. Uma equipe agora jovem é responsável pelo atendimento e prova que é possível manter as origens, com foco num futuro de sucesso. Segundo o gerente Gabriel do Nascimento, muitos que visitam a loja comentam que gostavam de visitá-la com os pais. É um desafio gerenciar uma loja tão especial, preservando essa linha de raciocínio, com muita atenção no atendimento e os melhores preços possíveis”, analisa.

No Gran Bazaar, o proprietário Wahib Atique, 83 anos, relata com emoção que desde 1961 está habituado com o comércio. Ele mesmo faz questão de atender a clientela, acostumada com a qualidade e a gama enorme de produtos ali encontrados, principalmente artigos para cozinha. “Se mantermos o padrão atual, a expectativa é que tudo vai continuar tranquilo”, analisa com otimismo, ressaltando que a filha e o genro o auxiliam na direção da loja.

Outro estabelecimento do ramo de aviamentos, que também conta com produtos voltados ao artesanato, é a São Carlos, com quatro lojas na cidade, três delas no Centro e uma na Ponte São João. Está presente em Jundiaí desde a década de 1930. “Quem manda é a clientela, por isso é preciso inovar. Há sempre lançamentos de produtos, o que nos direciona a uma abertura para as mudanças, quando necessário”, diz Bruno Stifter Machado, responsável pela área operacional da rede. “O artesanato é um ramo infinito. Possibilita renda e ao mesmo tempo é uma terapia”, comemora.

Na rede Passarela, fundada em 1981, hoje são 35 lojas em 12 cidades, sendo nove em Jundiaí. Desde 2007, o site disponibiliza as vendas on-line para todo o país, com uma enorme variedade em calçados, roupas, bolsas e acessórios. De acordo com Flávio Cunha, gerente comercial da rede, para manter o sucesso é necessário se reinventar, enfrentar a conjuntura econômica, reduzir despesas, facilitando os negócios com fornecedores, otimizando espaços ociosos para, assim, evoluir junto com o mercado e o cliente. “Pode ser antigo, mas a evolução do negócio é essencial. O cliente é o principal foco, não só pelo canal físico, mas também on-line. É primordial considerar a sua escolha, como prefere comprar, via site ou loja, levando em conta a transformação digital, que é muito positiva”, afirma.

A São Jorge Móveis, fundada em 1957, especializada em móveis de alto padrão e decoração, é um exemplo de que o atendimento personalizado e atencioso fideliza os clientes, tanto os antigos, como seus filhos e netos. Considerada uma das maiores lojas do ramo no interior paulista, transformou-se em marca. Segundo a gerente Denise Helena Barbosa Andrade, uma das principais estratégias é quebrar paradigmas para manter o sucesso. “O cliente hoje em dia procura preço, design clean e atual, além da qualidade. Por isso buscamos agregar esses itens no produto desejado. Ao comprá-lo, ele realiza um sonho”, ressalta Denise.

RESTAURANTES
O restaurante e pizzaria Beira Rio está presente em Jundiaí desde abril de 1979, na região do bairro Vianelo, também muito tradicional na área comercial. Fabiano Roncoletta, 47 anos, conta que seu pai, Alcides Roncoletta, falecido há 18 anos, deu início às atividades. Junto com a mãe, dona Ilse, Fabiano dá sequência com entusiasmo e destaca a presença marcante da clientela fiel como um dos fatores mais gratificantes. “Atendemos agora os bisnetos de muitos clientes, que desde o início estiveram conosco. Hoje temos 25 funcionários e trabalhamos muito para manter o padrão de qualidade e a tradição, conservando a base antiga. Temos um cozinheiro que tem 38 anos de casa e um garçom com 37. Também procuramos inovar, acompanhando as tendências do mercado. Nosso serviço de delivery tem mais de 20 anos”, relata.

A Cantina Jundiaiense, no Centro, tem 71 anos, segundo seu atual proprietário, Waldemar Innocente Filho, que junto com a esposa Roseli e os dois filhos administra o negócio, comprado em 2010. “Já éramos clientes há 25 anos. Depois que compramos, fizemos uma reforma para modernizar o espaço e garantir ainda mais conforto. Os principais pratos foram mantidos, como o filé a parmegiana, entre outros, e também incrementamos o cardápio com massas e outros pratos. A clientela muda, com familiares dos antigos clientes e jovens também. As mídias sociais ajudam a influenciar e isso é muito bom”, comenta Waldemar, reforçando a satisfação em ter funcionários experientes na equipe. O delivery, por meio de um aplicativo, corresponde a cerca de 35% do faturamento mensal.

CONFIANÇA
Edison Maltoni, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) e do Sincomercio de Jundiaí, avalia que a confiança é um dos fatores relevantes na manutenção dos estabelecimentos tradicionais. “A persistência é algo próprio da nossa cidade, com segmentos que progridem, mas também conservam as raízes, muitos herdados das famílias, embora algumas vezes os filhos sigam outros ramos e interesses. A opção do crediário fidelizava o cliente, pela questão da credibilidade. Hoje temos o comércio eletrônico, com novas formas de pagamento. O consumidor está cada vez mais bem informado e faz pesquisa antes de comprar”, destaca Maltoni, reforçando que essas tradições se mantêm não só no Centro como também em diversos bairros de Jundiaí.


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