Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Conhecimento motiva transexuais na conquista e avanço dos direitos

SOLANGI POLI | 28/04/2019 | 05:05

Ser transgênero ainda é difícil no Brasil, um dos países mais intolerantes do mundo, com altos índices de assassinatos e outros crimes contra transexuais e travestis. Quando se percebem de um gênero diferente do que lhes foi atribuído no nascimento, passam a enfrentar uma verdadeira batalha para viverem sua identidade. Correm risco constante de serem vítimas de violência, não contam ainda com uma legislação que as proteja, faltam políticas de inclusão no mercado de trabalho, enfrentam dificuldades para acessar serviços de saúde, sofrem violência e hostilidade no ambiente escolar e frequentemente são rejeitadas e incompreendidas pela família. O pior: são julgadas por uma sociedade que prefere apontar erros ao invés de aceitar e respeitar as opções individuais.

Em Jundiaí, o perfil de cidade conservadora contrasta com mentes dispostas a enfrentar o mundo e seus desafios com coragem e um olhar mais humano e solidário. Mais que isso, do ponto de vista prático, profissionais de várias esferas, simpatizantes ou não da causa, unem-se para vencer barreiras e buscar um convívio mais justo. A população transexual não é contabilizada pelo censo do IBGE, o que não a torna invisível. As políticas públicas de atendimento a essa população evoluíram muito nos últimos anos, passando a funcionar de maneira estruturada, ainda que haja muito a evoluir.

Rose Gouvêa, natural de Jundiaí, é militante feminista e cofundadora da ONG Aliados, primeira ONG de defesa da população LGBT de Jundiaí. Foi presidente da Comissão da Diversidade da OAB Jundiaí e a primeira LGBT da cidade a ser delegada nas Conferências estadual e nacional dos Direitos das Mulheres, tendo a oportunidade de levar as demandas da população LBT. Também é cofundadora da Rede de Mulheres Valentes, que atua no apoio às mulheres vítimas de violência, incluindo mulheres LBTs.

“Jundiaí é uma cidade com um ranço conservador tremendo, mas apesar disso conseguimos avançar em algumas pautas, como incluir, em 2015, a Parada do Orgulho LGBT no Calendário de Eventos do Município, com o reconhecimento da importância, inclusive econômica, deste evento. A partir de 2014, ajudamos a incluir pessoas LGBT nos conselhos municipais, como de Mulheres, Juventude, Saúde, de Segurança e Cidadania, para inserirem as nossas pautas nesses conselhos”, lembra a militante, também autora de um projeto para determinar o respeito à identidade de gênero nos órgãos públicos de Jundiaí, que há dois anos foi acolhido e transformado em decreto do executivo.

Desde maio de 2017, relata Rose, toda pessoa trans ou travesti que procurar um órgão municipal, tem o direito de ser tratada de acordo com a identidade que se reconhece. “Graças a esse projeto, as pessoas trans pararam de sofrer constrangimentos por pessoas que não respeitavam suas identidades e hoje os frequentam mais tranquilidade, principalmente os órgãos de saúde para consultas e exames”, comemora.

Há uma grande preocupação em relação à empregabilidade e outras oportunidades, especialmente a melhoria na qualidade de vida e a formação acadêmica. Em razão do preconceito ainda há muita dificuldade na colocação das pessoas transexuais no mercado de trabalho. “Muitos não terminam seus estudos por conta do preconceito, daí a necessidade da discussão das questões gênero e diversidade no universo educacional, com o respeito que todos merecem”, analisa.

A militância transexual, cada vez mais atuante, tenta e corre atrás dos seus direitos no sentido de conseguir que empresas apoiem a inclusão no seu quadro de funcionários, articulando junto ao poder público políticas voltadas à melhoria na vida e formação das pessoas. A militância segue com articulações no sentido de resgatar a cidadania daqueles que ainda não conseguiram um lugar ao sol, já que muitas são expulsas de casa, vivem nas ruas e na prostituição. “A maior luta do movimento é tentar fazer com que essa população consiga a formação acadêmica e empregos, buscando apoio em todas as esferas”, pontua.

Ainda há muito a avançar, alerta Rose. O que existe de proteção de direitos das pessoas trans atualmente, em âmbito nacional, veio do STF, que ano passado decidiu que essas pessoas podem retificar nome e gênero na certidão de nascimento, com pedido direto nos cartórios de registro civil, sem mais obrigá-las a entrarem com processos judiciais para esse fim, o que levava anos para serem concluídos, muitas vezes sem ganho de causa.

“Não existe legislação de proteção no País. Temos no Estado de São Paulo a lei 10948/01, que pune administrativamente pessoas e empresas que praticarem LGBTfobia, podendo chegar a uma multa de 3000 Ufesps e até ao fechamento de estabelecimentos que reincidirem nos atos de discriminação. A intensa luta da militância hoje é pela criminalização da LGBTfobia”, acrescenta Rose.

Experiência garante respeito
Camila Godoi, 47 anos, mulher trans e lésbica, é engenheira química formada pela Unicamp. Tem mais de 20 anos de carreira docente no Ensino Superior de Engenharias e Ensino Médio. É instrutora Internacional de Taekwon-Do ITF, praticante há 24 anos. Com vasta experiência profissional, também é palestrante em ambientes corporativos e acadêmicos. Como musicista, integra a banda de rock feminista “Clandestinas”, atuando como contrabaixista, compositora e vocalista.
“Minha experiência como educadora tem sido muito valiosa na atuação como militante feminista e LGBT, ministrando palestras e participando de mesas de debates. Tanto em ambientes empresariais como acadêmicos, contribuo para a capacitação de profissionais de modo a favorecer a construção de espaços efetivamente acolhedores a todas nós, mulheres em suas diversidades, à população LGBT e também com os shows da banda, combatendo o machismo, o racismo, a LGBTfobia”, relata.
Ao assumir-se, publicamente, como mulher, no ano de 2015, ela conta que foi demitida de duas escolas particulares de Ensino Médio, mas teve preservado o cargo no Ensino Superior. Intelectual respeitada no ambiente acadêmico, sempre atuou em importantes universidades estaduais, federais e privadas. “Quando a minha transição de gênero veio a público, em 2015, eu já havia encerrado a minha carreira como atleta, mas sempre fui muito bem acolhida e continuo lecionando. Sou muito respeitada, como mulher e como artista marcial, nos espaços que frequento”, ressalta Camila. Duas demissões transfóbicas ocorridas imediatamente após se assumir, publicamente, tornaram Camila ainda mais resistente. Sente-se privilegiada com a qualidade de vida que desfruta, consciente do quanto pode contribuir para enfrentar os desafios.
“A diferença entre transexual e travesti não tem nada a ver com genitália, ter feito cirurgia ou não, tem a ver com privilégios de classe. Em países onde não existe desigualdade social tão extrema como a nossa não há denominações diferentes para representar a mesma coisa. O Brasil é o país que mais consome material pornográfico envolvendo corpos de pessoas transgêneras. É o país que mais mata pessoas transgêneras. A expectativa de vida de uma pessoa transgênera, no Brasil, é de 36 anos. Com governos e parlamentares de extrema-direita destacando-se, a violência machista e LGBTfóbica é fortalecida pelos discursos de ódio, o que agrava a situação de todas nós”, destaca, lembrando que as redes sociais têm seus algoritmos permeados por interesses políticos e financeiros. “Considero ainda interessante o uso para a formação de redes de pessoas que defendem os direitos das mulheres e da população LGBT, além da visibilidade de nossas pautas de militância”, comenta Camila.

CAMILA GODOI TRANSEXUAL


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/conhecimento-motiva-transexuais-na-conquista-e-avanco-dos-direitos/
Desenvolvido por CIJUN