Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Consequências da covid-19 atingem em cheio as diaristas

NATHÁLIA SOUSA | 26/07/2020 | 05:20

Com o nível de desemprego mais alto da série histórica no trimestre encerrado em maio, o Brasil enfrenta impactos sérios da crise econômica agravada pelo novo coronavírus. A taxa de desemprego no Brasil saltou a 12,9% nos meses de março, abril e maio, de acordo com dados divulgados no dia 30 de junho pelo IBGE. Atualmente, há cinco milhões de pessoas trabalhando no serviço doméstico, o que corresponde a 1,17 milhão de trabalhadores a menos no mercado de trabalho neste período, redução de quase 19% em relação ao trimestre encerrado em fevereiro. Ou seja, trabalhadoras e trabalhadores domésticos estão sofrendo diretamente com o desemprego neste momento.

Os motivos para que percam o emprego são variados e vão desde a dispensa, pois os patrões estão em casa e cuidam do serviço doméstico, até o cancelamento dos serviços até a melhora da situação financeira, pois há muitas pessoas que perderam o trabalho ou tiveram redução salarial.

Com rendimentos mais escassos, o serviço doméstico sem contrato fixo, tido como acessório, é facilmente cortado das despesas mensais e trabalhadores que vivem disto veem não apenas uma redução, mas uma verdadeira escassez. Este é o caso de Letícia Bordin dos Santos, de 29 anos. Ela, que trabalha há cerca cinco anos como diarista, nunca presenciou uma situação como a presente.

“Eu fazia faxina quase todos os dias, de segunda a sábado, agora estou fazendo uma ou duas por mês. Eu trabalhava muito para comerciante, professoras, diretoras, mas agora elas estão em casa e fazem a própria faxina. Mas também tem a questão financeira, por corte de salário. Minha diária é entre 120 a 150, mas depende muito da casa, do trabalho”, conta Letícia sobre as dispensas.

Ela, que tem um filho de 8 anos e uma filha de 3, tinha a ajuda do pai, mas agora ele também não consegue ajudá-la. “Recebi o Auxílio Emergencial porque já recebia o Bolsa Família. Tenho meus filhos, mas não recebo pensão, então aperta muito. Meu pai me ajudou muito, mas ele perdeu muito serviço, porque é autônomo. Recebo a última parcela do auxílio em agosto e só um milagre para saber como será depois, acho que a situação não volta ao normal até o final do ano.”

Letícia diz que sempre foi complicado, mas neste momento está pior para conseguir trabalho em empresas. “Muita empresa não pega, porque tenho filhos pequenos, mas eles não estarem na escola é o de menos, porque sempre tinha alguém que cuidava, eu pagava babá. Acho que para todo mundo ficou ruim nesta pandemia. Muita gente teve o contrato suspenso ou redução no salário. Para quem eu fazia faxina fixa me chama agora uma vez por mês ou a cada dois meses”, conta ela sobre a condição geral de trabalhadores que sofrem impactos da crise.

Regina Fernandes é diarista desde os 15 anos, hoje tem 42. Ela fala sobre a drástica mudança trazida pela pandemia. “Antes eu estava até passando faxina para outras diaristas porque a minha semana estava cheia. Mas as patroas abandonaram mesmo. Tem as que não chamam porque estão sem dinheiro e as que não chamam porque ficam em casa.”

Regina também diz que nunca passou por uma situação tão delicada quanto a atual. “Está muito difícil e pesa muito a falta de consideração de algumas patroas. Eu tinha a minha semana fechada de segunda a sábado, agora só tenho uma patroa, que vou duas vezes por semana. Foi a única que teve consideração, ela disse que não me deixaria sem nada, mesmo se eu não fosse trabalhar. Ela ainda está me dando meia cesta básica”, comenta ela, refletindo “se todo mundo tivesse essa consideração…”.

Ela conta que a resposta das demais patroas foi quase um padrão. “Vão esperar passar a pandemia e voltariam a me procurar. Mas não me chamam nem um dia da semana, nem de 15 em 15 dias”, lamenta. Sobre o Auxílio Emergencial, ela diz que foi de grande ajuda. “Nossa Senhora, e como foi. Foi a salvação do momento, não tenho filhos, mas tenho meus gatos e pago aluguel. Se a situação não normalizar até o final do pagamento eu não sei o que fazer. Eu penso em quem tem filhos, o que faz agora.”

 

 

Sindicato tenta balancear lados
Érica Bernardes, presidente do Sindicato das Empregadas Domésticas Jundiaí desde 2014, afirma que há muita insegurança neste momento. “Há muitas domésticas que são do grupo de risco. Muitas não estão indo também por conta da exposição, precisam pegar ônibus e é perigoso levar uma possível contaminação. A gente faz campanha, porque, com o decreto do presidente, dá para fazer acordos de suspensão de 60 dias e elas recebem um adiantamento do seguro-desemprego. Muitos patrões falaram que quando voltar ao normal vão recontratar.”

A presidente do sindicato diz também que, dos trabalhadores domésticos, o maior impacto foi às faxineiras, já que cuidadores, por exemplo, precisam continuar trabalhando. A situação piora quando são diaristas, pois não há registro formal. “Diarista, como não tem vínculo formal, não é categoria. Mas muitas se associam a nós pelos benefícios e a gente tenta ajudar com cestas básicas.”

 


Link original: https://www.jj.com.br/jundiai/consequencias-da-covid-19-atingem-em-cheio-as-diaristas/
Desenvolvido por CIJUN