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Crise levanta alerta ao aumento de pessoas em situação de rua

Nathália Sousa | 02/08/2020 | 08:30

Entre as várias consequências econômicas trazidas pela pandemia do coronavírus, o desemprego foi, de longe, o mais percebido no cenário brasileiro. Desemprego que levou muitas pessoas a escolher as ruas como moradia. A quantidade de pessoas pedindo dinheiro ou comida nos semáforos, feiras e outros espaços parece ter aumentado em Jundiaí.

Mesmo sem ter um censo atualizado quanto aos moradores de rua em Jundiaí, a Unidade de Gestão de Assistência e Desenvolvimento Social (UGADS), da Prefeitura de Jundiaí, acredita que a pandemia e seus impactos econômicos já tiveram reflexos, principalmente para pessoas que residiam em pensões ou imóveis de aluguel e não puderam manter seu custeio.

O levantamento mais recente da população em situação de rua é o Censo Pop Rua registrado em 2019. Os levantamentos deste ano foram reagendados por conta da pandemia. Na época, 27% dos entrevistados declaram o desemprego e questões financeiras como causas para a permanência nas ruas. Em tempo, neste ano os índices de desemprego estão mais altos que os do ano passado.

De simples papelões a barracas, os moradores de rua se ajeitam como podem

Ainda segundo o Censo Pop Rua do ano passado, 38% dos entrevistados autodeclararam o uso de álcool e outras drogas como a causa para permanência nas ruas. Exemplo desta realidade é o de Jorge (nome fictício) que está nas ruas justamente pelo uso de entorpecentes.

Apesar do local onde vive ser insalubre, ou seja, precário para um ser humano viver dignamente, ele diz não passar fome. “Ninguém gosta da gente, mas aqui o pessoal ajuda, trás comida, ração para os cachorros, não tem do que reclamar”, diz Jorge ao lembrar que não recusa trabalho, mas as oportunidades são raras quando não há um endereço para comprovar.

No mesmo grupo de Jorge, tocando samba com galões vazios junto a outros homens, estava Carlos (nome fictício). O homem afirma que é importante a ação da prefeitura para que tenham oportunidades. “Se a prefeitura não ajudar, ninguém me ajuda. Eu sou ex-presidiário. Se não ajudarem, não consigo ter um trabalho legal.”

A realidade da rua, segundo Carlos, não é nada fácil, mas é onde ele pode estar atualmente. “Tem lugares que você vai para tomar um banho e dá briga, porque os caras querem mexer nas suas coisas e os funcionários não se metem nisso. Tenho vontade de sair da rua, mas para um lugar que seja meu e não dos outros. Moro na rua há sete anos, vim para a rua por causa do crack. Eu era mestre-sala da União da Vila”, lembra ele.

PERSPECTIVA

Catador de entulho e de sucata, o jundiaiense Francisco (nome fictício), de 42 anos, está em situação de rua há 18 anos. “Eu estou na rua porque eu quero e também por causa das drogas. Tenho casa, mas é opção minha estar aqui. Já fui para albergue, mas não tenho tempo de ficar lá, trabalho o dia todo pegando sucata. Esses lugares não tem nada, fiquei lá logo quando começou a pandemia, mas faz o que lá? Fica o dia todo deitado vendo TV? Já estava pegando corona de ficar deitado o dia todo”, diz ele brincando com o fato de não conseguir ficar parado.

O homem também conta que em Jundiaí não falta ajuda, mas há violência da Guarda Municipal. “Não precisa comprar nada, aqui doam tudo, por isso vem muita gente de fora . Estou há 18 anos na rua e essa é a pior fase. Já veio assistente social que me levou para a estação, para me mandar para São Paulo, mas eu sou daqui, vou para onde?”, contou impaciente deixando a entrevista para ir trabalhar.

A coleta de materiais recicláveis é uma alternativa, já que não é tem registro

Com uma gota tatuada abaixo do olho, como uma lágrima, Danilo (nome fictício) percebe mais gente nas ruas de Jundiaí. “Tem muita gente de fora. Se aqui na Ponte São João está cheio, no Centro é pior. Eu nasci no Maranhão e vim para Jundiaí com sete anos, agora estou com 18. Estou na rua há uns 2 ou 3 meses, não conto o tempo. Vim por causa da droga. Uso pó, pedra, maconha, o que tiver. Tenho família, mas não vejo desde que vim para a rua.”

Ele fala das dificuldades de convivência. “Tem morador de rua que atrasa seu lado, rouba você dormindo. E tá pior agora, ninguém pode confiar em ninguém. Aqui ganho alimento, roupa, peço moeda, mas não roubo. Já roubei, mas agora não faço mais isso”, diz ele.

Sobre o acolhimento e o tratamento nas ruas, Danilo diz que prefere não ficar em albergues e que a GM trata mal pessoas em situação de rua. “A GM acorda os caras com tapa na cara, soco na cara. Isso não tá certo, né? Já fui no Centro Pop, mas curto ficar na rua, ver o movimento. Ficar lá sem fazer nada é ruim. Quem usa droga, então, não fica lá de jeito nenhum. Aceito trabalho, mas nem sempre tem. Às vezes oferecem, mas depois somem. Tenho vontade de sair da rua, com fé em Deus eu saio.”

INSTITUCIONAL

Procurada, a Guarda Municipal de Jundiaí (GMJ) informa que realiza pesquisa com os documentos dos indivíduos abordados, a fim de verificar a existência de pendências com a Justiça e dar os devidos encaminhamentos. Não havendo pendências, a GMJ orienta, de modo não impositivo, aos indivíduos em situação de rua abordados a buscar os serviços da rede socioassistencial, onde mantém também agentes fixos para monitoramento.

A UGADS informa ainda que das 279 pessoas que passam pelo Centro Pop em média por mês, entre 30% e 40% não são da cidade, ou seja, estão apenas de passagem. Aqueles que não são de Jundiaí a UGADS busca contato com familiares no município de origem para que haja o recâmbio, porém, devido à pujança econômica do município, muitos chegam a Jundiaí com intenções de permanecer. Para as pessoas com perfil de permanência nas ruas, a UGADS oferece uma rede de atendimento.


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