Jundiaí

Cuidado com o tombo


Quando aluno do primário - assim se chamava o Ensino Fundamental no meu tempo de criança - havia uma lição no livro de português que se chamava ‘A moça da bilha’. Bilha é uma jarra cheia de leite e era levada à cabeça da moça, com destino ao mercado. Ela sonhava enquanto caminhava, acreditando que o leite a ser vendido seria suficiente para a compra de uma galinha já com seus filhotes. Imaginava formar um galinheiro, vender ovos e frangos e amealhar recursos que permitissem comprar uma vaca, reformar a casa, etc. Foi se entusiasmando com a fértil imaginação e tropeçou! Caiu a bilha e o leite esparramado acabou com seus projetos. Essa página encerra ensinamento moral. Não ultrapassar o razoável, contar com revezes, não fantasiar demais. Serve para o Brasil que perdeu a oportunidade de se equiparar aos Tigres Asiáticos, desconsiderou a chegada de uma Quarta Revolução Industrial e sacrifica o seu maior patrimônio: o meio ambiente. Não se progride ‘per saltum’. Não há mais chance de alcançar o Primeiro Mundo em termos industriais. Resta a este continente explorar o que é possível, sobretudo em termos turísticos. Países civilizados levam o turismo a sério. Incentivam seus jovens a se formarem nas carreiras técnicas das quais essa verdadeira indústria não pode prescindir: a profissão de guia, munido de vários idiomas, a gastronomia, o artesanato, o ensino de modalidades esportivas praianas, a hotelaria, a música, as artes, tudo aquilo em que o brasileiro é imbatível. Enquanto isso, é bom que as pessoas se agrupem e façam o que sabem fazer e aperfeiçoem tais práticas. Há tradições negligenciadas no Brasil que importou alguns hábitos alienígenas desprovidos de qualquer pertinência com a nossa formação étnico-cultural. Um bom exemplo é o das rendeiras e bordadeiras em Carapicuíba. Tapetes, roupas, bolsas, esteiras, objetos vários, embalagens, jogos americanos painéis decorativos, tudo feito a mão, tem grande valor no mercado internacional. O artesanato se reinventa e reveste uma sobrevalia incrível. Sustenta grupos familiares, valoriza uma atividade que havia sido relegada e é o futuro que pode salvar um Brasil impregnado de miséria, pobreza, violência e desemprego. Vamos levar isso a sério? Se for com vontade e devagar, não haverá tombo capaz de frustrar o desafio. JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.  

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