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Delivery contribui, mas não salva comércio local

KÁTIA APPOLINÁRIO | 14/07/2020 | 05:00

Com as portas fechadas há aproximadamente cinco meses, muitos estabelecimentos comerciais estão sobrevivendo à base do delivery, porém mesmo que as entregas contribuam para o orçamento, nem sempre são suficientes para suprir as despesas, como aluguel e pagamento dos funcionários.

O gerente operacional de um bar e pizzaria no Anhangabaú, Renan Gustavo Drezza, de 28 anos, tem se desdobrado para manter seu negócio ativo. “Antes da crise nós já trabalhávamos com delivery, mas só aos finais de semana. Agora, com a impossibilidade de abrir o local, expandimos as entregas de quinta a domingo, mesmo assim tivemos uma queda de 95% nas vendas brutas e por isso não estamos conseguindo fechar as contas”, compartilha.

Para reduzir os gastos, a equipe precisou se tornar mais enxuta. “Suspendemos o contrato de quatro funcionários, penhoramos dois carros da empresa e também já demos entrada no Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) para conseguirmos uma linha de crédito”, conta Drezza.

Mesmo com esses recursos em andamento, o que preocupa o gerente é a imprevisibilidade de reabertura. “Não sabemos o que nos espera. Além disso, o nosso estabelecimento trabalha com um modelo diferente de negócios, sempre com eventos musicais e aglomeração de pessoas, o que é mais um entrave para retomarmos nossas atividades”, reflete preocupado.

Para o proprietário de uma hamburgueria da cidade, Rafael Zochetti, de 41 anos, o delivery foi uma surpresa positiva. “Antes tínhamos uma parceria exclusiva com o Ifood, mas com a quarentena decidimos romper esse contrato para podermos trabalhar com outros aplicativos de entrega. Com a boa aceitação do público, tivemos inclusive que ampliar nossa equipe”, conta o empresário.

Além da opção de entrega, o estabelecimento também disponibiliza a retirada do pedido no local. “Ficamos surpresos com a quantidade de clientes que optam por retirar o pedido no salão. Temos a sensação de que mesmo podendo evitar, as pessoas estão ansiosas para saírem de suas casas”, observa o proprietário.

PLANOS ADIADOS
Há seis anos, Valéria Aparecida Almeida da Silva, de 54 anos, possui uma lanchonete no Jardim do Lago e planejava planejava se mudar para uma locação mais ampla, no entanto, com a quarentena, o sonho foi adiado. “Não estamos conseguindo sequer fechar as contas, imagine expandir nossas instalações”, conta a proprietária, ressaltando que teve que demitir um dos funcionários.

Para ela, o delivery tem sido a única alternativa. “Nosso faturamento teve uma queda de 40%, mas nos últimos meses, depois que aderimos às entregas, tivemos uma melhora de 10 a 15% nas vendas”, explica.

Ainda que os aplicativos de entrega sejam responsáveis pelo impulsionamento das vendas, Valéria acredita que a fragilidade econômica do próprio consumidor é um forte agravante. “Nossa clientela é muito fiel, mas temos percebido que até quem costumava consumir toda semana tem se policiado. Em tempos de crise, nós sabemos que não dá pra ficar gastando”, pontua, valendo-se de que ela mesma tem seguido essa estratégia em seu dia a dia.

MEDIDAS CAUTELOSAS
O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Jundiaí (CDL) e do Sindicato do Comércio Varejista de Jundiaí e Região (Sincomercio), Edison Maltoni, alerta os comerciantes sobre a importância de calcular os riscos de toda e qualquer ação. “No caso de um empréstimo, por exemplo, seja pelo banco ou por iniciativas governamentais, é preciso entender que futuramente este dinheiro terá que ser quitado. No caso dos bancos, certifique-se também de que, ao aderir o empréstimo, você não estará adquirindo outros produtos como um título de capitalização ou um seguro. Não assuma uma carga maior do que aquela com a qual você pode arcar”, aconselha.

Maltoni ressalta ainda que as expectativas para a flexibilização do Plano São Paulo no município, bem como a possibilidade do Aglomerado Urbano de Jundiaí (AUJ) de se desmembrar da região de Campinas são altas, e que ambas ações serão essenciais para a prosperidade do setor comercial. “Não achamos que o comércio seja o grande difusor dessa pandemia. É possível realizarmos nossas atividades tomando todos os cuidados necessários. Precisamos voltar a trabalhar para que o dinheiro circule e para que, assim que possível, possamos atuar conforme o novo normal”, argumenta.

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