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Depressão não tem cura, mas tem controle

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 14/04/2019 | 05:05

“Eu percebi que estava bem quando tudo desabou e me mantive firme. Fim de relacionamento, problemas com a faculdade, pressão no trabalho. Notei que aquilo eram coisas normais na vida e eu só dependia de mim pra segurar a onda e me reerguer. Quando fiz isso vi como era forte e ainda sou. Hoje essas coisas não me derrubam. Me fazem ter vontade de partir pra cima e resolver cada problema”. A atitude positiva de Henrique Lopes (20 anos) o afastou da depressão, que o assombrou por cinco anos. Ele conta que aos 14 anos, ao perceber que gostava de uma colega de classe, começou a enxergar problemas em si mesmo. “Me achava estranho, gordo e feio. Sentia que não era bom o suficiente nas coisas que fazia. Comecei a me afastar das pessoas e me tornei fechado. Não procurei ajuda na época, achava que estava bem, que era normal se sentir assim. Até que em 2018 tive uma crise horrível. Queria acabar com tudo. Procurei ajuda profissional e comecei a fazer coisas que me deixavam bem”, relata.

Além da terapia, que ajudou o jovem a melhorar, achou também refúgio em uma escola de samba de São Paulo. “Tocar me fazia bem, focava a atenção no que estava fazendo e esquecia os problemas. Comecei também a ir na academia e manter hábitos de vida mais saudáveis”, conta. Henrique não precisou usar medicamentos. Mudanças na rotina e atividades prazerosas foram fundamentais. “Ler, escrever, cantar, tocar e fazer exercícios foram terapias que usei para me reencontrar”, conta.

Nem todos tem a mesma história que Henrique. A depressão atinge 350 milhões de pessoas no mundo e pode apresentar várias intensidades. O psiquiatra Ivo Pinfildi Neto explica que a doença tem alguns sintomas característicos. “Causada na maioria das vezes por problemas emocionais ou em alguns casos por alguma disfunção no organismo, a doença quando aparece pode ocasionar tristeza, angústia, desânimo, perda de energia física e do prazer em situações que antes geravam satisfação, falta de esperança, pessimismo, alterações do sono e do apetite, dificuldades em se concentrar e pensamentos negativos”, afirma. Dependendo da intensidade são necessários intervenção médica e uso de remédios para controlar as crises.

Controle
Pedro Anes Pires, pesquisador e tecnólogo de informática conta que precisou passar por psicoterapeutas e usar medicamentos desde os 17 anos. Hoje, aos 29, não se considera curado pois seu caso é crônico, mas afirma que consegue manter a doença sob controle. “Entendo que ela está controlada pois, em primeiro lugar, estou produtivo. Consigo fazer tarefas referentes ao trabalho e aos estudos, e me divertir, conversar com as pessoas. Minha depressão sempre foi do tipo apática. Por isso sei que está controlada quando consigo sair da cama todos os dias e fazer alguma coisa”, explica.

O pesquisador conta que, além de terapia e medicação, o relacionamento com amigos e os estudos ajudam até hoje no controle. “Cultivei amigos que me apoiaram até nos piores momentos. Me apoiam até hoje. Além disso, me tornei uma espécie de autodidata, e procurei aprender mais sobre o funcionamento de mente e cérebro, a ação dos medicamentos, e como a depressão afeta. O conhecimento sobre minha própria doença me traz segurança e me ajuda a lidar melhor com ela”, afirma.

Fazer o que gosta
Atividades rotineiras podem ajudar na vida de uma pessoa com depressão. Andrea Meier Giacaglia conta que é muito importante entender que possui a doença, identificar quando ela ataca e realizar coisas que deem prazer. “Me sinto bem cuidando das minhas plantas, levando meu cachorro para passear, costurando e conversando com as minhas amigas. Além disso, realizar trabalhos voluntários me traz alegria. Vemos que muitas vezes as pessoas passam por problemas iguais ou piores que os nossos. Poder ajudar essas pessoas é algo que me deixa bem e me faz esquecer dos meus próprios”, conta.

Depressão não é frescura, como algumas pessoas acham. É uma doença que, apesar de não ter cura, pode ser controlada, fazendo com que a pessoa viva uma vida feliz. De acordo com Ivo, o tratamento da depressão é algo individual, ou seja, muda de acordo com o paciente. Entretanto, ajudar a pessoa a olhar para a sua própria trajetória de vida é fundamental. “Compreender a biografia, formação, escolhas e princípios de vida contribui para o paciente enfrentar e entender a depressão como um ponto de virada positiva em sua vida, trazendo mudanças, reflexões e possibilitando alterações em si mesmo”, afirma.


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