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Depressão pós-parto atinge 10% das mulheres e é preciso conversar sobre o assunto

vinícius scarton | 29/06/2018 | 05:00

Alteração hormonal, problemas na gravidez ou no parto, aliado ao medo, tristeza, estresse e até dificuldade financeira. Esses são os principais fatores que podem desencadear a depressão pós-parto. De acordo com o ginecologista e obstetra do Hospital Universitário de Jundiaí, Francisco Pedro Filho, 10% das puérperas (período pós-parto) têm possibilidade de desenvolver essa doença, que necessita de tratamento e acompanhamento especializado. “Esse percentual pode dobrar em casos referentes às pacientes que já tenham apresentado este quadro anteriormente”, destaca o médico.

Segundo o ginecologista, diversos sintomas são notados: quando a mulher chora frequentemente, torna-se desmotivada, está sempre irritada, tudo perturba e sempre age com muito exagero. “Além disso, essa melancolia surge pela falta de interesse sexual do parceiro e quando ela tem o sono perturbado, sentindo-se incapaz em lidar com a nova situação de cuidar de um bebê”, descreve. O especialista ressalta que normalmente a família faz o primeiro contato com a paciente e depois a encaminha para os cuidados médicos. “Após o parto, grande parte das gestantes sofre uma melancolia, conhecida baby blues e muitas vezes se trata de uma fase transitória, que acaba passando normalmente. No entanto, se a pessoa não melhora entra em uma fase mais grave, ou seja, a depressão”, diz.

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Entre as especialidades que podem auxiliar no tratamento, além do obstetra, o médico cita o trabalho de psicólogos e psiquiatras. “Existem tratamentos com e sem medicações específicas. Neste caso, as famílias precisam estar atentas para detectar anormalidades. Se for esse o caso, é imprescindível procurar ajuda, pois a depressão pode refletir nos cuidados da criança”, orienta.

HISTÓRIAS DE VIDA
A dona de casa Ariadne Sampaio Lara, de 25 anos, sofreu depressão pós-parto um mês após o nascimento do filho Joaquim, hoje com 4 anos. Segundo ela, o que desencadeou a doença foi saber de uma necessidade do filho, que nasceu com microcefalia. “Naquela ocasião não aceitei a situação logo de cara e agia como se ele não existisse”, lembra. Ariadne conta que naquele período teve o apoio da mãe, da avó e de uma secretária que atuava como babá para auxiliar nos primeiros cuidados com o filho. “Mas depois de algum tempo, quando elas retornaram para suas cidades e fiquei apenas com meu marido, que na época trabalhava fora, passei a ficar muito sozinha, culminando em um sentimento de solidão profunda”, recorda.

Foi então que Ariadne começou a ter ansiedade e medo de fazer algo ruim contra o filho. Ela também lembra que sentia vontade de morrer. “Esse quadro durou dois anos em minha vida, pois eu não procurava ajuda e não aceitava que estava doente. Isso acabou refletindo na primeira infância do Joaquim, no meu casamento, que chegou ao fim em 2016, e até em minha vida”, lamenta. Somado a todos os problemas, o pequeno Joaquim também passou a ter epilepsia, necessitando de uma atenção especial. “A partir deste momento comecei a reerguer a minha vida, passando a ajudar o meu filho, voltando a trabalhar e a morar com os meus pais e encontrar um novo amor, alcançando um suporte que não tinha antes”, resume.

Ariadne diz que buscou tratamento há um ano, com psiquiatra e psicólogo. Também tem tomado antidepressivos. “Neste momento meu filho tem obtido evoluções, através do meu afeto, pois agora tenho coragem e vontade de vê-lo cada dia melhor. Além disso, ele já está matriculado na Apae e, em breve será atendido na entidade, vislumbrando cada vez mais a qualidade de vida”, afirma. Outro exemplo de depressão pós-parto ocorreu com a dona de casa Ana Paula Severino Ferreira, de 20 anos, um mês e meio após o nascimento do filho Patrick, em 2015, quando ela tinha apenas 17 anos. “A depressão surgiu devido a um susto que passei ao ver o Patrick quase caindo dos braços do meu marido”, lembra.

Depois deste fato, conta Ana Paula, ela passou a ter medo, pânico e receio de fazer algo contra o próprio filho. “Cheguei ao ponto de não poder mais ficar sozinha com o Patrick”, recorda. Essa situação persistiu por algum tempo, até que Ana Paula conseguiu identificar o problema, se abriu com os familiares e procurou ajuda médica. “Primeiramente passei por psicólogo, que encaminhou o meu caso para um psiquiatra. Tomei antidepressivos por cerca de um ano e meio”, relembra. No entanto, há um ano a dona de casa não toma mais medicamentos e sua vida mudou, garante. “O convívio com meu marido e meu filho está bem melhor, pois aprendi a lidar com os problemas e adversidades da vida.”

Foto: Alexandre Martins/Jornal de Jundiaí

Foto: Alexandre Martins/Jornal de Jundiaí


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