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É necessário dialogar sobre bebidas alcoólicas

Mariana Checoni | 19/01/2020 | 06:00

A adolescência é uma fase de descobertas que assusta muitos pais e até mesmo os filhos que estão passando por ela. É nela que os ciclos de amizade se fortalecem, as opiniões ficam mais evidentes e o jovem busca encontrar seu lugar no mundo. É nesta faixa etária também que outro problema costuma surgir: o consumo de bebidas alcoólicas que, segundo a lei, é proibido para menores de 18 anos.
De acordo com a última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), os adolescentes têm a primeira experiência com o álcool, em média, aos 12 anos.

Um relatório do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) ainda aponta outro dado. O número de meninas que está experimentando bebidas alcoólicas aumentou no Brasil, e o consumo é feito com mais regularidade. Quando questionadas sobre embriaguez, 26,9% das adolescentes entre 13 e 17 anos relataram um episódio do tipo, contra 27,5% dos meninos.

Para evitar situações ruins por conta do álcool, a orientação dos pais é fundamental. Paula de Souza, 21 anos, conta que, em sua casa, seus pais sempre a alertaram sobre o consumo de bebidas. “Meu pai tem um histórico ruim por conta do álcool e eles não querem que isso se repita em mim ou na minha irmã. Por isso, sempre foram muito cuidadosos e conversavam muito com a gente. Eu gosto de beber, mas procuro maneirar para não causar problemas”, afirma.

A transição da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta traz mudanças significativas para a vida de uma pessoa, sendo essas mudanças físicas, psicológicas e sociais. A psicóloga Bruna Vieira Gomes explica que existe múltiplos fatores que contribuem para os jovens iniciarem o consumo de álcool de forma precoce. “A oferta para o consumo, diversas propagandas, baixo custo e estimulação da sociedade por não considerarem como uma droga despertam o interesse do jovem em experimentar e conhecer quais são os efeitos que a bebida causa. Além disso, o álcool traz sensação de pertencimento de um grupo e também é usado como ferramenta para diminuir a timidez e a ansiedade e uma válvula de escape para fugir de algum problema, pois dessa forma encontram um modo de anestesiar dificuldades e não entrarem em contato com a dor. A bebida se torna um refúgio”, afirma.

A maior preocupação é que o uso do álcool na juventude pode desencadear a dependência alcoólica, gerando o alcoolismo. Dados apontam que o consumo pode aumentar a violência e os acidentes de trânsito. Por isso, a psicóloga ressalta que a participação dos pais é muito importante nessa fase. “É necessário que a família construa uma relação com os jovens por meio do diálogo, respeito e confiança. Essa relação deve ser construída desde sempre, pois conforme os filhos vão crescendo, os assuntos vão sendo expostos e devem ser conversados. Não existe idade ideal. A partir do momento em que o filho entra em contato e começa a sair com os amigos e se interessar sobre o assunto, é importante que os pais conversem”, explica.

Riscos

O pediatra Saulo Duarte Passos explica sobre os riscos do consumo de bebidas alcoólicas na adolescência. “Essa exposição precoce pode gerar muitos problemas, pois o corpo e o cérebro ainda não completaram o processo de maturação, ou seja, ainda estão se desenvolvendo. Alcoolismo infantil, problemas na cognição, concentração e entendimento dos fatos, atraso nos estudos e ainda uma porta para outros acidentes”, afirma.

O pediatra conta que o número de jovens que dão entrada nos hospitais por alguma complicação por conta da bebida está cada vez maior. Esses números aumentam ainda mais em alguns períodos do ano. “No Carnaval, nas festas de fim de ano, no período das férias e nos dias de trotes na faculdade são os dias em que mais temos casos de jovens nesta situação. Como são situações onde eles formam grupos e todos bebem, a situação acaba fugindo do controle”, explica.

O ideal é não beber antes dos 18 anos, mas caso aconteça e alguém passe mal, é importante procurar o pronto-socorro e chamar os pais do adolescente. “Os pais precisam ficar atentos, caso os problemas com o álcool sejam constantes, pode indicar que o jovem esteja enfrentando alcoolismo e, para isso, é necessária uma avaliação médica e dependendo dos casos, tratamento”, explica o pediatra.

Proibir é pior

Quando os pais permitem que os filhos conversem sobre qualquer assunto, a relação se torna muito melhor. A jovem Vanessa Yuria Toyomoto Okazaki, 19 anos, conta que os pais são muito tranquilos e conversam abertamente sobre qualquer coisa, pois a criação deles foi da mesma forma. Para ela, isso só fortaleceu os laços e gerou mais confiança. “Meus pais sempre foram tranquilos em relação à bebida. Desde a adolescência me deixavam tomar a “espuminha” da cerveja para experimentar. Eles acham que proibir e castigar só vai incentivar o jovem a beber escondido. Além disso, essa foi uma maneira de me orientar, pois eles preferem que eu beba em casa, conscientemente, ao estar bêbada na rua ou em alguma festa”, afirma.

A psicóloga ressalta que impor aos filhos que eles não tomem uma determinada atitude não fará com que eles obedeçam, às vezes, terá o efeito contrário. “É legal conversar e entender o porquê eles apresentam o interesse em experimentar bebidas alcoólicas e qual é o significado que a bebida tem para eles. Os pais precisam expor aos filhos a preocupação a respeito do consumo do álcool e quais são as possíveis consequências, para que estejam conscientes de suas escolhas. A relação deve ser próxima, de igual para igual, uma troca, ao contrário do que muitas pessoas pensam, este tipo de construção aproxima pais e filhos e faz com que as barreiras e medos sejam diminuídos, e que a sinceridade sempre prevaleça”, afirma.

 


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