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Educação sexual nas escolas incentiva denúncias de estupro de vulnerável

BÁRBARA NÓBREGA MANGIERI | 19/01/2019 | 05:03

Pelo menos 527 mil pessoas são estupradas todos os anos no Brasil, e 70% das vítimas são crianças e adolescentes. Em 24,1% dos casos, o agressor é o próprio pai ou padrasto, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O levantamento é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan).

As estatísticas contrariam os críticos da educação sexual nas escolas, que temem que as aulas incentivem a erotização precoce de crianças. O maior argumento deste grupo é que a família deve ser responsável por tratar do assunto com seus filhos da forma que achar melhor. Mas e quando um membro da família submete a criança a abusos sexuais?

Debater e ensinar sobre sexualidade nas escolas pode abrir uma porta – às vezes a única – para que crianças e adolescentes relatem e denunciem esses agressores. “Sabemos que a maior parte dos abusos é cometida por familiares. Portanto, é fora deste contexto que a criança tem coragem para se abrir”, afirma Cristina Castilho, coordenadora da Casa da Fonte. A entidade do segundo setor atende 300 crianças e adolescentes no Jardim Novo Horizonte e já recebeu inúmeras denúncias ao abordar o assunto. Ao contrário do que se poderia pensar, o debate sobre sexualidade na entidade tem diminuído os casos de gravidez na adolescência. “Não temos um há cinco anos”, diz.

A educadora sexual Laura Stoppa afirma que as aulas não ensinam sobre sexo. “A educação sexual fala sobre consentimento e emoções, sobre entender e respeitar os limites do próprio corpo e do corpo do outro”, explica. “O conteúdo é adaptado à idade da criança e, quanto mais cedo começar, mais elas estarão preparadas para reconhecer a diferença entre uma atitude afetuosa ou abusiva”.

Para ela, a família nem sempre é a mais adequada para abordar um assunto tão cheio de tabus. “Pais e adultos têm muita dificuldade de falar com as crianças sobre sexualidade, porque eles mesmos não tiveram esse tipo de orientação. Eles podem ter tantas dúvidas quanto a criança ou repassar comportamentos pouco saudáveis por viverem relações frustradas”, diz.

A especialista ainda alerta para a forma como o assunto pode ser abordado. “Educação sexual em casa pode ser ensinada de forma abusiva, dentro de uma relação de poder desigual. Isso só alimenta o ciclo da violência e contribui para o aumento dos números”, alerta.

Na relação entre pais e filhos, o limite entre afeto e abuso pode ser difícil de ser entendido por uma criança pequena. A psicóloga Silmara Meireles explica que o abuso por parte de familiares vem transvestido de carinho e afetividade. “Quando o agressor é alguém próximo, que tem uma relação de vínculo com a criança, o abuso produz uma confusão sobre onde termina o carinho, o cuidado, e onde começa a violência”, afirma.

Ela ainda afirma que, quando uma criança cresce acreditando que os comportamentos abusivos de familiares são normais, algumas patologias podem surgir. “O abuso sexual promove um sofrimento emocional muito devastador para o desenvolvimento psicológico, afetivo e sexual”, diz.

Para que a criança possa denunciar a agressão sofrida, ela precisa de um ambiente seguro e de confiança para que ela seja capaz de pedir ajuda. “Não promover espaços que ofereçam educação sexual às crianças é continuar negligenciando tantas vítimas”, ressalta Silmara.

CASA DE NAZARE ABUSO SEXUAL


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