Jundiaí

Em Jundiaí, cresce 20% o número de atendimentos psiquiátricos


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Crédito: Reprodução/Internet
“Eu não sei até hoje o que eu sentia. Era uma dor interna, muito profunda.” A frase é da estudante Noany Lopes, 17. Ela faz parte de um grupo etário que preocupa especialistas e alerta para um cenário de crescimento no país. O número de casos de crianças e adolescentes com internações psiquiátricas entre os 15 e os 19 anos subiu de 85 para 95 por cem mil habitantes em 2018, alta de 12%. Se considerar as idades entre 10 e 14 anos, a porcentagem aumenta para 36%, de 14 para 19 por 100 mil. Se considerar os últimos dez anos, o aumento foi de 29%. Em Jundiaí, o número subiu 20%. Os dados são do sistema de informações hospitalares. Em uma tarde no ano passado, a estudante decidiu tirar a própria vida, com o incentivo do então namorado. “Tudo foi virando uma bola de neve. A perda de um parente também pelo mesmo motivo, a morte da avó, tempo antes, a briga com uma amiga. Tudo acumulando.” A mãe da garota, Marisa Lopes Martins Pereira, 47, encontrou a filha no banheiro. “No momento eu só queria saber de deixar minha filha bem de saúde. Depois a gente fica pensado onde a gente errou e não encontra uma resposta. Às vezes, as coisas fogem do controle. Sempre fomos muito próximas”, diz. Em Jundiaí, esse número acompanha o processo de alta. Os atendimentos do Centro de Assistência Psicossocial (CAPS) cresceu de 2017 para cá. Naquele ano 7.769 crianças e adolescentes receberam atendimento; em 2018 foram 9.961 – aumento de 20%. Até agosto desse ano, data da última atualização, foram 8.465 acompanhamentos clínicos. Atualmente, 622 crianças e adolescentes são tratados nos CAPS da cidade. O psiquiatra clínico Ivo Pinfildi Neto, especialista em tratamento com crianças e adolescentes com essa faixa etária, contextualiza o cenário que leva as pessoas a tomarem atitudes como essa. “Esse cenário traz um nível de auto-exigências, de expectativas, o medo de falhar. Isso vai criando uma rigidez. O ser humano não sabe lidar com incertezas. Isso traz uma fuga no lado emocional. O fato de andar nos padrões. Uma questão importante é a relação pais, filhos e escola.” A criança pequena precisa de dois elementos: se sentir segura e brincar. Se sentir protegida. A criança que internaliza isso fica dentro dela. A vida tem várias etapas. Quando você pula essas etapas, elas não voltam mais e você acaba acumulando buracos internos. O susto da família passou, e hoje Noany se prepara para encarar a vida adulta. Ela passou no vestibular e vai cursar a faculdade de design de interiores. “Depois de muito tempo eu me arrependi do que fiz”, comenta a estudante. O diálogo dentro de casa também faz parte do processo. “O adolescente que já está frágil tende a transformar a informação em impulsividade. O diálogo dentro de casa também é fundamental e faz parte do processo”, finaliza Ivo.

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