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Epilepsia não impede uma vida comum

COLABORAÇÃO MARIANA CHECONI | 19/05/2019 | 05:00

Epilepsia é uma doença que ocorre por uma alteração temporária do funcionamento do cérebro. Durante um período, que pode durar segundos ou minutos, os neurônios emitem sinais errados em uma parte do cérebro. Se os sinais incorretos ficarem restritos a um local, a crise é chamada de parcial, se se espalharem por todo o cérebro, generalizada. Isso interfere nos sintomas da doença, que podem ser mais ou menos evidentes.
A doença não tem uma única causa. De acordo com o neurologista da Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), Richard Montgomerry, a epilepsia pode ter como causa desde uma má formação cerebral congênita até um tumor ou infecção no  cérebro. “Qualquer agressão ao cérebro pode causar epilepsia. Às vezes, o paciente nasce com tendência a ter a doença, outras vezes ele sofre um acidente que causa uma lesão cerebral. O Acidente Vascular Cerebral (AVC) também pode ser uma causa. Por isso é importante ressaltar que a não existe uma só causa para o paciente ser epilético”, afirma.
O médico afirma que as crises epiléticas podem ocorrer de várias formas. Algumas mais leves que outras. “Uma das manifestações da doença são as crises convulsivas, que são manifestações motoras. Nessas crises, o paciente perde a consciência e cai, ficando com o corpo rígido e as extremidades, como pernas e braços, tremem e se contraem. Existem também as manifestações sensoriais, por exemplo, as crises de ausência. Nesse caso, a pessoa fica ausente, como se estivesse “desligada” por alguns instantes e logo em seguida retoma as atividades”, explica.
Esse é o caso de Alicia Semezies Vitachi, 6 anos. Sua mãe, Elisa Vitachi, desconfiava da doença, mas os médicos sempre diziam que a garota não tinha nada. “Desde bebê Alicia se contorcia muito e os médicos diziam que era normal. Sempre achei estranho, pois ela chorava muito. O tempo foi passando até que por volta dos três anos ela começou a ter o costume de se jogar no chão, gritar e chorar muito em algumas situações. Os médicos diziam que era birra, pois eu não dava limites. A situação piorou na escola, os professores reclamavam muito dela”, conta. A situação não melhorou e a menina ficava incomodada com alguma coisa. “Percebi que barulho e luzes a enlouqueciam, principalmente nos supermercados e shoppings. Também percebi que às vezes ela estava comendo ou brincando e, do nada, ela ficava parada, como se congelasse por alguns segundos. Foi então que comecei a pesquisar na internet para ver se achava alguma resposta”, relata. Elisa conta que começou a estudar e focou na neurociência. Achou uma das manifestações da doença. A crise de ausência. “Pela internet, fiz um teste de luzes que provoca uma crise em quem é epilético . Antes de testar nela, fiz em mim e em toda família. Não aconteceu nada com ninguém. Criei coragem e fiz nela. Ela teve uma crise, ficou exatamente como sempre ficava. Desligada do nada. Fui então ao décimo médico e ele felizmente me ouviu. Confirmou a epilepsia com o vídeo caseiro que fiz. Depois disso, fizemos dois eletroencefalogramas nela que acusaram oficialmente que ela tem a doença”, relata.

Tratamento
Montgomerry afirma que não é possível definir um único tipo de tratamento para epilepsia pois, eles variam de acordo com a necessidade de cada paciente. “O tratamento varia de acordo com algunsfatores como o tipo da crise, a área cerebral afetada, a resposta do paciente ao medicamento e ainda a condição financeira da pessoa. Algumas pessoas tem condições de pagar pelo remédio e outras pegam pelo SUS. Por isso é difícil definir um tratamento. Muitas vezes o paciente precisa experimentar diferentes medicamentos até achar um que ofereça resultado”, explica.
É possível viver uma vida normal. De acordo com o médico, a pessoa epilética somente precisa evitar ações que propiciem uma crise. “Falta ou excesso de sono, ingestão de bebidas alcoólicas, uso frequente e contínuo de celulares e videogames que emitem oscilações de luz, excesso de ansiedade são fatores que tendem a aumentar a chance de causar crises por isso, devem ser evitados”, afirma.
Alicia brinca e se diverte como qualquer outra criança. Elisa conta que precisa monitorar o tempo que a menina fica em frente da televisão, a incidência de luzes perto dela e a quantidade de barulho, que são gatilhos pra uma crise. “Além disso, há algumas atividades que ela não deve fazer como andar de cavalo, natação ou esportes que possam causar acidentes caso ela tenha uma crise de ausência. Alicia estudou em casa por um ano pois, o ambiente a estressava muito. Atualmente, ela toma medicação e está matriculada novamente na escola, onde terá uma monitora. O ano letivo começa em setembro”, explica Elisa.
Montgomerry ressalta que é muito importante que os pais não sejam super protetores em relação a criança com epilepsia. “Eu recebo muitos pacientes que são crianças ou adolescentes e percebo que a relação dos pais e da família com eles é pior que a própria doença. Muitas vezes os pais protegem demais esses jovens e tornam a vida deles mais difícil pois, faz com que não tenham frustrações e experiências normais para a idade. Isso gera problemas de adaptação na formação da personalidade fazendo com que cause uma repercussão muito maior na vida do paciente do que a própria doença. É preciso tratar a pessoa epilética da maneira mais próxima que trataríamos uma que não tem. Assim deixamos que ela viva a vida mais normal possível ”, afirma.

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