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Escutar o outro pode ser salvação no suicídio

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 14/07/2019 | 17:38

“Desespero, agonia e falta de esperança. Mãos trêmulas, insegurança, incerteza que causa uma confusão maior do que a vontade de acabar com a dor. Não é uma dor física e nem explicável com facilidade, pois dói a alma.” Esse relato é de um jovem que não quis se identificar e que já tentou tirar a própria vida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio atinge 800 mil pessoas por ano no mundo todo e é a segunda maior causa de óbito entre jovens de 15 a 29 anos.

Segundo a psicóloga educacional Lenita Romanato, este comportamento é resultado de uma série de fatores. “Podem ser biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais ou ambientais. Depende da situação de cada paciente. Atualmente, por não possuir causa específica, este assunto é uma grande questão de saúde pública em todos os países”, explica.

A psicóloga afirma que várias causas podem levar uma pessoa a tirar a própria vida. “Entre as mais comuns podemos citar depressão, dependência de álcool, violência, abuso e isolamento em qualquer faixa etária, pessoas com vidas perturbadas e caóticas, perdas recentes (entes amados, dinheiro, bens ou trabalho), separações, divórcios e rejeições. Pessoas que vivem sozinhas ou são separadas são mais vulneráveis”, ressalta.

ADOLESCÊNCIA

Com a tecnologia, os meios e as facilidades do acesso aos métodos, informações e motivos para se cometer suicídio estão cada vez mais presentes na vida dos jovens. “Esta exposição a adolescentes vulneráveis pode ser influenciadora. O bullying também é considerado um dos principais motivos de suicídio na fase infantojuvenil”, afirma. Lenita explica que outro motivo que tem levado os jovens ao ato é a falta de tolerância à frustração. “As crianças não sabem ouvir o não como resposta básica, sendo assim não sabem como aceitar a negação em pequenas e grandes situações. As redes sociais também trazem a falsa ilusão de que só ele tem problemas e que todas as outras pessoas são felizes e jamais se decepcionam”, afirma.

COMO AJUDAR

“Para prevenção, reduzir o acesso fácil aos influenciadores e aos métodos e meios de cometer suicídio é uma estratégia efetiva de prevenção. Estima-se que hoje a mídia seja o terceiro maior motivador de comportamento suicida”, afirma Lenita.
Em qualquer idade há alguns comportamentos que se assemelham. Retração, instabilidade para se relacionar com a família e amigos, mudança de personalidade, irritabilidade, pessimismo, depressão ou apatia, mudança de hábitos de sono ou alimentares, sentimento de culpa, automutilação, cartas de despedida ou menção repetida de morte são alguns desses, que podem indicar que a pessoa precise de ajuda.

Qualquer pessoa pode ajudar quem está com ideação de suicídio. “O comportamento suicida é multifacetado, a ideação suicida pode ser totalmente silenciosa, por isso a importância da atenção e da orientação dos familiares, por serem as pessoas mais próximas desses indivíduos. Achar um lugar adequado onde uma conversa tranquila possa ser mantida com privacidade razoável, sem pressa. Neste momento, a tarefa mais importante é ouvi-la efetivamente”, explica.

A postura tem de ser calma e confiante. “Sempre expressar respeito pelas opiniões e valores da pessoa, conversar honestamente e com autenticidade. Mostrar sua preocupação, cuidado e afeição e sempre focalizar nos sentimentos da pessoa. Diga que está sempre ao lado dela e que vai ajudá-la a procurar tratamento. Durante a conversa, evitar interromper muito frequentemente, ficar chocado ou muito emocionado, dizer que você está ocupado, não fazer comentários invasivos ou que deixem a pessoa em posição de inferioridade. Uma conversa calma, aberta, de aceitação e de não-julgamento é fundamental para facilitar a comunicação, no momento do desespero. Além disso, tão importante quanto não deixar a pessoa sozinha é tirar o acesso a possíveis meios suicidas”, ressalta.

“O que faz a diferença na decisão entre a vida e a morte não é só a presença de fatores de risco, mas também as medidas de proteção e prevenção disponíveis e oferecidas. Se colocar no lugar do outro, compromisso, sensibilidade, conhecimento, preocupação com outro ser humano, como exercícios diários e a crença de que a vida é um aprendizado que vale a pena, são atitudes que podem ajudar a prevenir o suicídio e preservar a vida”, pontua a psicóloga.

Até crianças ligam ao CVV

Jundiaí conta com um ponto de atendimento do CVV (Centro de Valorização da Vida). A coordenadora do posto e voluntária há 18 anos, Maria Bernadete Amaral Carneiro conta como é realizada a abordagem quando os voluntários recebem alguma ligação ou mensagem. “O CVV é um canal somente de escuta. Os voluntários estão aqui para ouvir as pessoas. Não julgamos o que escutamos e evitamos dar conselhos, pois é algo que não cabe a nós”, afirma.

O aposentado José Carlos Falcade, aos 60 anos, é voluntário no CVV Jundiaí há três. Conta que, após se aposentar, viu na ONG uma oportunidade de ajudar as pessoas. “Eu fico aqui escutando as histórias e faço o possível para ajudar pessoas do Brasil todo. Tem gente que não liga na intenção do suicídio, mas somente para conversar, ouvir um bom dia, falar sobre a vida, pois são muito sozinhas”, conta. José afirma que o que mais toca o coração é quando crianças ligam pedindo para conversar.
Além dos atendimentos, o CVV desenvolve, em todo o país, outras atividades relacionadas a apoio emocional, com ações abertas à comunidade que estimulam o autoconhecimento e melhor convivência em grupo e consigo mesmo.

O CVV Jundiaí precisa de voluntários para o auxílio nos atendimentos. Para isso, basta ter mais de 18 anos e passar por um curso de capacitação.

Os contatos com o CVV são feitos pelos telefones 188 (24 horas e sem custo de ligação), ou pelo site www.cvv.org.br, por chat e  e-mail.

Os contatos com o CVV podem ser feitos pelo número 188, email ou chat


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